Coração sertanejo: Capítulo 7 – A Ovelha negra

Coração sertanejo: Capítulo 7 – A Ovelha negra

CENA I
(Retorna o diálogo entre Ritinha e Patrícia, com Ritinha colocando Patrícia contra a parede).
RITINHA: Então é isso Patrícia? É isso que o Rodrigo representa pra você? Uma conta bancária? Pensei que você, pelo menos, gostasse dele de verdade mas já vi que não, já vi que você só quer dar o golpe do baú.
PATRÍCIA: E você o que tem a ver com isso? Vai cuidar da sua vida, vai limpar essa casa que está imunda. Vai lavar minhas roupas e pense duas vezes antes de dirigir sua palavra a mim. Seu ser insignificante. (ela sai_ Dr. Emerson chega e pousa as mãos no ombro de Ritinha)
DR ÉMERSON: Não ligue pra ela não Ritinha, minha filha infelizmente puxou a mãe dela, só pensa em dinheiro e luxo e o pior acha-se superior aos outros. Eu não sei o que faço com essa garota, não sei onde errei.
RITINHA: Quando não lhe deu umas boas palmadas isso sim. (sai)

CENA II
(HORA DO ALMOÇO_ sala de jantar da família de Antônio Dias, todos estão em volta da mesa, entra Bastião).
BASTIÃO: Patrão, patrão! Descurpa minha curiosidade mais o que senhô vai fazê com aquele monte de cesta básica que tá lá na sua camioneta?
CIDINHA: Cuidado heim Bastião, dizem que a curiosidade matou o gato né? Vai saber lá o que ela é capaz de fazer com um jumento como você.
LUCIANO: Ah Cidinha, não precisa falar assim. Tudo bem Bastião, não tem problema nenhum a sua pergunta, aquelas cestas básicas eu comprei e vou levar pra umas famílias que conheci e que vivem lá pras bandas do Riacho Alegre, eles vivem numa miséria que dá pena, algumas famílias chegam a passar fome.
ANTÔNIO: Se passam fome é porque tem preguiça de trabalhar, de pegar no batente como sempre fiz desde molequinho, e eu acho, sinceramente, que você não devia gastar seu dinheiro com esse povo.
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Também acho.
LUCIANO: Não é bem assim pai, tem muitas famílias onde o responsável pelo sustento da casa está doente e sem condições de trabalhar, outras perderam o pai e marido e a mãe precisa cuidar das crianças, e muitos, embora saudáveis, não conseguem uma vaga no mercado de trabalho, não podemos julgar sem conhecer as pessoas, suas realidades.
LUANA: Acho que isso é coisa que aquela moça andou enfiando na sua cabeça.
LUCIANO: Nada disso, eu sempre pensei assim e acho que a gente só tem a ganhar pensando no próximo.
CIDINHA: Esse é meu patrão, por isso admiro tanto.
LUANA: Puxa saco. (experimenta a comida) Meu Deus essa salada está horrível. Você não sabe cozinhar não Cidinha?
RODRIGO: Pois eu achei uma delicia, como tudo o que a Cidinha faz.
EDUARDO: Eu também.
LUCIANO: Eu também não senti nada de errado na comida não.
LUANA: Isso é porque vocês todos são um bando de puxa saco dessa empregadinha, mas eu não sou obrigada a engolir uma coisa horrível dessas. (joga a comida do seu prato no chão e ordena á Cidinha) agora limpa.
CIDINHA: (em tom irônico) Tem razão Luana, a salada está horrível e o melhor que se tem pra fazer com ela é jogar no lixo. (pega a travessa de salada e derruba toda na cabeça de Luana)
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Como você ousa fazer uma coisa dessas com a minha filha?
(pega uma travessa de creme e joga em Cidinha, mais acaba pegando em Bastião porque Cidinha se abaixa).
LUCIANO: Vamos parar com isso agora. Eu não suporto mais essa briga de vocês duas. Vocês tem que se entender ou não sei mais o que vou fazer.
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Como assim o que vai fazer? Vai mandar essa sua empregada topetuda embora, aliás, já passou da hora. (todos os jovens e crianças correm e abraçam Cidinha).
CLARINHA: Ninguém vai mandar a Cidinha embora não, é ela que cuida da gente.
CECÍLIA: E outra sempre que as duas brigam é porque a Luana começa.
NETINHO: Eu também não quero que a senhora mande ela embora não mãe.
LUCIANO: Claro que a Cidinha não vai embora, mas ela vai ter que parar de brigar com a Luana.
LUANA: Obrigado cunhadinho.
LUCIANO: E você também Luana pare de provocar, agora as duas vão dar um abraço anda. (elas mesmo contra a vontade se abraçam) Isso que bonito! Agora Luana, como foi você que começou com toda essa lambança, vá até a lavanderia pegue a vassoura e limpe tudo isso.
LUANA: Como é que é? Você quer que eu limpe? Mas a empregada é ela.
LUCIANO: Mas quem começou foi você. (ela sai pra buscar a vassoura e Cidinha e Bastião ficando rindo_ alguém bate a porta)
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Quem será uma hora dessas? Será que veio filar a boia?
(Cidinha atende e vê que é Patrícia e faz cara de desdém)
CIDINHA: Ah é você? Affs.
PATRÍCIA: Sou eu sim. Vim conversar com o Rodrigo. (falando com Rodrigo que ainda continua sentando á mesa) Será que a gente pode dar uma volta pra conversar a sós? (eles saem)

