Conto para dormir

Conto para dormir

Autora: Susana Silva

Idioma do texto:Português (Portugal)

Era uma vez uma moça chamada Lili que eu comi…

Eu chamo-me Gui e sou um javali de boas famílias, pelo menos até aparecer uma bruxa. Ela me obrigou a ir atrás daquela linda e fofa menina que conheci em novo e, que o destino quis afastar de mim. Eu poderia ter sido amigo dela, mas não me foi permitido. Agora que estava do lado do mal, tinha de achá-la o mais lesto possível para saciar a minha fome.

Anos atrás

Ia a passear pela rua do carmo, uma rua muito pouco frequentada, naquela altura do ano… quando me apareceu aquela visão do outro mundo. Nunca tinha visto igual, fiquei fascinado com sua beleza… seus cabelos lisos ruivos como se fossem chamas, iam até seus perfeitos e curvilíneos seios, melhor que a lady godiva, que era uma nobre conhecida pela sua extrema beleza e por ter cavalgado nua. Fiquei especado a olhar, enlevado pela sua beleza natural. Pouca roupa trajava, um vestido branco de alças muito simples, só com um pormenor de renda no decote, que ocultava a parte mais sensível do seu peito. Como eu só direcionava o meu olhar, ora para o cabelo e rosto, ora para seus seios, não visualizei mais nada.

Estava em cima de um cavalo luso branco, que porte que ela tinha a montar. Dava a impressão que tinha nascido para aquilo. Pareceu estar virada na minha direção com aquele olhar esverdeado, sedutor e meigo… Não sei como consegui ver a cor de seus olhos àquela distância, mas a verdade é que devia ser um dom meu… Achei estranho nunca ter notado antes que conseguia ver tão bem, mesmo estando afastado do objeto do meu interesse. Se fosse um dom que me tinha sido ofertado pelo criador, eu agradecia a Deus, pois fez com que visse aquela Deusa.

Afinal, ela não me devia ter visto, olhou só por olhar. Sei disso pois aquela visão continuou o seu caminho, afastando-se de mim, cada vez mais. Devido ao dom que eu acabara de descobrir que possuía ainda a conseguia ver.

Algo ou alguém me tocou no ombro direito, fazendo-me arrepiar. Tive um mau pressentimento, mas nem liguei … fiz mal em virar para trás, pois, além de não ver ninguém atrás de mim, quando me voltei na direcção onde a minha amada ia fiquei desiludido. Ela tinha desaparecido por completo. No seu lugar encontrava-se uma garota feia como a noite. Parecia esquelética e branca como a cal, dentes podres e com mau cheiro, até tive que tapar o nariz com a minha mão direita para não vomitar…Ui… esqueçam o que eu disse… estou a criticar destrutivamente a noite… Até porque, estas, podem ser bem deslumbrantes. Ainda me lembro de noites de tempestade com aqueles raios a passar entre as estrelas e aquela lua cheia, tão maravilhosas. Os meus olhos adoravam ver esse tipo de noites.

A menina era tão feia que metia medo ao próprio susto. Quando seu olhar cruzou com o meu quase que congelava, tinha buracos em vez de olhos. Ainda bem que consegui ter o discernimento de fugir dali antes que se aproximasse de mim. Nem fiquei para saber o que aquela cruel criatura pretendia ao me abordar daquela forma tão estranha e misteriosa.

Quem seria aquele ser monstruoso?

Vivi quase 10 anos com esperança de reencontrar aquela bela moça… Nem ao menos sabia seu nome… Não sei bem porquê, mas sentia uma necessidade inevitável de revê-la. Poder tocá-la era o meu maior desejo, mas sentia que se voltasse a vê-la, algo de vil aconteceria.

