Contos da tarde: Cartase

Contos da tarde: Cartase

 

 

CARTASE

Autor  Julio Kirk (www.estranhosemnome.wordpress.com)

 

Porta da geladeira aberta, alguém cruzava o facho de luz da lâmpada que ficava lá no fundo, bem em cima de duas garrafas de água na primeira prateleira. Aquele sujeito magro com uma cabeleira ruiva  e revolta, enfiado dentro de um pijama azul era Jake, o dono da casa, tentando encontrar o maldito queijo Cheddar e o presunto, pra fazer algo pra comer. Três e vinte e sete da manhã não é uma hora muito ortodoxa pra levantar da cama, fazendo treze graus lá fora, só pra comer queijo com data de validade duvidosa e presunto idem, dentro de um pão de ontem. Jake sabia muito bem disso, e já começou a ficar com raiva quando notou que perdeu o sono e encarou o rádio-relógio mostrando aquela hora cretina em caracteres vermelhos.

Sem muita escolha ou vontade, o pobre diabo se levantou. Teve raiva da dor nas costas. Teve raiva de não conseguir encontrar o interruptor da cozinha, ainda atordoado, daquele jeito que se fica quando se acorda e se quer estar dormindo. Foram, ele e a raiva, no escuro mesmo. Enfiou o menor dedo do pé esquerdo na perna da mesa mais próxima. Soltou uma praga, deu um murro no tampo de granito com a base da mão esquerda e sentiu a dor subir pelo punho. Punho e dedo. Levantou a perna e segurou o dedo com a mão direita, praguejou, desceu a perna, segurou o punho, praguejou. Praguejou pra geladeira, que estava seguramente um metro e meio pra direita dele e da mesa. Seu dedo do pé ainda fazia questão de mostrar como ele descobriu a localização dos objetos.

Jake pegou os itens na geladeira, fez o que ia fazer, comeu, saiu da cozinha praguejando a mesa (ainda) e deitou-se. Três e quarenta e um no lar de Jake, o homem de uns vinte e cinco anos de idade, deitado sozinho no apartamento seiscentos e seis, sentindo raiva. Aliás, a raiva era um componente substancial dele. Tinha raiva do emprego onde sentia-se inferior, de viver sozinho, de não saber falar alemão e inclusive, tinha raiva de ter raiva. Raiva, sempre.

A vida de Jake corria como fazia há um bom tempo. Ele estava na plataforma do metrô, esperando pra ir pro odioso trabalho. Foi tudo simples, de fato: um sujeito de estatura lateral elevada – vulgo, um grandalhão – esbarrou nele. Jake teve um espasmo natural de raiva e mandou seu agressor para a puta que o pariu. Esse espasmo só era diferente em um quesito, um quesito crucial: Jake o fez em voz alta pela primeira vez. Discussão, ofensas, nariz sangrando, confusão. O homem grande ouviu e tirou satisfações.

Jake, com as narinas entupidas de algodão e recém saído de uma farmácia, finalmente chegou no trabalho. Foi indagado pelo supervisor sobre o porquê de sua demora e seu ferimento nasal, e pediu ao seu superior que fosse perguntar isso para a senhora sua mãe, aquela vagabunda maldita. Departamento de Recursos Humanos, demissão por justa causa. Jake estava sem entender nada. Simplesmente não conseguia controlar os espasmos de raiva, era isso? Como assim? Sempre se achou um pouco estressado, mas agora ele achou que estava perdendo o controle. E estava mesmo.

Voltou pra casa, pensando em procurar emprego novo e talvez pedir dinheiro emprestado pros pais, em Chicago. Tudo culpa dele. Viu o telefone, pensou em ligar pra alguma das garotas com quem tinha saído. Ligou pra Darla, uma loira canadense com quem tinha transado uma vez e depois a deixou pra lá, porquê ficou com raiva do fato dela não querer tirar seus pêlos pubianos pra ele. Ela não entendeu nada, claro, quando Jake não ligou nos dias seguintes. Nem ligou isso a uma resposta simples dada por ela, acerca de sua vontade de não se depilar, durante a noite de sexo.

