Coração sertanejo: Capítulo 28_ Por caminhos tortos

Coração sertanejo: Capítulo 28_ Por caminhos tortos


Se o sorriso não falar, deixe que as lágrimas te mostrem o caminho.
Gritos Suaves

CENA I
(MANHÃ_ inicia-se o capítulo com a cena em que Luana, desesperada e cheia de fúria, desce as escadarias da casa de Antônio Dias, indo ao encontro da família que estava na sala de jantar, e dizendo que foi roubada)
RODRIGO: Diga logo o que aconteceu tia. Parece ate que viu a noiva fantasma.
LUANA:Pior Rodrigo, muito pior do que isso. Olhe meu porta joias. (todos olham espantados) Ele esta vazio. Eu fui roubada.
EDUARDO: Como assim tia, roubada? A senhora está insinuando que alguém aqui, entrou em seu quarto e, roubou suas joias? É isso?
LUANA: E que outra explicação você tem para me dar? Se nossa casa não foi roubada, se todo o resto está em seu devido lugar de sempre e só minhas joias, que ficavam guardadas em meu armário, sumiram?
RODRIGO: Olha tia, eu não sei o que aconteceu. Realmente é tudo muito estranho, mas tenho certeza que aqui ninguém mexeu com suas joias.
LUANA: (apontando para Clarinha) Foi você né sua peste? Foi você que roubou minhas joias.
LUCIANO: Alto lá Luana! Já basta né? Eu entendo que você esteja nervosa com o que aconteceu, mas eu não vou admitir que você fale com minha filha dessa forma e muito menos que a acuse de roubo.
LUANA: Pois é a única explicação. Essa peste vive aprontando para cima de mim. Quem me garante que não foi ela que pegou minhas joias só para me pregar mais essa peça? (fala para Clarinha) Mas escute aqui sua peste: se você fez isso é melhor você devolver minhas joias agora, ou senão você vai me conhecer de verdade.
CLARINHA: Eu não roubei joias nenhuma, posso sim aprontar várias com você porque você faz por merecer, mas ladra eu não sou.
LUCIANO: Olha Luana é melhor você se acalmar e parar de ficar acusando as pessoas dessa forma, principalmente a minha família.
LUANA: Se não foi você peste, eu sei muito bem quem fez isso comigo. Tenho certeza que foi a Cidinha. Claro, ela roubou minhas joias, vendeu-as e com o dinheiro comprou a fazenda. Ah! Mas isso não fica assim, vou ligar para a polícia agora mesmo. (ela pega o telefone para ligar)
CECÍLIA: Tia, espere.
LUANA: Esperar o quê?
CECÍLIA: Eu tenho certeza de que não foi a Cidinha.
LUANA: E como você pode ter essa certeza menina?
CECÍLIA: Porque eu sei quem foi? (corta a cena)

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CENA II
(MANHÃ_ Fazenda de Clóvis Arruda. Os peões estão se preparando para sair para o trabalho, Clóvis vai ao encontro de Quinzinho)
CLÓVIS: Quinzinho, preciso falar com você.
QUINZINHO: Pois não patrão.
CLÓVIS: Vamos para um lugar mais reservado. (eles caminham até esse lugar, é um lugar próximo da mata, onde passa um pequeno córrego, eles param embaixo de uma frondosa árvore) Aqui está bem.
QUINZINHO: Então pode falar patrão.
CLÓVIS: Quinzinho, você sabe o que pessoas como eu, costumam fazer com alguém que bolina com a mulher dele?
QUINZINHO: (cheio de medo) Não senhor.
CLÓVIS: (pegando uma faca) Eles geralmente têm duas escolhas: Ou mata o peão ou corta os coco dele.
QUINZINHO: E porque você está me dizendo isso? (Ele está visivelmente com medo)
CLÓVIS: Por que eu sei que você anda bulinando com minha mulher.
QUINZINHO: E como o senhor descobriu?
CLÓVIS: Eu vi ontem a noite, ela indo se deitar com você, em seu barraco, como se fossem dois bichos. Por isso quero dar a você a oportunidade dessa escolha. O que você vai querer? Morrer ou ser gabado?
QUINZINHO: Pelo amor de Deus senhor Clóvis, mas não faz isso comigo não.
CLÓVIS: Escolhe.
QUINZINHO: Então me mata vai. Vai mata. (se ajoelha abre a camisa e deixa o peito á mostra)
CLÓVIS: (gargalhando) Você precisava ser sua cara agora. Tá parecendo um franguinho com medo de ir para a panela.
QUINZINHO: Vamos, acabe logo com isso.
CLÓVIS: Relaxa peão, relaxa e se levante dai. Eu vou te dar uma chance.
QUINZINHO: O senhor não vai me matar e nem me gabar?
CLÓVIS: Não, ao contrário vou deixar você ir embora. Porém se você aparecer de novo na frente da minha esposa, se ao menos mandar uma mensagem eu vou lavar a minha honra sim, mas não vai ser com o teu sangue,vai ser com o sangue dela.
QUINZINHO: Pelo amor de Deus, não faz nada com ela. Eu te peço.
CLÓVIS: Isso depende apenas de você.
QUINZINHO: Pode deixar eu vou desaparecer da vida dela e nem vou deixar rastro ou sinal de vida.
CLÓVIS: Isso mesmo. Bom garoto. Agora vai embora, anda. Antes que eu mude de ideia.
(Quinzinho sai correndo e Clóvis fica gargalhando de forma diabólica).