CENA III
(no jardim Rodrigo caminha ao lado de Patrícia)
PATRÍCIA: Então Rodrigo, depois daquele dia eu pensei muito em tudo o que você me disse.
RODRIGO: Ah é? E á qual conclusão você chegou?
PATRÍCIA: Você está certo amor. Eu não posso tratar as pessoas de formas diferentes só porque elas não são da mesma classe social que a minha ou porque é minha empregada. Todos merecem ser tratados com respeito.
RODRIGO: Isso é sincero?
PATRICIA: Sim Rodrigo eu estava errada, me desculpe (abraça-o).
RODRIGO: Que bom que você chegou á essa conclusão e está arrependida, eu te amo muito e seria muito difícil pra mim ter que terminar com você.
MÚSICA “Fica Comigo”
PATRÍCIA: Eu também te amo meu amor. (se beijam) Promete que nunca mais vai me deixar? Eu não consigo viver sem você.
RODRIGO: Prometo. Eu também não existo longe do seu amor. (coloca uma flor no cabelo dela e a beija novamente)

CENA IV
(Luciano para com sua caminhonete em frente á casa de Marcela e buzina ela sai)
MARCELA: Luciano, você? (ela abre um sorriso)
LUCIANO: Vim te fazer um convite. Comprei várias cestas básicas e queria entregar para algumas famílias dessa região. Você não gostaria de ir comigo?
MÚSICA: eu nasci pra amar você
MARCELA: Sim, claro. (entra os dois se olham, ele pousa sua mão nas mãos dela)
(Eles visitam várias famílias levando as cestas, alguns brinquedos para crianças deixando as famílias visitadas felizes).
LUCIANO: Ufa tô exausto.
MARCELA: E se a gente fosse tomar um banho na cachoeira?
LUCIANO: Será? Faz uns trinta anos que não entro naquelas águas.
MARCELA: Então está mais do que na hora. Vamos
(Eles entram na caminhonete e se olham com muito amor ele faz um carinho no rosto dela, ajeitando seu cabelo).
LUCIANO: Vamos. (eles saem)
(Na cachoeira ela fica somente com um pequeno vestido de baixo, ele tira a camisa e a bota e sendo guiado por ela, entra na agua, já dentro da água ele para).
MARCELA: O que foi?
MÚSICA: indispensável para mim
(Ele o beija sendo calorosamente sendo retribuído por ela)
(na estrada um carro preto para e dele desce a dona: Luana que fica observando os dois repleta de ira).
PRIMEIRO INTERVALO COMERCIAL

CENA V
MÚSICA: “A mulher em mim”
(Abre-se a cena onde Luana, de seu carro parado na estrada, observa Luciano e Marcela trocando beijos, depois volta para a sua caminhonete onde chora em silêncio, em seguida limpa as lágrimas e olhando no espelho do retrovisor diz para si mesma:).
LUANA: Pare com isso Luana, você é poderosa demais pra ficar ai chorando. Está na hora de agir e passar por cima dessa boia fria morta de fome. (sai acelerando com o carro sem ser notada pelo casal)

