Contos da manhã: O Elevador

Contos da manhã: O Elevador

O ELEVADOR

Autor: Givago Thimoti

Site: Entre contos (www.entrecontos.com)

 

Ele estava animado para o seu primeiro dia de trabalho. Deu um beijo apaixonado na esposa, encheu sua garrafa térmica de café e deixou as crianças na escola.

Estacionou o carro no prédio da empresa, ajeitou a gravata e abriu um sorriso ao ver que estava bonito, ou, pelo menos, apresentável. Ele andou confiante, até o elevador.

Quando as portas se abriram, ele recebeu olhares que diziam e afirmavam categoricamente:

– Aqui não é lugar de preto.

Mas Martin podia ignorar os olhares enviesados. O que ele não pôde ignorar foi um dos homens que estavam no elevador:

– O elevador de serviço fica lá atrás. A sala dos seguranças fica no primeiro andar. – Disse, com um olhar que entregava que sua intenção não era dar instruções, mas sim, ordens.

As portas se fecharam, evitando qualquer resposta. Ele não entrou, barrado pela cor e por um homem que fez questão de se deslocar para a entrada do elevador.

Para alguns, aquilo era um simples engano, porém, para os filhos do açoite, os portões do templo foram fechados.

Martin olhou para baixo, abriu o sorriso amarelo e esperou o, até então, imaculado elevador voltar. Ele subiu para o nono andar, pediu uma orientação a uma mulher que carregava pilhas de papeis e chegou ao destino.

Lá estava sua secretária, escrevendo algo em um bloco de papel amarelo, e, com um segundo lápis, enrolando um dos inúmeros cachos do cabelo. Ao contrario do que Martin pensava, a secretaria estava prestando atenção nele e, assim que ele se postou de frente para a mesa dela, falou:

– Olá, o senhor deve ser o novo chefe, Martin, não é?

– Sou sim, prazer. – Martin esticou a mão e cumprimentou a simpática jovem.

– Muito prazer. Meu nome é Nina. Sou sua secretária. Sua nova equipe já está na sala de reunião esperando o senhor. Siga-me.

Em dois minutos, Martin entrou e, para sua surpresa, viu o mesmo homem que deu as instruções para ele ir à sala dos seguranças. Do seu lado, o outro individuo que deu um passo à frente, impedindo a entrada de Martin.

Martin não conseguiu esconder o sorriso. Sim, ele ria. Como não rir da ironia do destino? Mas, tenha certeza, ele não sorriu sozinho. Os açoitados morriam de gargalhar.

– Pessoal, esse é o Martin, nosso novo chefe. – Nina anunciou, um tanto quanto animada.

O homem que deu direções para o que julgava ser um segurança, olhou para o novo chefe, meio irritado, meio sem acreditar. Balançou a cabeça, claramente contrariado em ter um negro como superior hierárquico.

Martin começou a falar com a nova equipe, como se nada tivesse acontecido. Porém Depois de alguns minutos, ele disse:

– Talvez isso não valha para a boa parte de vocês, mas, mesmo assim, eu vou falar. – Ao dizer isso, ele encarou o homem do elevador. – Negros ganham 59% a menos que os brancos. Somente 13% da população negra entram no Ensino Superior. Eu sou da parte da população que morre todos os dias por erro de policial. Somos nós que, por vezes, somos vitimas de prisões arbitrarias. Somos nós que cuidamos do seu filho enquanto alguns de vocês trabalham…

“E, ainda assim, com muita dificuldade, meu destino é ser o chefe de vocês. Não pensem que minha cor me atrapalhou. Ela só me abençoou.”

Wellyngton Vianna

Recifense, 23 anos, CEO fundador do CYBER SÉRIES.

“Escrever liberta, podemos criar, recriar e inovar. Podemos tornar públicas as nossas idéias”.