CENA III
(MANHÃ_ casa de Patrícia, ela com sua família estão tomando o café da manhã que é servido por Ritinha)
MARIA EFIGÊNIA: E ai filha como estão os preparativos para o seu casamento com o Rodrigo? Precisa de ajuda?
PATRÍCIA: Não tem preparativos nenhum mãe. Na verdade nem vai mais haver casamento.
MARIA EFIGÊNIA: Que brincadeira besta é essa menina?
PATRICIA: É sério mãe. O Rodrigo caiu em um armadilha armada pelo irmão dele e está pensando que eu o traia, terminou o noivado e não quer mais nada comigo.
MARIA EFIGÊNIA: Armação? Armação ou ele apenas descobriu toda a verdade? Eu te avisei menina, eu te avisei para não ficar mais com aquele tal de Gabriel, aquele peãozinho que não tem aonde cair morto.
RITINHA: Isso mesmo dona Maria Efigênia, a Patrícia fica ai dando uma de vítima mas ela foi a grande culpada de tudo isso. Ela não amava o Rodrigo e ainda por cima o traia.
MARIA EFIGÊNIA: Cale a boca! Meu assunto aqui é entre minha filha e eu. Ainda não chamei a senzala.
PATRÍCIA:(falando com Ritinha cheia de raiva) Mesmo porque, nada me tira da cabeça que tem dedo seu nisso ai.
RITINHA: Quer saber? Tem mesmo. Eu descobri onde e quando você ia se encontrar com o seu amante e contei para o Eduardo.
PATRICIA: Desgraçada. (joga seu copo de leite nela)
RITINHA: Pode me xingar, pode jogar encima de mim toda a comida que tem nessa casa, que nada vai tirar de mim o prazer de ter ajudado a acabar com esse noivado e libertado o Rodrigo de você.
PATRÍCIA: Você fez isso por inveja, inveja de mim e porque sempre quis ficar com o Rodrigo, mas eu te garanto: com ele você não fica. Escutou? Com ele você não fica. (corta a cena)

CENA IV
(MANHÃ_ Fazenda de Antônio Dias_ sala de jantar onde toda a familia está reunida)
LUANA: Vamos menina. Se você realmente sabe quem roubou minhas joias, diga logo de uma vez.
CECÍLIA: (colocando o telefone, que estava com Luana, no gancho) Foi a mesma pessoa que roubou meu tablet há alguns dias atrás.
LUCIANO: Como assim filha? Roubaram seu tablet e você não conta nada para a gente?
CECÍLIA: Desculpa pai, mas eu não contei para poupar a pessoa que roubou. Mas agora não dá mais para ficar quieta. Eu esperei todo esse tempo para ver se vocês, se todos vocês, parassem de olhar um pouco para o umbigo de vocês, para os problemas de vocês e se dessem conta do que está acontecendo debaixo desse teto, mas não dá mais para esperar.
LUANA: Diga menina. Quem foi que roubou minha joia?
CECÍLIA: Quem roubou sua joia e meu tablet tia, foi seu filho: O Netinho. (corta a cena)
PRIMEIRO INTERVALO COMERCIAL

