Conto: Noite de Terror

Conto: Noite de Terror

De: EDUARDO MORETTI

 

Os pais de Brenda estavam preocupados com ela e a sua viagem repentina. Fazia pouco mais de dois meses que Nicole, sua irmã mais nova e o namorado dela haviam desaparecido quando iam para um show numa cidade vizinha e nunca mais eles voltaram para casa. E agora do nada, Brenda também decidira ir viajar e iria passar justamente pelo mesmo caminho que Nicole havia percorrido com Peter.

– Brenda minha filha, por favor, eu te peço… Não vai! – Disse a mãe implorando pra ela, enquanto Brenda terminava de arrumar sua mochila.

– Eu preciso ir mãe… Olha só não vai acontecer nada comigo, eu prometo. É só um fim de semana na casa de campo dos pais da Kelly. A turma toda vai estar lá.

– Deixa ela ir e se distrair um pouco meu amor. – Disse o pai compreensivo. – Ela é jovem e tem que se divertir. Desde que tudo aconteceu, enfim… Que ela vive trancada dentro dessa casa, só sai para o colégio. Sair um pouco e respirar outros ares vai fazer muito bem pra ela.

– Obrigada papai. – Disse enquanto dava um beijo no rosto dele. – E vocês deviam fazer o mesmo viu… Sair e aproveitar mais a vida, porque apesar de tudo ela continua, e depois a Nicole seria a primeira a não gostar de ver vocês dois assim tão pra baixo.

– De certa forma eu sei que você tem toda razão minha filha… Mas a perda de um filho, principalmente de maneira tão brusca como foi no caso da Nicole, com ela estando desaparecida e nós sem sabermos ainda se a sua irmã está viva ou morta, é mais difícil… A gente quer ter uma resposta, ainda que seje boa ou ruim, mas que pelo menos vai nos fazer seguir em frente de uma forma ou de outra, entende? Mas essa agonia de não saber nada, de não ter uma certeza é o que acaba comigo. – Diz pegando o retrato da filha em cima da escrivaninha e fica olhando pra ela, com lágrimas nos olhos.

– Se a polícia ao menos não tivesse parado de procurar por ela… Chega a ser um descaso isso, eles darem as buscas por encerradas antes de encontrá-la. Eles deveriam ir mais afundo nessas buscas e não desistir delas. Mas eles não estão nem ai para o desespero de um pai e de uma mãe. Se eu soubesse quem foi, eu já teria feito a minha própria justiça. – Diz se aproximando da esposa e colocando a mão no ombro dela, enquanto Brenda olha para os pais com pesar, e depois fecha a mochila ao ouvir o barulho de buzina lá fora.

– Eu preciso ir agora, eles chegaram… Prometem pra mim que vocês vão ficar bem? – Indaga preocupada. – A justiça vai ser feita, podem acreditar. Quem foi que possa ter feito algum tipo de mal pra Nicole vai pagar por isso. – Diz decidida. – Eu amo vocês. – Fala sorrindo e depois se despede dos pais, que pedem a ela cuidado e orientam Jason a não correr na estrada.

Brenda olhava emocionada a foto da irmã. Seu olhar tinha um misto de dor, raiva e saudades. Sem ver a irmã há mais de dois meses, e sem ter idéia do que acontecera com Nicole, ela só pensava em acabar com todo aquele sofrimento de seus pais, que fazia mal pra ela. Brenda sentia-se impotente sem poder fazer nada. Nicole e o namorado iam ver uma banda nova tocar num show em outra cidade. – Eles estavam eufóricos. Nicole era linda, cheia de vida e tinha apenas dezessete anos. Ela não podia estar morta. Brenda se recusava a acreditar nisso. Um mês apenas depois do ocorrido, e a polícia deu as buscas por encerradas. – E se Nicole ainda estivesse viva em algum lugar? E se tivesse sendo maltratada? E se a tivessem seqüestrado e levado pra fora do país para roubarem os seus órgãos? – Ela não poderia aceitar esse isso. – Distraída, ela nem percebeu que a mini van parara e que eles haviam chegado. – Só então ela olhou em volta e viu que já era tarde da noite, pois estava um breu e o único barulho que se ouvia era o de uma coruja em cima da casa. – Ela então desceu da van e olhou para enorme placa velha à frente e leu: Sejam Bem Vindos a Livramento – SP. – Cidade Onde a Fé faz Morada!

Brenda deu um meio sorriso e meneou a cabeça negativamente, pensado: – Cidade onde a fé faz morada… Fala sério. Deviam ter escrito: Cidade onde pessoas desaparecem ou morrem, isso sim.

