Contos da tarde: Carência

Contos da tarde: Carência

CARÊNCIA

Autora: Charlotte Marx

Produzido: Dezembro de 2014

Por que ele não entrou no face? Por que ele me deixou sem notícias no celular? Será que está com outra? Sim, aquela vagabunda da farmácia! Aquela mal amada que não sabe encontrar alguém para ela e veem roubar o que é dos outros! Sim, porque ele é meu, meu, todinho meu. Não quero que ele me deixe um minuto sem notícia. Aquele papinho de que está trabalhando, não, ele está é me botando chifres! Cachorro! Ai eu vou para sempre me arrepender do dia que eu aceitei o pedido de namoro daquele desgraçado! O que essa atriz tá fazendo? Por que ela está olhando assim para o mocinho? Mas era só o que me faltava, né? Ter que aturar esse beijo molhado, nojeeeento. Por que isso não acontece comigo? Por que eu não sou feliz? Eu quero ser feliz. Exijo ser feliz. Se ele não me dar uma notícia em um minuto, eu vou me cortar, vou me matar, daí sim ele vai me dar valor, ah vai………………………. Não aguento esperar, ainda faltam 30 segundos. Cozinha, cozinha, segunda gaveta está trancada? Quem trancou a gaveta dos talheres ? Eu quero a porra dessa faca já! Eu não vou suportar ficar nessa angústia, sofrer por dentro, preciso sentir uma dor física para evaporar essa mal. Maldita gaveta, abre logo, eu estou querendo que você abra. Mas por que essa coisa não me obedece. Quem trancou? Um bilhete, não, não, melhor, uma carta, aquele desgraçado escondeu uma carta da amante dele aí, só pode! Filho de uma égua! Ele está me traindo! SADICAMENTE AINDA POR CIMA. Por que não me deixa me furar, por que quer que eu sofra pela sua falta? Ai… mas o que é isso? Barata maldita, eu vou acabar com você. Toma isso e isso, desgraçada, asquerosa, vai para o inferno dos insetos. Mas a danada não morre. É a amante dele. Cachorra. Olha que eu faço com você! Eu jogo álcool, agora eu boto fogo… Isso mesmo torra, foge não, por que essa fumaça vai intoxicar seus pulmões. Se é que você tem algum, sua ramera. Isso fica de pata para cima, torra…queima…MORRA !!!

 

Meu deus, o que eu estou fazendo? Sou bióloga, não posso permitir em nenhum momento que um inseto morra. Onde está a toalha para jogar abafar a chama. Com certeza ele tirou daqui, ou melhor, ela esteve aqui na noite para encontra-lo e roubou o meu pano! Não…. morre não. Volta baratinha, volta… por favor, eu te imploro. NÃOOOOOOOOOOOO. É tudo culpa daquela vaca, olha o que ela me fez fazer. Trim Trim !!! Que barulho é esse? Telefone ! É ELE !!! Alô, quem fala? Mãe? Eu não posso atender agora, estou esperando alguém me ligar. E daí que você está com dor no peito, liga para a Jacinta. Agora não posso! Ela está viajando? Pois a culpabilize então! EU NÃO TENHO NADA HAVER COM ISSO. Tchau, tchau. Mas era só que me faltava, ela é outra, é outra, que sempre torceu contra meu namoro com o Alberto. Só por que ele era pobre? Como se isso medisse caráter de alguém! Eu não vou aguentar, não vou. Mãos fiquem calmas. Porra por que você está tremendo??? Que nervo ! Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, eu me esqueci de pagar a conta de luz! Ainda são nove horas. Vou vestir um casaco rápido. Laranja? Onde foi que eu coloquei o caso Laranja? EU TINHA CERTEZA que havia colocado aqui. Foi aquela morsa da amante dele. Ela esteve aqui, ou melhor, ela o pagou com sexo para ele esconder o meu casaco. Ah, mas eu mato os dois, eu mato. Pensando bem ele não pode morrer, não pode. Ele ainda tem que viver muito ao meu lado, tem que morrer antes de mim, para me deixar viúva, não posso morrer antes dele, não posso. Achei! Sapatitos. Batom roxo, pensando bem ele gosta do avermelhado. Onde está o batom? Aparece querido, não prove que é mais uma armação daquela bandida da amante dele, que eu preciso descobrir o nome. Isso mesmo. Para fazer macumba para nascerem verrugas no pescoço dela. Para ela sofrer um acidente de gás dentro de casa e morrer asfixiada. HAHAHAHAHHAHAH.

 

Nossa que brisa forte, melhor fechar o casaco. Abre cadeado, abre. ABRE SUA MERDA. Isso. Nossa não há nenhum carro na rua. Que marasmo! Se essa rua, essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar… Ai, cuidado com o bueiro. Com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar. Lala ri ri, l ala riri , la ririri, tan tan tan tan tan tan tan tan tan tan TAN. Que foi cachorro? Me deixa em paz. Se você estiver seguindo ordens daquela mulher, eu jogo uma pedra em você. SAIIIII ESTRUPÚCIO. Nossa senhora, mas nem paz a gente pode ter hoje em dia, nossos inimigos nos sufocam. Bom dia seu Clodoaldo! Hey, eu falei com você. Tira esse chapéu horrendo. Eu hein? Vai coaxar para a sua mãe. Ai, homens do campo, caipira, songo mongos. Padaria fechada, mas a essa hora? Mas está iluminado lá no fundo. Meu Deus! Estão assaltando. Vou chamar a polícia. Onde está meu celular?  Liga logo caralho. Pensando bem, se eu fizer isso. O Alberto pode ligar para mim. É melhor não. Não suporto mais aguentar ficar sem ouvir sua voz. Que se dane essa família, nunca me deixou comprar fiado, tomara que morram agora. Minha nossa, como estou despenteada. Preciso ficar bonita para quando o encontrar e pegá-lo na cama com aquela vadia. Preciso mostrar o que ele está perdendo. Banco! Até que enfim! Caixa Econômica federal. Greve? Hora de pagar a continha de luz. Que ótimo que não tem ninguém. Bem que o Alberto poderia trabalhar de segurança aqui. Pelo menos eu o veria agora. Claro, não chega aos pés do executivo que ele é, mas pelo menos iria ser bom para gente. Não iria me deixar tão aflita.