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CENA V
(MANHÃ_ Retoma a cena em que Cecília conta que foi Netinho quem roubou as joias da Luana)
LUANA: O que você está dizendo garota? Você está acusando meu filho de ter me roubado, é isso?
CECÍLIA: Isso mesmo tia.
LUANA: Isso é o maior absurdo que eu já ouvi em toda a minha vida. Você quer dizer que meu filho, um nerd que só vive enfurnado nos livros, agora virou ladrão é isso?
CECÍLIA: Tia, não é possível que a senhora não ainda não percebeu que esse Netinho estudioso, alegre, carinhoso não existe mais? O Netinho está sendo uma outra pessoa, ele está totalmente transformado.
FABIANO: Isso é verdade. Eu já tinha percebido que ele estava mesmo mudado, mas pensei que fosse apenas uma fase, que ia passar. Nunca imaginei que ele estava se transformando em um ladrão.
LUANA: Cala a boca estrupício. Essa história é um absurdo. Mesmo que o Netinho esteja mesmo mudado como vocês dois estão falando, por que ele, um garoto que tem tudo o que quer, iria roubar seu tablet e minhas joias?
CECÍLIA: Para comprar drogas.
LUANA: O que? Você está insinuando que meu filho é drogado. Isso tudo ai é mentira sua, mentira.
CECÍLIA: (pegando algo em sua mochila) Veja, eu encontrei isso, esses dias atrás, nas coisas do Netinho. A senhora sabe o que é isso?
EDUARDO: (pegando a droga) Isso é droga, já vi alguns amigos meus de faculdade usando. Graças a Deus eu nunca aceitei, por mais que eles me oferecessem.
ANTÔNIO DIAS: Mas gente! Nessa cidadezinha que mais parece um ovo, nesse fim do mundo, também tem essas porcarias?
RODRIGO: Infelizmente tem vô. Isso é uma maldição que se espalhou pelo mundo todo.
LUANA:(fala com Cecília, ainda tentando livrar a barra de Netinho) E quem me garante que essa droga não é sua? Afinal ela estava é com você.
RODRIGO: Olha tia, eu acho que essa droga é realmente do Netinho. Ele anda muito estranho ultimamente, não tem mais saído e nem ficado com a gente, pelo contrário, a ultima vez que vi ele na rua, ele estava com um pessoalzinho barra pesada que chegou na cidade.
CECÍLIA: E então tia? A senhora vai mesmo ligar para a policia para denunciar seu roubo? Se quiser ligar ligue, mas saiba: a policia vai investigar e quem vai acabar preso é seu filho.
LUANA: Eu me recuso a acreditar em tudo isso. Vocês estão loucos. Você está dizendo isso só para jogar o avô de vocês contra meu filho. (fala para Antônio) Por favor paizinho, não acredite nessa loucura.
FABIANO: Para Luana, para. Está mais do que na hora da gente acordar para a realidade, só assim poderemos ajudar nosso filho. (corta a cena)

CENA VI
(MANHÃ_ Casa de Madame Clotilde. Michel que dormira por lá, desce as escadas para tomar o café da manha com sua mãe e as “mariposas”).
MADAME CLOTILDE: Bom dia filho, dormiu bem?
MICHEL: Sim, muito bem mãe, aliás eu estava pensando. Já que aqui vai deixar de ser aquele andro, que era antes, e tem muitos quartos, estou pensando em mudar para cá. Posso?
MADAME CLOTILDE: Mas que pergunta é essa filho? Claro que pode. Você não imagina a alegria que você me causa dando essa nóticia.
MICHEL: É bom porque assim fica mais perto para fiscalizar as obras.
CHICA GAITEIRA: Obras? Que obras?
MICHEL: Se queremos mesmo transformar esse lugar numa casa de show precisamos fazer algumas mudanças. Claro nem precisa mudar muita coisa, é só uma reforma básica, mas precisamos ampliar o palco, montar uma bela aparelhagem de som e iluminação, pintar o prédio e mudar a mobília e a decoração.
MADAME CLOTILDE: E quando tempo você acha que vai levar tudo isso?
MICHEL: Eu pretendo reabrir aqui, como uma casa de show, em um mês.
CARMELA: Um mês? Mas é muito pouco tempo.
MICHEL: Mas nossa força de vontade e união vai ter que ser maior, porque precisamos logo abrir para reaver o dinheiro que irei gastar na reforma e voltar a pagar o salário de vocês. (corta a cena)

CENA VI
(MANHÃ_ casa de Pai André ele está sentado em um cadeira simples em seu quarto, velando o sono de Netinho e orando por ele_ Netinho acorda)
NETINHO: Onde eu estou? Que lugar é esse?
PAI ANDRÉ: Calma filho, está tudo bem, fique tranquilo, você está em minha casa e eu vou cuidar de você.
NETINHO: Quem é o senhor?
PAI ANDRÉ: Pai André.
NETINHO: Mas o que aconteceu comigo, ontem a noite? Eu so me lembro que estava na praça, puxando uma com o pessoal.
PAI ANDRÉ: O que aconteceu, não importa filho. O que importa é que você precisa sair dessa vida, abandonar esse vicio e se cuidar.
NETINHO: Como o senhor sabe que eu tenho um vicio?
PAI ANDRÉ: Fui eu que te acudi quando você estava na praça, jogado, abandonado por sua turma, quase morrendo por conta desse seu vicio.
NETINHO: Que vergonha! Aonde eu fui parar?
PAI ANDRÉ: Calma filho. Eu já te disse que vou te ajudar. Agora levanta, lava seu rosto e vai comer, deixei um café da manhã preparado encima da mesa para você.
NETINHO: O senhor vai sair?
PAI ANDRÉ: Sim, preciso avisar sua familia que está tudo bem com você e que você está aqui comigo.
NETINHO: Esquece eles, ninguem ali se interressa de verdade por mim.
PAI ANDRÉ: Não diga isso, tenho certeza que você é muito amado, se não por todos, mas por muitos. Agora me diga. Quem é seu pai? Aonde você mora?
NETINHO: Moro na Fazenda Aliança do Antônio Dias, ele é meu avô. Sou filho de Fabiano Dias e Luana Pimenta. (corta a cena com o rosto surpreso de Pai André).