CENA VI
(Luciano e Marcela estão abraçados, ela deita sua cabeça no ombro dele e ali se sente protegida, ele carinhosamente afaga seus cabelos e lhe diz).
LUCIANO: Desde que a Yasmim morreu há cinco anos, eu nunca mais senti o que estou sentindo com você. É como se o meu sangue voltasse a circular em minhas veias e o meu coração voltasse a bater. Você devolveu vida á minha vida e nunca mais quero te deixar.
MARCELA: Eu também não consigo mais tirar você da minha cabeça, mas acho melhor pararmos por aqui.
LUCIANO: Mas por quê?
MARCELA: Porque tenho medo, muito medo.
LUCIANO: Medo por quê? Eu jamais irei fazer algo que possa lhe causar dor, eu jamais lhe farei sofrer.
MARCELA: Não é pra me proteger de você, mas é pra proteger você de mim mesma. Eu acredito que você nunca seria capaz de me fazer sofrer, mas eu não posso dizer o mesmo de mim.
LUCIANO: Por que você está dizendo isso?
MARCELA: Por nada, apenas respeite minha decisão e minha vontade e se afaste de mim, por favor, é o melhor que temos a fazer.
LUCIANO: Eu vou me afastar, eu vou respeitar a sua decisão, mas não a sua vontade porque sei que a sua vontade é a mesma que a minha.
MARCELA: E qual é a minha vontade?
MÚSICA: “Eu nasci para amar você”
LUCIANO: Isso (lhe beija e depois saindo do rio a deixa, vendo que ele não está mais ali ela chora por ter tomado tal decisão. __ Luciano sai apressado com a caminhonete).

CENA VII
(Luciano dirigi de forma distraída, pensando em Marcela e quase atropela um senhor que vem atravessando numa carroça. É um homem de idade, roupa esfarrapada, dente estragado na boca, cabelo grande bagunçado e um grande rosário no pescoço.).
LUCIANO: Senhor! O senhor está bem?
PAI ANDRÉ: Estou filho, mas dirija com mais cuidado e preste mais atenção. Sua vida é muito valiosa pra muita gente.
LUCIANO: Obrigado senhor, qual seu nome?
PAI ANDRÉ: André, mais todo mundo me chama de pai André, eu viajo por esse mundão afora de meu Deus pra ajudar a quem precisa e pagar meus pegados. (Olha pra ele) Vejo que está triste. Não fique assim moço, ela vai voltar, ela vai ser sua, pra sua alegria ou pra sua tristeza ela vai voltar, ela está no seu destino assim como você está no destino dela, até que vocês consigam ficar juntos e felizes muitas coisas vão acontecer debaixo desse sol. Mas não desista por que ela é a mulher da sua vida e a pessoa que vai te trazer a verdade.
LUCIANO: Não sei direito o que senhor está falando, mas estou aqui com o meu carro (aponta para a caminhonete) e posso te levar para o hospital pra ver se realmente está tudo bem com o senhor. (vira e não vê mais ninguém) tem certeza que não precisa??? Pai André?? Uai? Onde ele se meteu? (fica ali parado, perplexo, tentando encontrar o velho).

CENA VII
(TARDEZINHA_ casa de Luciano_ Antônio está sentado em sua poltrona tomando café e Luana entra batendo a porta com força)
ANTÔNIO: O que aconteceu Luana? Porque você está desse jeito?
LUANA: Porque seu filho que não tem juízo e nem vergonha na cara.
ANTONIO: O que o estrupício do Fabiano fez?
LUANA: O pamonha do Fabiano não fez nada, aliás, ele não fez nada nunca, ele é um morto que se esqueceu de enterrar. O problema é com o Luciano, seu filhinho preferido.
ANTONIO: O que ele fez com você?
LUANA: Comigo? Bom comigo nada, mas eu o encontrei na cachoeira do Riacho Alegre nos braços daquela moça que invadiu sua sala aquele dia.
ANTONIO: Aquela espevitada? Topetuda?
LUANA: Isso mesmo.
ANTONIO: (Levantando as mãos pra cima, em gesto de agradecimento) Até que enfim meu filho parece que tá voltando a viver. Pensei que nunca mais ia se envolver com nenhuma mulher, e olha que aquela moça é bem gostosinha hein.
LUANA: (grita) Mas ela não tem onde cair morta. É uma pobre morta de fome.
ANTONIO: E daí? Eu também já fui um pobre morto de fome, aliás, você e sua mãe também foram.
LUANA: Ah, mas aquela moça é diferente.
ANTONIO: Sabe o que eu acho mesmo Luana?
LUANA: Não. O que?
ANTÔNIO: Que você devia se preocupar mais com seu marido e com seu filho, cuidar melhor deles e deixar a vida dos outros em paz.
LUANA: Tudo bem. Tudo bem! Depois o senhor não vai dizer que eu não avisei. (sai toda enfezada)
SEGUNDO INTERVALO COMERCIAL

