Contos Premium – O estranho

Contos Premium – O estranho

O ESTRANHO

 

“O que você deseja?”

Ambos estavam sentados de frente ao balcão. O bar estava quase vazio. A frase havia surgido tão de repente que Alexia pensou ter sido coisa de sua cabeça, ainda mais levando em conta a quantidade de álcool que já corria em suas veias. Ela olhou para o lado e encarou o estranho, pele morena, olhos de um castanho bem escuro, alto, magro, cabelo levemente desajeitado. Ele sorriu para ela. Um sorriso que demonstrava certa malícia, certo interesse. Alexia nunca se considerou bonita. E começou a pensar se aquele cara estaria tão bêbado quanto ela, talvez até mais.

“Você não respondeu minha pergunta”

Isso a fez perceber que ainda estava encarando-o, em busca de respostas. Ela então saiu daquele transe tão subitamente, que logo emborcou outro copo de vodca. Fez uma careta e logo virou-se novamente para o estranho ao seu lado e arriscou dizer algumas palavras, apesar de saber que boa coisa poderia não sair naquele instante, considerando toda a sua embriaguez.

“Jamais fale com estranhos. Minha mãe vivia repetindo isso”

“Ela não está aqui agora. E se tivesse, aposto que não se incomodaria de a filha estar conversando com um cara charmoso e educado, não acha?”

Havia algo nele que a intrigava. Ela só não sabia dizer o que era. O sorriso torto e cheio de entrelinhas talvez. O olhar profundo e instigante. Os movimentos suaves e cuidadosos. Ou talvez o álcool pudesse ser novamente o responsável por tudo aquilo. Alexia não conseguia não olhar para ele enquanto falava. Havia uma sensação estranha ali. Como se ele fosse uma ameaça, mas ao mesmo tempo, fizesse ela se sentir em casa.

“Sabe qual é o meu desejo?”

Não, não sei, ela pensou. Mas não disse nada. Apenas bebeu outro gole e esperou que ele continuasse.

“Tirar uma vida. De forma lenta. Com todo sangue possível. A adrenalina do momento. A sensação de ser um deus, de estar no controle. E por último, o vislumbre das cortinas se fechando. As pupilas dilatando-se. O corpo perdendo sua tonalidade. O ar sendo proibido de entrar. É uma linda noite de lua cheia. Perfeita para deixar que nossos lobos uivem. Você não acha?”

“Acho que você é louco, é isso o que eu acho”

“Claro. Foi o que pensei”

Ele bebe um longo gole. Então seu corpo se aproxima do dela. Ele a encara, seus rostos a centímetros um do outro, seus olhares cruzando-se intimamente. Ela percebe sua respiração ficar ofegante. Suas mãos trêmulas; as pupilas dilatando-se em êxtase. Um calor invadindo seu corpo. E de repente, ela se vê aproximando os lábios do estranho, que antes que toquem os dela, desvia. E continua a encará-la, a curiosidade e o desafio impressos em cada linha de seu rosto.

“Diga-me. O que você deseja?”

“Que seja eu” – diz ela como de forma automática, surpreendendo a si mesma.

E então desata a chorar. O estranho não demonstra reação alguma. Apenas espera os soluços cessarem e enxuga uma lágrima do rosto dela, encarando-a com um olhar tranquilo, expressando total concordância.

O estranho se levanta e pega uma garrafa. Bate com força em cima do balcão e estilhaços de vidro são arremessados em todas as direções. Ele ataca o barman, surpreendendo-o com um corte firme e profundo em sua garganta. Então larga a garrafa e volta a se sentar, envolvendo-a calmamente em seus braços.

“Enfim realizaremos os desejos um do outro”

E afastando-se dela lentamente, se põe de pé e tira uma pequena faca da cintura. Aproximando-se dela, percebe que ela não está com medo. O que ele vê diante daqueles olhos é algo diferente. Expectativa, talvez.

Ainda encarando-a, ele penetra a lâmina na altura do abdômen, encarando uma última lágrima que cai do rosto dela. Ele enxuga, e em seguida segura o ombro, movimentando a faca dentro dela com a outra mão. O sangue começa a cair. Ele puxa a faca. E a deixa cair no chão. Em seguida a toma em seus braços, já desfalecida, e a carrega para fora. Fecha o porta-malas e se encaminha ao banco da frente, o sangue ainda em suas mãos.

As ruas parecem desertas, de modo que não demora muito para que consiga chegar em casa. Estaciona o carro em sua garagem, tira o corpo de Alexia do porta-malas, e o carrega para dentro, passando pela sala, até descer para o porão. E ali a deixa, completamente no escuro. Até que seu corpo se dissolve e uma sombra misteriosa a leva.

Ele caminha até a sala e pega um caderno e uma caneta.

“Hoje conheci Alexia. Ela parecia perdida desde o momento em que a vi. Perguntei, como de costume, qual era o desejo dela. E então o realizei”. Escreve no caderno, em seguida fechando-o e largando a caneta friamente. Levantando-se, caminha até a janela, onde uma noite fria e tediosa o encara de perto. E olhando em direção ao céu, um único pensamento lhe ocorre:

É uma linda noite de lua cheia! Perfeita para deixar que nossos lobos uivem.

Giliarde Felipe

Autor contista