CENA VII
(MANHÃ_ Fazenda de Antônio Dias_ estão todos reunidos e Fabiano, pela primeira vez, enfrenta sua esposa na tentativa de chamá-la para a realidade e ajudar seu filho)
LUANA: Que jeito é esse de falar comigo traste? Você nunca tinha levantado a voz comigo antes!
FABIANO: Para tudo tem a sua primeira vez, e já está mais do que na hora de eu me posicionar, impor também minhas vontades e opniões.
LUCIANO: O Fabiano está certo Luana. Não vai adiantar nada a gente querer tampar o sol com a peneira, e negar a realidade que sempre esteve debaixo de nosso teto e não demos conta de perceber. Temos que encarar essa realidade, por mais dura que seja, só assim poderemos ajudar nosso menino.
ANTÔNIO: Realmente. Pela primeira vez na vida o Fabiano está certo. Chega de chiliques, chega de tentar ficar acusando outras pessoas. O que temos agora é que descobrir onde ele está e encontrar uma forma de ajudá-lo.
CECÍLIA: E sabe quem é a culpa de tudo isso tia Luana? A culpa é sua.
LUANA: Essa é boa. Que culpa eu tenho se o Netinho resolveu abrir mão de tudo que ele poderia ter para se jogar nesse buraco sem fundo, nesse mundo das drogas.
CECÍLIA: A culpa de sempre ter sido uma mãe omissa, de nunca ter dado á ele o amor, a atenção e o carinho que ele necessitava. A culpa de nunca ter parado para ouvi-lo, para conversar com ele e tentar entender quem ele era, o que ele passava e o que desejava.
LUANA: Eu sempre fui uma mulher muito ocupada ajudando seu pai e seu avô a construir esse império.
CECÍLIA: E em algum momento parou pensar se ele queria todo esse império? Na verdade ele trocaria tudo isso por um abraço seu e ouvir você dizer que o ama.
LUCIANO: Chega Cecília, também não adianta você ficar aqui acusando sua tia, ela tentou ser a melhor mãe que pode, mas nem sempre nós pais conseguimos. Somos humanos e temos nossos defeitos.
CECÍLIA: Ter defeitos é uma coisa pai, outra é não amar o próprio filho.
(nesse momento Bem te vi chega na casa)
BEM TE VI: Bom dia gente. Posso entrar?
LUANA: O que você quer agora traste? Nós estamos aqui tratando de assunto muito importante para perdermos tempo com um peãozinho qualquer como você.
BEM TE VI: Desculpa dona Luana é que tem um homem estranho querendo falar com vocês.
LUCIANO: Um homem estranho querendo falar com a gente? O que será?
LUANA: Deve ser algum mendigo pedindo ajuda. (ordena á Bem te vi) mande o embora, por favor.
CECÍLIA: Espere, talvez seja alguém trazendo notícias do Netinho.
FABIANO: Será? Bom se é assim peça-o que entre. (Bem te vi sai para chamar)
LUANA: Você está louco homem, deixar que um homem estranho que ninguém conhece, entrar aqui em nossa casa?
FABIANO: Desculpa, mas se existe a possibilidade de ele nos trazer noticias do meu filho, eu quero sim que ele entre e fale tudo o que sabe.
(Nesse momento Pai André entra na casa, sendo conduzido por Bem te vi)
PAI ANDRÉ: Bom dia irmãos, que a paz repouse sobre essa casa. (Maria da Purificação e Luana se entreolham desesperadas_ corta a cena)