Jake ficou com raiva sozinho, como fez a vida toda. Teve ódio em várias ocasiões de sua existência, e sempre sozinho. Quando acontecia algo que não podia prever ou controlar, apenas odiava aquilo. Odiava, gritava sozinho em casa e depois voltava pro convívio social, aliviado, ou quase isso.

Darla não quis sair – estava namorando. Jake gentilmente disse que ela podia enfiar o telefone no esfíncter do tal namorado e depois girar. Bateu o telefone e provavelmente ganhou uma inimiga, que faria questão de avisar a todos que Jake era um desgraçado.

Sem Darla, sem emprego e transbordando de ódio, ele saiu sozinho mesmo. Andou pela cidade e quase foi  atropelado três vezes atravessando as ruas sem olhar, e ainda tinha a visão turva pela raiva. Na quarta vez não erraram. Jake voou pelo capô de um utilitário da Volvo e caiu no asfalto com resquícios de neve. O ódio subiu pela fratura exposta na tíbia esquerda. Subiu pelo corte no supercílio. Vazou pelo asfalto, na frente dos curiosos. Jake xingou e enviou pragas quando a hemorragia deixou. A puta da Darla e seu namorado retardado, o vagabundo do supervisor curioso, o bosta do valentão, o pé da mesa de merda.

A visão escureceu, as veias do pescoço pulavam enquanto era colocado na maca. Os paramédicos provavelmente queriam deixar aquele idiota que não parava de gritar ali mesmo. Gritou até a morfina fazer efeito. Acordou no hospital metropolitano. Olhou pela janela, era dia, outro dia. Gesso na perna, na bacia, cabeça enfaixada. Não tinha ninguém com ele. Teve raiva de não ter uma enfermeira por perto. Tentou levantar e ir até a porta e caiu no segundo passo manco. Odiou sua condição. Se odiou e a todos os outros que ajudaram aquela situação a existir. Olhou pra janela de novo. Um pombo estava do outro lado do vidro.

O pombo pareceu estranhamente zombeteiro. Ele paracia dizer “Jake, seu idiota, eu estou aqui fora comendo minhas migalhas e posso voar, você nem anda direito. E você é o culpado pelo seu estado”.  Jake pegou o objeto mais próximo, ironicamente um rádio-relógio. Arrancou a tomada da parede e se arrastou até a janela, pronto pra matar um pombo da maneira mais estranha que alguém poderia conceber. Quando venceu os dois metros e meio de chão até a famigerada janela, se esforçou pra abri-la. Só então notou que o pombo tinha ido embora, e provavelmente uns dois minutos atrás. Jake nem tinha visto antes. Assim mesmo abriu a janela, procurando em vão pelo bicho. Pôs o torso pra fora do prédio, procurando ainda, cego de ódio. O pombo passou a representar toda a desgraça. Foi uma ligação mental muito estranha, mas foi assim que aconteceu.

Jake se dependurou no parapeito, em uma posição esquisita, meio de costas, procurando o animal. Não achou. Só viu alguns pombos quando escorregou do parapeito, passando de ponta-cabeça pelo andar de baixo. Avançou por cinco andares de alas hospitalares, puxado pela gravidade. Foi visto por algumas pessoas nas janelas. Soube que ia morrer no limiar do primeiro andar. Teve ódio. Suas veias do pescoço se chocaram estufadas sobre o teto de um utilitário da Volvo – ironia, e liberaram seu conteúdo dessa vez. O ódio acabou. Estava espalhado no teto e pingando na superfície do estacionamento, onde não faria mal a mais ninguém.

Wellyngton Vianna

Recifense, 23 anos, CEO fundador do CYBER SÉRIES.

“Escrever liberta, podemos criar, recriar e inovar. Podemos tornar públicas as nossas idéias”.