CENA VIII
(TARDEZINHA_ casa de Clóvis Arruda_ Maria Eulália está toda atribulada cuidando do jantar, de repente alguém lhe tapa os olhos).
MARIA EULÁLIA: Quem está ai? Clóvis? (se vira e vê Lenita) Lenita, você minha filha querida. (Maria Eulália fica toda feliz, elas se abraçam) Que saudades!
LENITA: Estava mesmo com saudades?
MARIA EULÁLIA: Sim claro, minha filha.
LENITA: Então porque não foi me tirar daquela clinica de loucos?
MARIA EULÁLIA: Ah filha! Por mim você nunca teria ido para lá, mas sabe como seu pai é, quando ele enfia algo na cabeça, nada é capaz de tirar.
LENITA: E como sempre a senhora não teve e continua não tendo voz para debater com ele, para impor sua vontade não é? (Maria Eulália abaixa a cabeça)
MARIA EULÁLIA: Me perdoe filha.
LENITA: Não peça perdão a mim, porque apesar de tudo eu ainda consigo sobreviver ás armações e armadilhas do senhor Clóvis Arruda, mesmo com feridas profundas na alma. Mas peça perdão pra senhora mesmo, por se permitir viver desse jeito.
(a envolve com seus braços e a leva diante do espelho_ Maria Eulália enxerga no espelho uma pessoa corroída pelo tempo e pela idade com um vestido que mais parece um trapo, um avental todo sujo, marcando pertencer á uma mulher que gasta seu dia nas lidas da casa, sem nenhuma vaidade, sem nenhum cuidado).
LENITA: Olha pra senhora. Até quando vai viver assim? Vai deixar mesmo ele acabar o que lhe resta de vida?
(Clóvis Arruda chega)
CLÓVIS: Lenita, já voltou?
LENITA: Sim senhor papai, pra sua tristeza sim.
CLÓVIS: Espero que todo esse tempo naquela clínica caríssima tenha dado conta de curar você.
LENITA: Depende. Se o senhor entende esse “curar” como me domesticar, e me fazer deixar de ser um problema pra você, sinto muito mais voltei ainda pior.
CLÓVIS: Eu já esperava. Você é um caso perdido mesmo. E a sua irmã, tem noticias dela?
LENITA: Fiquei uns dias no apartamento em que ela está morando, até ela se formar essa semana, como o senhor já sabia, inclusive. E pra sua tristeza, dentro de um mês tá voltando pra cá.
MARIA EULÁLIA: Como assim? Sua irmã se formou e nem nos avisou?
LENITA: Avisou sim mãe, mas o seu marido deve não ter te avisado nada, alias ele mandou dizer á Cacau que não ia perder nem o tempo e nem o dinheiro dele com essas besteiras, foram bem essas as palavras que ele utilizou. A pobre passou a noite toda em claro, chorando, e a única pessoa da família que estava lá com ela, dividindo esse momento tão importante foi a louquinha aqui.
MARIA EULÁLIA: Isso é verdade Clóvis? Por sua casa eu perdi a formatura da minha filha?
CLÓVIS: Ah para de drama mulher! Acha mesmo que ia perder dinheiro com viagem, roupa pra mim e pra você pra ir lá vê-la receber um canudo?
MARIA EULÁLIA: Com suas guengas você não se importa de gastar não é? (Clóvis levanta os punhos para esbofeteá-la, Lenita o segura).
LENITA: Enquanto eu tiver aqui o senhor nunca mais, nunca mais vai encostar essas suas mãos imundas na minha mãe.