SEGUNDO INTERVALO COMERCIAL

CENA VIII
(MANHÃ_ Pai André adentra a casa de Antônio Dias, causando uma grande preocupação e medo em Luana e Maria da Purificação)
MARIA DA PURIFICAÇÃO: (levantando-se da mesa) O que você quer aqui assombração dos infernos, enviado do Tinhoso?
ANTÔNIO: Não fale assim com ele coitado. (fala com Pai André) O que o senhor deseja? Precisa de alguma esmola?
PAI ANDRÉ: Não senhor, graças a Deus eu tenho tudo que realmente preciso para viver. Eu vim aqui para contar algo muito importante.
MARIA DA PURIFICAÇÃO: Cale sua boca, seu ser insignificante. Aqui ninguém tem o menor interesse em saber o que você tem a dizer. É melhor você ir embora.
FABIANO: Calma dona Maria, eu quero sim ouvir o que ele tem para nos dizer.
PAI ANDRÉ: Obrigado, o senhor é o Fabiano Dias?
FABIANO: Sim, por quê?
PAI ANDRÉ: Ontem a noite eu estava andando com minha charretinha pelas ruas da cidade, quando eu encontrei o seu filho caído na praça, ele estava passando muito mal. Acho que ele estava sob o efeito de alguma substância proibida.
LUANA: Isso é mentira, aliás tudo o que esse homem diz é mentira. Não acreditem nele.
FABIANO: Como você pode ter tanta certeza disso? Você o conhece? (corta a cena)

CENA IX
(MANHÃ_ Fazenda de Clóvis Arruda_ Maria Eulália está lavando as louças do café, Clóvis chega com uma faça ensanguentada, Maria Eulália se assusta)
MARIA EULÁLIA: Credo. Que isso homem?
CLÓVIS: Ah você está falando dessa faca suja de sangue?
MARIA EULÁLIA: Sim, claro.
CLÓVIS: É que eu acabei de usá-la para matar um porco.
MARIA EULÁLIA: Que história é essa homem? Como assim matar um porco, se aqui na fazenda não temos nenhum porco.
CLÓVIS: (com muito sangue frio e sarcasmo pega um uísque e explica) È realmente aqui não tem mais nenhum porco, por que o único que tinha eu dei um jeito nele. Sabe o que é? Ele estava comendo farelo de outros e isso é imperdoável, você não acha?
MARIA EULÁLIA: Eu acho que você está cada dia mais louco isso sim. Que prosa mais doida. (volta a lavar a louça)
CLÓVIS: Sabe quem era esse porco, que estava comendo o farelo dos outros, e eu acabei de matar?
MARIA EULÁLIA: Eu não tenho a mínima ideia do que você está falando.
CLÓVIS: Pois bem! O farelo é você e o porco que acabei de matar era o seu amante.
(nesse momento Maria Eulália, chocada, deixa um prato que ela estava lavando cair no chão, espativando-o)
MARIA EULÁLIA: O que você está dizendo Clóvis? Você matou o Quinzinho?
CLÓVIS: Claro. É isso que fazem todos os homens que são traido, não é? Lavam sua honra com sangue. Eu eu lavei a minha.
MARIA EULÁLIA: Assassino. Monstro. (avança para cima dele para bater-lhe, mas ele a segura)
CLÓVIS: Não, não senhora, não é assim que age uma mulher doce, submisa e obediente que você me prometeu que voltaria a ser.
MARIA EULÁLIA: E como você espera que eu aja? Você acabou de matar o homem que eu amo, seu monstro.
CLÓVIS: Eu? Bom eu quero que você fique bem quietinha, bem comportada, bem obediente, porque dessa vez foi o Quinzinho, mas se você ousar a me desobedecer, quem vai pagar vai ser uma das suas filhinhas queridas.
MARIA EULÁLIA: Você não seria capaz de fazer algo contra suas próprias filhas.
CLÓVIS: Você duvida? Quer pagar para ver? Tudo bem então vou começar pela mais nova que está aqui em casa mesmo. (ele vai saindo com a faca em punho e Maria Eulália o segura)
MARIA EULÁLIA: Não Clóvis, pelo amor de Deus. Não. Ela é sua filha.
CLÓVIS: Uma filha que só me dá desgosto e dor de cabeça, assim eu me livro de mais esse estorvo.
MARIA EULÁLIA: Tá bom Clóvis, eu faço tudo o que você quiser, eu vou ser obediente á você, mas não faça nada contra ela, pelo amor de Deus.
CLÓVIS: Tudo bem, por enquanto vou poupar a vida da sua filhinha, mas se você ousar me desobedecer de novo ou contar para alguém o que aconteceu hoje, ela vai pagar com o próprio sangue.
MARIA EULÁLIA: Não Clóvis, eu vou ser obediente e não vou abrir meu bico para ninguém. Mas poupe a vida da nossa filha.
CLÓVIS: Assim que eu gosto. (volta a tomar seu uísque)
MARIA EULÁLIA: Mas me diga ao menos onde você o enterrou, quero chorar a morte do meu amor.
CLÓVIS: Então chore, chore a vontade mas eu não vou te contar onde aquele ordinário está enterrado, Isso você nunca vai saber. (sai assobiando)
MÚSICA: A Flor e o beija flor
MARIA EULÁLIA: (chora a morte de seu amado) Quinzinho, meu amor! Eu não acredito que isso aconteceu com você, e por minha culpa, toda minha. (corta a cena)