Nossa que demora em responder. Vejamos… Não Foi POSSÍVEL REALIZAR SUA TRANSAÇÃO. DESCULPE O INCOVENINENTE. Mas é só isso que eles dizem. Meus queridos, eu preciso pagar a conta, que por sinal já está atrasada. Na verdade era para o Alberto pagar, mas como ele preferiu ficar com a amante dele. Devolva meu cartão, maquina velha. O QUÊEEEEEEEEEE? VOCÊ ENGOLIU O MEU CARTÃO. MALDITAAAAAAAA AMANTE QUE CONFIGUROU ESSA LATARIA PARA FAZER ISSO COMIGO. AH MAS ELA ME AGUARDE, ELA NÃO CONHECE QUEM É MERCEDES PERPÉTUA. E o pior que eu nem posso ligar para a agência para reclamar, essa porcaria de homem que nem para me ligar é capaz. Eu mereço Deus, eu mereço !

Bom, se eu não tenho mais nada a fazer aqui, o melhor é voltar para a casa. Ouvindo Adele ainda…. Para todos sentirem dó de mim, uma pobre mulher rejeitada pelo marido e mancomunada pela amante doentia dele. Beth? O que está fazendo aqui. Ai, mas que tapa foi esse, sua ingrata! O quêeeeeeeeeeeee? Não, a mamãe não pode ter morrido. Minha culpa. Mas era você que tinha a reponsabilidade com ela. É solteira, eu tenho uma família, quereeeeeda. Dá para me largar que você vai me descabelar toda. Depois dessa notícia tórrida, o que eu tenho a fazer é desejar meus pêsames e ir para minha casa, esperar o meu marido chegar. Passar bem. Vadia é a filha que você vai ter! Eu hein? Uma mulher de respeito, ser abordada por uma marginal que ainda possui o mesmo sangue que eu. Ai, mereço.

….. Meu Deus, já são dez horas e ele não chegou, faz um minuto que a firma fechou. Onde será que ele está? Isso comprova minha teoria de que ele me trocou por outra. Mas eu não vou suportar. Não vou suportar ter sido golpeada a facadas pelo meu próprio homem da minha vida. Vou para meu quarto, dormir para não sofrer em meu leito celestial. Mas o que é isso debaixo da pia? Veneno de rato? Ah sim, mandei a Matilde comprar para jogar no ralo do quintal. Mas ele ainda está cheio? Vou tomar um banho. Água gelada como eu gosto, obrigada chuveirinho. – Ela se encarou no espelho. Era feia, tanto por fora quanto por dentro. Como poderia duvidar do seu marido? Como poderia não deixar ele respirar com aquela carência dela? Ela era um monstro. Um poço de egoísmo. Não o merecia.
Seus olhos vermelhos se encararam no chuveiro, enquanto ensaboava os cabelos enegrecidos. Ela estava doente. Como não atendeu sua mãe no momento que ela mais precisava? Como teve coragem de negar socorro a seus vizinhos e o pior tripudiar em cima da morte daquela que a pariu? Ela estava fora de si. Alberto sempre fora o homem mais fiel que existira. Isso que ela sentia não era amor, era posse. Obsessão. Fechou o chuveiro. Começou a chorar. Que ódio ela tinha dela. Saiu nua do local. Pegou um garfo, furou o braço, mas aquilo não adiantava, não iria mudar o que ela fizera. Olhou para a garrafa de veneno de rato. Hesitou um instante, mas resolveu.

A porta da cozinha abrira. Alberto trazia um buquê de flores que comprara cedo para a namorada. Era o homem mais feliz do mundo.

Amor, você está AÍ ! NÃO PODE SER! VOCÊ ?

 

Charlotte Marx

Campineira. 26 anos. Estudante de medicina. Autora e divulgadora do Cyber Séries. A escrita para mim é uma companheira da madrugada, a qual surpreendentemente assume o piano e me encanta com suas nuances. Inseparável da arte, esta só viva quando se pode voar e ser quem desejar. Sou viciada no que faço!Ler, por sua vez, é personificar o universo, é observar o amadurecimento de uma planta chamada vida. É amar veladamente o intracelular.

  • Cyber Séries

    Amei de verdade esse conto. Teve todos os elementos cativantes,parabéns Charlotte!!!!!

    • Charlotte Marx

      Obrigada pelo carinho, seu bobão kkkk. Quando escrevi esse conto, pensei em brincar com a linguagem, trazendo para prosa um pouco da Libertinagem de Bandeira. As exclamações, o caps lock, reticências, tudo isso revela o humor da personagem que varia há todo instante. Definiria-a como Obsessiva.

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