– Tudo bem amor? – Indagou Jason preocupado. – Jason era um cara do bem, moreno alto, bonito e tinha dezoito anos. Brenda por sua vez, era branca, tinha cabelos levemente cacheados nas pontas, bonita, delicada e também tinha dezoito anos.

– Não. – Respondeu séria e depois sorriu. – Mas vai ficar.

– Toma. – Disse lhe entregando uma garrafa de água. – Bebe. Você não bebeu nada desde que saímos de casa, deve estar com muita sede.

Brenda pegou a garrafa de água e virou quase toda de uma vez, só então percebeu que o que Jason dissera era verdade, ela estava morrendo de sede. – Obrigada. – Disse devolvendo a garrafa pra ele.

– Meu Deus! Onde nós estamos? Esse lugar é sinistro. – Disse Kelly apreensiva ao descer da van e ver que não havia mais nada em volta a não ser floresta, estrada e uma velha casa a frente deles. Kelly era loira de olhos claros e tinha dezoito anos.

– Na entrada da cidade. Pra ser mais exato a uns trinta quilômetros de Livramento, interior de São Paulo. – Falou Fred olhando o mapa. Fred era ruivo, tinha sardas e dezessete anos. Ele entregou a foto da internet para Brenda e perguntou: – E ai confere com o local? – Todos olharam para a enorme e velha casa abandonada, onde em volta só havia mato. – Brenda olhou para a foto e para o local. – É aqui. Eu tenho certeza… O namorado da Nicole chegou a mencionar esse casarão velho no e-mail que enviou pra ela com todos os detalhes do local do show e onde seriam vendidos os ingressos. Agora que tipo de pessoa vende ingressos para um show num local abandonado? Indagou curiosa.

– O tipo de pessoa que tortura e depois mata. – Disse Fred rindo.

– Que piadinha mais sem graça Fred. Agora não é hora pra esse tipo de brincadeira amigo. – Disse Jason o repreendendo.

– Mas a polícia esteve aqui e não encontraram nada, nem uma pista? – Perguntou Kelly curiosa.

– Nada. Eles devem ter feito uma limpa antes… – Comentou Brenda, enquanto olhava tudo em volta.

– Ou só quiseram atrair jovens pra cá, para serem degolados. – Falou Fred pegando no pescoço de Kelly.

– Para Fred! Brincadeira mais sem graça. Olha só me arrepie toda…

– Shhh… Quietos. – Disse Jason os puxando para trás da van e apontando para casa ao lado de um grande galpão. A casa era grande, velha e parecia estar abandonada. Mas de repente surgiu um sujeito grandalhão, careca, com a roupa toda suja, rasgada e um avental coberto de sangue. Ele estava furioso, desorientado, olhava para todos os lados, tinha um amassado no crânio do lado esquerdo e sua figura dava medo. – Ele saiu carregando uma picareta na mão e foi até o galpão.

– Nós temos que sair daqui agora ou estaremos todos ferrados! – Disse Fred branco de medo.

– Eu não devia ter vindo… Olha pra esse lugar? Olha aquele homem, ele parece um monstro. Nós vamos todos morrer. – Disse Kelly apavorada e chorando.

– Se acalma Kelly, por favor! Ninguém vai morrer aqui hoje, entendeu? Disse Brenda tentando acalmá-la. – De repente um grito de mulher pedindo socorro e vindo da casa ecoou pela floresta e todos se desesperaram. Fred foi entrando na van e gritando para todos entrarem logo.

– Meninas é melhor entrarem logo. – Disse Jason ao ver o grandalhão sair do galpão e sair correndo na direção deles. – Toca o carro Fred. Agora! – Gritou.

Nesse momento o grandalhão arremessou a picareta de longe e Jason gritou:

– Pessoal se abaixem! – E puxou Brenda para perto dele, a protegendo.

Tudo o que eles ouviram foi um barulho forte de vidro se estilhaçando e Kelly gritando sem parar. Quando Jason olhou, viu Fred morto com a picareta cravada no lado direito de sua cabeça, e de sua boca escorria um sangue espesso. O sangue também não parava de jorrar, chegando a escorrer pelo pescoço de Fred.

– Não olha agora meu amor, não olha. – Disse Jason trazendo Brenda para si novamente. Quando todos olharam para fora da van, foi à vez de Brenda gritar. – O grandalhão estava do lado de fora, olhando pra eles e sorrindo, e de perto ele dava mais medo ainda. Ele não tinha um dos olhos, um buraco negro e fundo ocupava o lugar do olho direito, e o seu sorriso mostrava dentes podres. – Imediatamente eles saíram do carro depressa e puxaram Kelly com eles que estava estática com toda a situação, e correram em direção a casa. – O grandalhão então retirou a picareta de Fred com tudo, fazendo a cabeça dele bater no volante e em seguida correu feito um louco atrás deles.