CENA X
(MANHÃ_ Casa de Inaiê. Marcela, Gabriel e ela estão tomando café)
MARCELA: Inaiê, como hoje temos pouca roupa para lavar, será que a senhora poderia lavar sozinha e me deixar ir na casa do Luciano?
GABRIEL: Que noticia maravilhosa! Então quer dizer que vocês dois estão se entendendo de novo?
MARCELA: Nada disso Gabriel, ele apenas me permitiu ir visitar a filhinha dele, que tem autismo e sente muito a minha falta, e eu a dela.
GABRIEL: Mas já é um começo, pelo menos você vai voltar para aquela casa. Vê se agora aproveita e arruma um jeito de se vingar daquela família desgraçada.
MARCELA: Pare com isso Gabriel. Chega dessa história de vingança, foi por conta dela que você me forçou a mentir para o Gabriel e, por causa disso, ele está me odiando e acho que nunca vai me perdoar.
GABRIEL: Isso depende de você maninha. Se ele te odeia, algum sentimento ele ainda tem por você, já que o amor e o ódio andam de mãos dadas, agora só precisa você saber como agir para conquistar novamente a confiança dele e eu acho que essa menina pode ser um bom meio para você conseguir isso.
MARCELA: Eu não acredito no que eu estou ouvindo. Você quer que eu use uma criança autista, com apenas cinco anos, para me reaproximar do Luciano, para conseguir me vingar da família dele? Esse é o maior absurdo. A maior loucura que já ouvi falar em toda a minha vida. Quer saber? Eu vou la cuidar da minha menina, porque só do lado dela eu encontro a paz. (se levanta e sai)
GABRIEL: (para Inaiê) Essa menina é uma idiota, não sabe aproveitar as oportunidades que a vida lhe dá.
INAIÊ: Ela está coberta de razão filho, você que parece que está cada dia mais louco, cego com esse seu desejo de vingança e se você continuar assim, eu temo pelo seu fim. (corta a cena)

CENA XI
(MANHÃ_ Casa de Antônio Dias, onde eles estão recebendo a visita inusitada de Pai André, que veio trazer noticias do Netinho)
FABIANO: Vamos Luana, me responda: Você conhece esse senhor?
LUANA: Que ideia, lógico que não. Como eu poderia conhecer esse mendigo?
FABIANO: Ah sei lá! Você falou dele de uma forma que pareceu que você o conhecia.
CECÍLIA: Por favor tio, isso não tem a minima importância. (falando para Pai André) Me diga: o senhor sabe onde está o Netinho agora?
PAI ANDRÉ: Sim, eu o levei para minha casa, ele está lá se recuperando do que aconteceu com ele á noite.
CECILIA: (para Luciano) Pai eu quero ir lá vê-lo agora.
LUCIANO: Claro filha, eu vou te levar até la.
FABIANO: Eu e a Luana também vamos. Está na hora de eu assumir o meu papel de pai que eu venho deixado de lado. (eles saem_ corta a cena)

CENA X
MÚSICA: Poeira
(Várias cenas de paisagem do Riacho Alegre: os passaros sobrevoando, as garças andando na orla, a cachoeira, patinhos nadando, mulheres lavando roupa e alguns homens pescando_ A cena conduz para a casa de Pai André onde ele, juntamente com Luciano, Cecília, Fabiano e Luana chegam e adentram a casa)
PAI ANDRÉ: Entrem, por favor, fiquem a vontade.
LUANA: Ficar a vontade nesse casebre caindo aos pedaços? É meio dificil.
MÚSICA: Away in silence
(Cecília vê Netinho, sentando numa mesinha num canto da casa, ele está só a ruína, nem lembra mais aquele jovem bonito, alegre e iluminado que era)
CECÍLIA: (chorando) Netinho.
NETINHO: Cecília. (eles correm um ao encontro do outro e dão um longo abraço)
NETINHO: Eu não queria que você me visse dessa forma.
CECÍLIA: Eu te amo, Netinho. Eu estarei sempre do seu lado, seja lá como você estiver. (se abraçam novamente)
FABIANO: Filho. (eles também se abraçam) Me perdoa, me perdoa por não ter sido o pai que você precisava e merecia, mas eu te juro que a partir de agora, tudo vai ser diferente, eu vou cuidar de você e te dar todo o amor, carinho e atenção que você merece. Eu te amo filho.
NETINHO: Eu também te amo pai, me perdoa, me perdoa por ter entrado nessa vida, por te dar esse desgosto.
FABIANO: Isso não importa filho, eu vou te ajudar a sair dessa.
LUANA: E eu filho, você não vai abraçar?
NETINHO: Agora sou seu filho? Agora a senhora quer meu abraço?
LUANA: Isso é jeito de você falar comigo?
NETINHO: E como você quer que eu fale com você? Você nunca me enxergou como gente, tudo que queria era que eu fosse o herdeiro do meu avô, não importando se esse era ou não minha vontade, não importando mais nada. A senhora tem noção de como eu sonhei com esse abraço, com a senhora me dando um carinho? Mas eu cansei mãe, eu cansei, e de você só quero distância.
LUCIANO: Calma Netinho, a gente entende sua revolta, mas tente se acalmar, vai ficar tudo bem. Agora se arrume vamos embora.
NETINHO: Eu não vou voltar para lá tio, eu quero ficar aqui, morando e ajudando o Pai André na missão dele. (corta a cena)