CENA IX
(Maria Eulália sai chorando para em um tronco de árvore a beira de um rio que passa á frente da sua casa e chora como uma criança_ Quinzinho chega)
QUINZINHO: Dona Maria. O que foi que aconteceu?
MARIA EULÁLIA: Eu sou um verme, nem sei por que ainda estou viva.
QUINZINHO: O que é isso? Nem por um segundo pense uma coisa dessas, pelo pouco que a conheço, percebi que a senhora é uma mulher incrível, doce, meiga, delicada bondosa e linda.
MARIA EULÁLIA: Linda, eu?
QUINZINHO: Sim, linda por dentro e por fora. Não fique assim.
MÚSICA: “A flor e o beija flor”
(Ele a envolve com seus braços e encosta sua cabeça em seu ombro_ o sol vai se pondo lentamente, presenciando aquela cena onde, pela primeira vez, aquela mulher se sentia desejada, amada e protegida).

CENA X
(NOITE_ sacristia da Igreja_ Padre santo e as beatas conversam)
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Olha padre, quero deixar bem claro que ainda sou contra esse negócio de festa depois da procissão do nosso padroeiro, mas conversei com meu marido e ele me pediu que fizéssemos porque seria muito bom pra ele estar mais próximo do povo.
PADRE SANTO: Claro, e ai quando o assunto é politica né? Quando o assunto é fazer demagogia e iludir o povo. Pra garantir votos pra próxima eleição, ai toda aquela sua preocupação com a moral e os bons costumes do povo vai pras cucuia, não é?
MARIA DA PURIFICAÇÃO: O que o senhor quer dizer com isso?
PADRE SANTO: Nada deixa pra lá, o importante é que a senhora resolveu permitir a festa. Então já que a missa e a procissão estão preparadas vamos preparar a festa e pra isso eu resolvi aceitar a ajuda de algumas amigas que se ofereceram para nos ajudar. (Entra Madame Clotilde e Carmela)
MARIA DA PURIFICAÇÃO: O que essas guengas dos infernos estão fazendo aqui na casa de Deus?
PADRE SANTO: Elas se ofereceram para ajudar na festa e, como nosso santo padre o papa nos orienta a ser uma Igreja que acolhe a todos, independente de qualquer coisa, eu resolvi aceitar.
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Mas essa Jezabel vai promover o que nessa festa? Uma festa da carne? Uma orgia? Um teatro de fornicações? De jeito nenhum. Eu quero essa dai fora da minha igreja.
CLODILTE: Sua igreja coisa nenhuma, essa igreja é de Deus e do povo, todos tem direito a participar e nós vamos participar, nós vamos ajudar o Padre Santo a fazer com que essa festa seja porreta e se a senhora, cheia das moral e das virtudes, ficar ai desfazendo de mim e das minhas meninas eu vou ser obrigado a contar certa história que eu conheci de uma mulher chamada Geralda Pimenta.
CÂNDIDA: Que história é essa?
PUREZA: Quem é essa tal de Geralda Pimenta?
CLODILTE: E então, suas amiguinhas estão loucas pra saber, eu mato a curiosidade delas contando essa história ou vamos começar logo essa reunião e preparar a festa?
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Não me venha com suas historias pecaminosas, se você quer ficar na reunião fique e vamos logo com isso que temos muita coisa pra decidir.
CLODILTE: Melhor assim, porque realmente essa é uma história muito pecaminosa pra ser ouvida por ouvidos tão puros e decentes como o seu.
PADRE SANTO: Podemos começar então?
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Já podia ter começado.
CLODILTE: Bom eu e as meninas vamos ficar responsáveis pelo correio elegante e pela barraca do beijo.
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Barraca do beijo? Ah não isso eu não posso permitir. (todos começam a falar ao mesmo tempo formando um som não entendível _ corta a cena)
TERCEIRO INTERVALO COMERCIAL

CENA XI
Passagem de tempo
MÚSICA: “casinha branca”
(Abre a cena para fazenda de Antônio Dias onde os peões, sob a supervisão de Bastião, cuidam do gado. Corta para o escritório da casa onde Luciano está cuidando de alguns papéis, ele para e fica pensando em Marcela, lembrando-se do beijo na cachoeira. Corta a cena para a casa de Inaiê onde Marcela está na rede também pensando em Luciano. Corta a cena para a externa da casa de Inaiê onde Gabriel está cuidando de seus animais. Abre uma cena noturna com os jovens conversando e se divertindo na praça. Corta para uma cena diurna onde Maria Eulália está estendendo roupas no varal e Quinzinho, que está cortando lenhas, para e fica observando-a, os dois trocam olhares apaixonados. Abre outra cena para a sacristia da Igreja onde as beatas estão discutindo com o padre. Por fim abre uma cena diurna com a praça toda decorada para a festa do padroeiro e escrito na tela “Um Mês depois”).