– Corre Kelly, corre… – Gritou Brenda.

Kelly corria devagar, seu corpo estava pesado, por fim, ela acabou tropeçando em uma enorme pedra e caiu gritando por ajuda. Jason e Brenda pararam e não sabiam se voltavam para ajudar Kelly ou continuavam correndo, já que o grandalhão estava bem perto deles e já se preparava para arremessar a picareta.

– Kelly! Não! – Gritou Brenda chorando. – Kelly não conseguia se levantar e tentou em vão se arrastar pelo chão desesperada, quando o grandalhão acertou o pé dela com a picareta e a puxou para si, fazendo-a gritar mais ainda de dor e medo.

– Não. Por favor! Eu não quero morrer… – Dizia implorando para ele que nem dava ouvidos e por fim arrancou de uma vez a picareta de seu pé, em seguida ele a ergueu e numa pontaria certeira a cravou no coração de Kelly, que morreu na hora.

Brenda virou o rosto e Jason a abraçou. – Vamos. Nós não podemos parar agora amor. – Finalmente eles chegaram até a casa e entraram. Depois de fecharem a porta, eles bloquearam a entrada, arrastando um armário velho na frente da mesma… Só então respiraram aliviados. Brenda olhou pela janela e não o viu mais. – Onde será que ele foi?

– Eu não sei. Vem… Nós temos que achar uma saída e dar o fora desse lugar o quanto antes.

– Você ouviu os gritos? Era de uma moça. Pode ser a Nicole. – Disse nervosa.

A casa era velha e suja, quase não havia mobília, tinha uma luz fraquinha e o assoalho de madeira rangia. Eles viram uma porta no fim do corredor e a abriram devagar. – Eles adentraram numa sala ampla, onde havia uma mesa de mármore comprida com uma pia acoplada e cheia de instrumentos cirúrgicos. Tinha luvas, bisturi, pinças, tesouras, alicates de corte, uma caixa cheia de algodão, seringas e garrafas com um líquido escuro. O cheiro do local era forte, parecia de algo morto e havia muito sangue em cima da mesa escorrendo pelo pequeno ralo no fim dela. No canto eles viram outra porta e devagar e com os corações batendo na boca, eles entraram. – Ali o ambiente era mais limpo, tinha caixas grandes e médias empilhadas por todos os lados e Jason ficou curioso e decidiu abrir uma. Dentro ele encontrou vários olhos artificiais, mas que pareciam demais com olhos humanos. – Não Jason, para. Não faz isso. – Sussurrou Brenda nervosa. – Jason olha. – Disse Brenda apontando para um canto onde um homem estava de costas para eles. – Ele fez sinal pra ela ficar parada onde estava e foi se aproximando com todo cuidado, quando chegou perto ele ficou pasmo com o que viu: O homem parecia humano, os olhos eram vivos, porém frios e estáticos. Ele tocou a pele, e sentiu a textura bem lisa, macia e gélida. – Que foi? – Brenda se aproximou e também ficou pasma, sem saber se era humano ou um boneco.

– Vamos sair daqui agora e chamar a polícia. – Disse desesperado.

– O que era aquilo? – Perguntou perturbada.

– Eu não sei… Mas essa mesa, todos os instrumentos… – Ele parou de falar quando viu um freezer na sua frente e foi até ele. – Vamos sair daqui. Não Jason. – Ele abriu o freezer e lá dentro havia um corpo de uma moça congelado. Brenda que também se aproximou, reconheceu o anel no dedo da irmã e tentou gritar, mas Jason abafou seu grito, tapando sua boca. – Ela chorou desolada. – Esse monstro matou a minha irmã! Quantas pessoas ele deve ter matado cruelmente e pra quê? O que ele faz com os corpos?

– Ele é um serial killer, mata por prazer. Tudo que vimos, faz parte de uma prática usada a milhares de anos em animais, mas que ele utiliza em humanos sabe se lá por quê? Ele está matando pessoas e conservando seus corpos, utilizando a Taxidermia.

– Taxidermia? Eu já li sobre isso uma vez, é o empalhamento de animais. Especialistas usam essa técnica depois que os animais morrem para conservá-los como se estivessem vivos e muitas pessoas até decoram suas casas com esses animais…

– Exatamente! Só que aqui ele usa a técnica em suas vítimas.

– Meu Deus! Isso é bizarro. Porque ele faz isso?