TERCEIRO INTERVALO COMERCIAL

CENA XI
(INÍCIO DE TARDE_ Casebre de Pai André)
LUANA: O que você está dizendo moleque? Você quer ficar morando aqui nesse barraco, com esse mendigo?
NETINHO: Isso mesmo mãe. Do que adianta morar em uma fazenda enorme, numa casa linda e cheia de luxo se não consigo ter paz e amor, e muito menos comprensão? Pois saiba que foi esse homem bom, que a senhora tolamente chama de mendigo, que me socorreu quando eu mais precisei, que me entendeu, que me estendeu a mão.
CECÍLIA: Você está sendo injusto Netinho, eu também me preocupo com você, sempre te amei, sempre te dei carinho e compreensão. Você não pode falar isso.
NETINHO: Você sabe Cecília, por que eu acabei fraquejando e caindo na tentação das drogas?
CECÍLIA: Não, mas me diga. Tudo o que quero é te ajudar.
NETINHO: Porque além de você, ninguem nessa família me olhou de verdade, me enxergou com um ser humano cheio de necessidades, que as vezes precisava de um colo, de um carinho.
RODRIGO: Como não Netinho, eu e meus irmãos sempre te demos todo carinho do mundo, sempre te tratamos como se fosse um de nós.
NETINHO: Mas e meus pais? Meus pais, esses nunca se preocuparam comigo.
FABIANO: Como não filho?
NETINHO: O Senhor tem problemas demais dentro de si mesmo para dar conta de se preocupar com os problemas dos outros. E minha mãe, ela nunca me amou. Ela sempre fez questão de deixar claro que, por ela, eu nem teria nascido, e quando me procurava, era para brigar comigo, para me forçar ser uma coisa que eu não quero ser.
EDUARDO: Olha Netinho, eu até entendo que você tenha seus problemas com sua mãe, mas dai sair acusando todo mundo da sua fraqueza isso não é justo. Eu e meus irmãos crescemos sem mãe e nem por isso caímos nessa. Muitas outras pessoas passam por situações semelhantes á sua, e até pior, mas nem por isso entraram nesse caminho. Assuma a sua culpa ao invés de sair acusando as pessoas que tem amam e sempre procuraram te ajudar e te fazer feliz.
NETINHO:Você tem razão, eu não posso culpar ninguém por um erro meu, mas só quero que vocês entendam as situações que me levaram a cair nesse erro.
CECÍLIA: Pois eu ainda não entendi. Os seus problemas com seus pais são os de sempre, então por que agora você caiu nessa?
NETINHO: Porque descobri uma coisa horrível. Um fato que, inclusive, me fez me afastar e mudar com você.
CECÍLIA: Então me diga, eu preciso entender isso. A gente estava se entendendo, começando a namorar, você até disse que contaria e enfrentaria a sua mãe e daí, de uma hora para outro mudou, se transformou nessa pessoa sem luz, sem alegria e mergulhou fundo nesse mundo de drogas.
NETINHO: A gente não pode ficar juntos Cecília, nosso namoro foi um grande erro.
CECÍLIA: Por quê? Eu te amo e sei que você também me ama.
NETINHO: Por que eu sou seu irmão Cecília, sou filho do Luciano e não do Fabiano como sempre pensei. (corta a cena no olhar espantados de todos).