Dias atuais

Até que, numa linda manhã de outono fui à floresta e deparei-me com ela, fiquei paralisado, esperando um sinal que me transmitisse se seria bom aproximar-me ou não. Sem saber o que fazer, cheguei o mais perto possível. Ela tinha um vestido justo ao seu corpo cheio de curvas e contra curvas, onde predominava a cor cinzenta clara, com uns desenhos que não dava para saber do que se tratava, pequenos e na cor preta. Inspirei e veio-me ao nariz um odor doce a mel, fechei os olhos para poder contemplar seu cheiro melhor. Quando abri os olhos, ela virou-se na minha direção como se já estivesse à minha espera e ficou imóvel. Eu só conseguia ouvir o seu respirar.

Aquela deusa levantou-se, pegou cuidadosamente na minha mão direita e disse com uma  doçura que derreteria qualquer um:

— Ela conseguiu que alguém fizesse o seu serviço sujo… podes avançar. Estou pronta! Não vou levar-te a mal. Tu não és culpado de nada. Não o podes evitar. Estás sobre os seus poderes maléficos.

Colocou o seu pescoço perto de minha boca e aguardou a minha reação. O meu ímpeto foi o de saltar para cima dela, mas não o fiz e ainda bem. Não conseguia, a minha cabeça mandava atacá-la, mas o meu coração tentava impedi-lo. Que desejo enorme me corroía a alma. Tentei tirar esses pensamentos da minha cabeça, tinha de distrair-me com alguma coisa. Só depois refleti no que me acabara de mencionar, as palavras “ela conseguiu” vieram-me à mente.

— Ela, quem? Não sei do que está a falar — disse, afastando-me e fazendo com que largasse minha mão, com receio de fazer algo de que viesse a arrepender-me depois. Tinha de conseguir resistir àquela tentação.

De repente, e sem nos apercebermos aquela criatura horrorosa apareceu de novo, dizendo, ou melhor, gritando:

— O que se passa aqui? Porque ela ainda está viva? — Olhou para mim e ordenou com um olhar hipnotizador que me fez ter tremores nas pernas e braços. — Faz alguns anos atrás, mandei que fizesses uma coisa. Continuo à espera — desviou o seu olhar do meu e apontou para a outra.

Do que estava ela a falar, só me lembro de a ter visto e ter reagido fugindo. Será que ela teve tempo de fazer algo comigo?

— Continuas a querer a minha morte, mana? — Disse aquele anjo de forma suave, as suas palavras davam-me paz.

Ela aproximou-se novamente de mim, colocou os seus lábios perto de uma das minhas orelhas e sussurrou:

— Faz o que a minha irmã te ordenou o quanto antes, por favor! Se não o fizeres, aquela bruxa é bem capaz de fazer-te mal. Não quero que mais ninguém sofra por minha causa. Já foi suficiente ela ter torturado e morto os nossos pais, sem eu ter poderes para o evitar. Tive que ver aquela cena sem poder fazer nada. — Ela falava e soluçava, parecia estar a chorar.

— Lili, sempre boazinha — disse aquela personagem horrível, com escárnio. — Até me enjoa. — Levou a mão direita ao nariz e apertou-o, fazendo uma careta e continuou o seu discurso, com a voz a subir de tom: – Sempre foste a mais querida por todos… Eu era apelidada de diabo e tu de santa. E não me chames de irmã. — Olhou de novo para onde eu estava. — Acaba lá o serviço! Não tenho o tempo todo para esperar.

Quando levantou um dos braços e, antes que me obrigasse a algo, Lili veio à minha beira… Ao ver aquela beldade olhando para mim de maneira tão penetrante, engoli em seco e tomei coragem. Saltei para cima da irmã má e fiz com que desaparecesse da face da terra. Como ela não estava à espera daquilo, nem reagiu.

Sua irmã, sorriu para mim, avançou e beijou-me. Aquela vontade de fazer-lhe mal tinha passado. O feitiço que a irmã má me colocou deve ter perdido efeito assim que morreu.

Susana Silva

Portuguesa, escritora. Faço parte da equipe de autores do Cyber Séries, escrevo contos, poemas e poesias.

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