Nesse momento o grandalhão surgiu por uma porta atrás de Jason e o pegou pelo pescoço. – Corre Brenda, corre! – Logo depois Jason teve a garganta cortada e ficou no chão, sangrando. – Brenda correu até uma porta, onde desceu uma escada e foi parar direto no porão. Lá ela encontrou vários corpos também empalhados, de homens, mulheres e até de crianças. – Atônita e completamente perdida, ela voltou a si, quando ouviu alguém chamando.

– Moça… Me ajuda. Por favor! Me tira daqui. – Implorou uma mulher desesperada, que estava amarrada e jogada num colchão velho. – Brenda foi até ela, mas se afastou ao ouvi-lo descer, fazendo sinal para que a mulher fizesse silêncio. Ela se escondeu num canto atrás de umas caixas e em cima de uma bancada encontrou uma faca, ela então não pensou duas vezes e a pegou.

– Me ajuda… – A mulher gritava, quando ele apareceu. – Me solta seu monstro, me tira daqui. Socorro! – Nesse momento ele foi até ela e enfiou a picareta em seu estômago, rasgando toda sua barriga e deixando-a sangrar até a morte.

Ele procurava Brenda em meio às caixas. Ela esperou ele chegar perto de onde estava e jogou uma caixa menor na outra direção, fazendo barulho. Ele foi para o outro lado. Ela então saiu devagar e se aproximou com calma, quando chegou perto, ele percebeu e se virou. E ela o atingiu cravando a faca no seu peito.

– Morra! Seu desgraçado. – Gritou com ódio.

Ele caiu de joelhos e deu um urro forte e horripilante. – Brenda não perdeu tempo e saiu correndo do porão. A todo o momento ela olhava para trás. Em uma das vezes, ela podia jurar que viu a silhueta de alguém na janela do segundo andar da casa, mas quando olhou novamente, já não estava mais lá. Ela chegou até a van e abriu a porta desesperada, depois chorando pegou Fred pelo braço e o puxou pra fora da van, deixando o corpo dele cair no chão. Ela então viu que as chaves ainda estavam na ignição. – Graças a Deus! – Ligou a van, deu a volta e acelerou o máximo que pode. Ela tinha que avisar a polícia logo, e teria três horas de viagem pela frente. Ainda bem que Jason a ensinara a dirigir. – Foi só pensar no namorado que ela começou a chorar. Depois se lembrou da irmã e dos amigos. – Quantas pessoas aquele monstro teria matado? – Se perguntou inconformada. Depois se lembrou do celular e o pegou no bolso da calça, mas ao tentar ligar o aparelho viu que estava sem bateria. Nervosa ela o jogou sobre o banco. E pisou no freio, depois de ter ligado o rádio pra se distrair com sua música favorita.

Após ter relatado as autoridades tudo que ocorrera com o namorado e os amigos na cidade de Livramento, e que encontrara o corpo da irmã desaparecida, a polícia foi até o local e avisou também a policia de Livramento. Ao chegarem lá, eles nada encontraram, nem sequer uma pista que os levassem ao paradeiro do grandalhão e de um possível cúmplice. Havia vestígios de sangue por toda parte e diversas digitais. O crime nunca foi solucionado. O assassino desde então desapareceu do mapa e ficou conhecido em toda região como: O Grandalhão da Picareta.

TEMA DE BRENDA - (HERE WITH ME - THE KILLERS)

Eduardo Moretti

Um cara do bem, romântico, sonhador, apaixonado pela vida e que ama o que faz… “Escrever para mim, é deixar de ser criatura para ser criador.”

  • Andrea Bertoldo

    Foi um bom começo e uma ideia legal que ainda pode melhorar ainda mais. Segurar, talvez, um pouco mais o suspense pra dar aquela falsa impressão de “Ah, ta vendo? Não tem nada demais aqui. É só uma casa velha…” Sqn… Tem potencial,Edu.Investe!

    • Eduardo Moretti

      Obg Dea. Esse conto escrevi pra poder participar de um concurso do Vianco, ele tinha restrições e limite de caracteres, por isso foi pá pum rsrs Mas com certeza na série aumentarei o suspense. <3

  • Muito bom Edu… Certamente a série será tão interessante quanto o conto.

    • Eduardo Moretti

      Obrigado Well. Já nos preparativos aqui e escrevendo o primeiro episódio, logo entrego o material pra você.

  • Isa Miranda

    Sinistro… Com gosto de continuação… Parabéns!! Conto mostrando a sua versatilidade, adorei!! s2

    • Eduardo Moretti

      Obrigado Isa! Vindo de você é um elogio e tanto amiga. Aguarde a 1 temporada da série s2