CENA XII
(MANHÃ _ praça da cidade_ pessoas estão ajudando a enfeitar e organizar as ruas para a festa do padroeiro entre elas: Lenita e Maria Eulália)
LENITA: O Clóvis pensou que eu viria aqui pra ajudar só porque ele mandou, mas muito engano dele. Eu vim porque gosto de ajudar nessas coisas, apesar de não levar muito jeito, a Cacau sim, é ótima nisso.
MARIA EULÁLIA: Melhor parar de falar mal do seu pai e trabalharmos direito. Olha queria amarrar essa fita vermelha lá em cima do poste, você me ajuda filha?
LENITA: Pode deixar mãe, eu subo e dou um jeito nisso.
MÚSICA: suspense
(Sobe na escada e acaba escorregando e caindo de lá, Michel que estava passando lhe socorre e impede que ela caísse, amparando-a em seus braços, eles ficam se olhando).
MÚSICA: Anjo ou fera
LENITA: Bom eu falei que a gente ia se trombar, mas não esperava que fosse dessa forma. (ri)
MICHEL: Pois é, nem eu, mis ainda bem que estava aqui pra te socorrer, senão você ia cair feio. (a coloca no chão).
LENITA: Então já descobriu alguma coisa do seu passado?
MICHEL: Será que a gente podia dar uma volta pra conversarmos um pouco?
LENITA: Claro. (eles se afastam das pessoas)
MICHEL: Então, já que você me perguntou se eu tinha alguma pista do meu passado, eu tenho sim, na verdade aquele dia eu tive vergonha de te contar, mas fiquei sabendo que minha mãe era uma prostituta e estou atrás dela e do meu pai. Durante todo esse tempo que tenho estado aqui nessa cidade eu procuro a casa da Madame Clotilde para tentar descobrir alguma coisa, mas acabo ficando com medo, com medo do que posso descobrir sabe? Com medo do meu passado e vou embora, dai eu pensei em aproveitar que ela está aqui, ajudando a organizar a festa, e te pedir pra ir comigo falar com ela.
LENITA: Claro Michel, só se for agora. (eles saem)

CENA XIII
(_ Casa de Inaiê_ Gabriel, Inaiê e Marcela estão almoçando).
GABRIEL: Então, Marcela você voltou a ver o filho do Antônio Dias?
MARCELA: Não eu nunca mais o vi. Por quê?
GABRIEL: Eu achei que vocês iam engatar um romance e seria a minha oportunidade de me vingar daquela família desgraçada, mas parece que nem para isso você serve não é?
INAIÊ: Não fale assim com sua irmã, tenha mais respeito com ela. E outra ela não tem que namorar com ninguém pensando em vingança não, se namorar é porque gosta.
MARCELA: Será que dá pra gente almoçar em paz? É só isso que eu quero, um pouco de paz. (começa a passar mal, ter enjoos, ela sai correndo).
GABRIEL: O que essa menina tem?
INAIÊ: Não sei, talvez esteja assim por não conseguir almoçar em paz, aliás, faz muito tempo que a gente não faz mais nada em paz nessa casa, nada sem que você pense ou diga algo sobre essa maldita vingança que ainda será nossa perdição.
(Inaiê sai para socorrer Marcela)

Cena XI
(Marcela está no quarto, deitada, Inaiê senta-se na beira da cama).
INAIÊ: O que foi filha? Enjoada de novo?
MARCELA: Ah também o Gabriel não me deixa nem mais comer sossegada. Fica com essa história de vingança, isso me dá nos nervos e me faz passar mal.
INAIÊ: Deus permita filha que seja só isso.
MARCELA: Ora, e o que mais podia ser?
INAIÊ: (Deitando a cabeça de Marcela em seu colo) Nada filha. Só algo que um passarinho me disse, mas fica calma, vai ficar tudo bem. Me diz uma coisa. Ese mês veio pra você? (Marcela levanta-se assustada)
MARCELA: Não, a senhora tá achando que… Não Inaiê não pode ser.
(a cena congela no rosto assustado de Marcela e uma grande cachoeira surge, alagando toda a cena ao som da música água de Djavan).