CENA XII
LUCAS: Boa tarde senhor Clóvis Arruda. Preciso falar com o senhor.
CLÓVIS ARRUDA: Pois não filho. Aconteceu alguma coisa?
LUCAS: Nada de importante, é que estou com alguns problemas para resolver e para isso estou precisando tirar minhas férias.
CLÓVIS ARRUDA: Férias? Agora? Impossível. Ainda mais agora que o Quinzinho sumiu.
LUCAS: Sumiu, como assim?
CLÓVIS ARRUDA: Ele pegou as coisas dele e foi embora, sem dizer nada para ninguém, e nem para onde ia.
LUCAS: O Quinzinho nunca faria uma coisa dessas?
CLÓVIS ARRUDA: E por que não?
LUCAS: Por que… porque.. porque ele é um homem muito trabalhador e responsável, jamais iria deixar o serviço assim, sem mais nem menos.
CLÓVIS ARRUDA: Pois é, mas ele fez, e agora, mais do que nunca, preciso de você para me ajudar a tocar as coisas da fazenda aqui. Então esqueça essa ideia de férias.
LUCAS: Mas eu tenho esse direito. Eu trabalho aqui há mais de 5 anos e nunca tirei férias.
CLÓVIS: Você vai querer bater de frente comigo peão?
LUCAS: Não, eu só quero o que é meu de direito.
CLÓVIS: Eu já te disse que não vou te dar férias nenhuma. Você vai continuar a trabalhar aqui normalmente, agora mais do que nunca preciso de você.
LUCAS: Eu realmente tenho que resolver uns assuntos pessoais muito importante, senão não estaria te pedindo férias, ainda mais depois do Quinzinho ter sumido.
CLÓVIS: Como você mesmo disse esses problemas são pessoais e são seus e não meus, o meu problema é que perdi um peão e você agora terá que fazer o trabalho por dois.
LUCAS: O Senhor não vai me dar minhas férias, para que eu possa resolver esses problemas?
CLÓVIS: Eu já te disse que não. Quantas vezes eu tenho que repetir isso? Anda volte ao trabalho e esquece essa ideia de jerico da sua cabeça.
LUCAS: Bom, se o senhor se recusa a me dar minhas férias, então eu estou me demitindo. Com licença.(vai saindo)
CLÓVIS: Lucas. Volte aqui peão, não seja teimoso, eu estou mandando. Volte aqui. (corta a cena)

CENA XIII
(INÍCIO DA TARDE_ casebre de Pai André onde a familia de Netinho está reunida)
CECÍLIA: O que você está dizendo Netinho? Que ideia mais maluca é essa de que, sou sua irmã, e de que você é filho do meu pai?
NETINHO: É a pura verdade Cecília. Quando fui conversar com minha mãe sobre nosso namoro ela me contou tudo. Contou que sempre traiu o meu pai com o seu e que sou fruto dessa canalhice toda.
RODRIGO: Isso é verdade pai? O Senhor tem um caso com a tia Luana?
LUCIANO: Claro que não filho. Eu nunca tive nada com sua tia, nada e não foi por falta dela dar encima de mim não, mas por que eu amo o meu irmão e jamais faria isso com ele.
FABIANO: Isso pra mim não é novidade alguma Luciano. Eu sempre soube que na verdade, a Luana gosta é de você, mas acredito em sua palavra e sua amizade sei que você jamais faria isso comigo.
LUANA: Parem com isso, vocês não podem acreditar no que esse garoto diz. Ele ainda está sob o efeito das drogas.
CECÍLIA: (dando um tapa em Luana) Cala a boca. Eu sempre soube que você não valia nada, que você era um ser humano ruim, sem coração e nem caráter, mas eu nunca imaginei que você seria capaz de inventar uma história dessas, só para me separar do Netinho.
NETINHO: Então é mentira? É mentira tio? O Senhor nunca teve nada com minha mãe e eu não posso ser seu filho?
LUCIANO: Não Netinho. Eu sempre te amei como um filho, mas você não é, pelo menos não biológico. Você realmente é filho do Fabiano.
NETINHO: (para Luana) Por que a senhora fez isso comigo? Por que a senhora inventou essa mentira que acabou com minha vida?
LUANA: Vida? Você chama essa coisinha chata e insignificante que você tem de vida?
NETINHO: Eu sempre soube que a senhora não me amava, mas jamais pensei que você seria capaz de fazer isso comigo.
LUANA: Quer saber a verdade? Eu nunca te amei mesmo, você nasceu e cresceu de teimoso. Por mim você nunca, nunca tinha nascido e eu só engravidei de você para ganhar o presente que o seu avô me prometeu.
NETINHO: Por que mãe? Por que a senhora me odeia tanto?
LUANA: Pelo simples fato de você ter nascido.
FABIANO: Cale a boca. (Lhe dá um tapa) Como você tem a coragem de dizer isso de seu filho, de seu único filho? Você é um monstro.
LUANA: (para Netinho) Quer saber? Se você quer ficar aqui com esse velho nojento, vivendo nesse barraco caindo aos pedaços fique. Vocês dois se merecem. Vai ser um alivio para mim ficar sem você. Eu nunca te quis e não é agora, que você não passa de um trapo imundo, de um drogado, que eu vou querer. Fique ai e esqueça que eu existo. (sai_ corta a cena)

(a cena congela e uma grande cachoeira surge, alagando toda a cena ao som da música água de Djavan).

FINAL DO VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO