Conto: Fora da matrix

Autor: Luan Ribeiro

Então era 18hs de sexta feira. Mesmo que o ambiente estivesse cheio, me sentia invisível. Ontem, eu preferi ser invisível. Pelo menos por algumas horas. Apenas estava a observar o que a vida me oferecia. Coloquei a mochila nas costas e circulei pelos lugares mais agitados da cidade a pé. Pra quem considera que a paz esteja num lugar calmo, talvez não fosse a melhor opção.

   Diante de tanta gente ocupada eu pude ver uma pluralidade de situações. Pais com seus filhos, crianças suplicando por brinquedos ou aquele sorvete delicioso no calçadão. Gente exótica, que esbanja personalidade, pelo fato de não seguir o convencional. Cabelo colorido, raspado, arrepiado, tatuagens, alargador, vestimentas originais. Notei também aqueles que não largavam o celular por um segundo fazendo emoticons com o próprio rosto ao se deslumbrar com cada mensagem recebida. Vi um casal apaixonados, um rapaz branco e uma negra, não tinham nem 30 anos aparentemente, mas já faziam planos de adotar um bebê. Escutei casualmente a conversa numa parada de ônibus.

   Vi pessoas correndo, cultivando seu físico, seguidas com suas garrafas d’água. Observei aqueles que conseguiam ler livros em ônibus lotados e nesses casos minha curiosidade vai alem. Chego a me retorcer pra saber qual era o livro e associar a obra ao leitor. Percebi muitos ouvintes, aqueles com enormes fones de ouvido. Uns balançavam a cabeça ao som das músicas, outros pronunciavam a letra. E quando a chuva chegou a correria foi instantânea. Estudantes utilizam seus cadernos como proteção. Senhoras precavidas abriam os Guarda chuvas. Pessoas corriam para Todos os lados procurando um abrigo para nao se molhar. E eu estava seguindo sem rumo. Recebi a chuva como uma benção. Caminhava lentamente. Até que minhas roupas estavam totalmente molhadas. Passava a mão no meu cabelo para tirar o excesso da água. Aquela sensação era única. Aos poucos não via mais ninguém nas ruas. Sentei em um banco e continue a lavar a minha alma. Não era aquela chuva perigosa, seguida de raios e trovões. Era apenas água. Água da melhor qualidade. Melhor banho que poderia ter tomado. O movimento dos carros intensificou. O horário de saída de expediente e o clima mexeu com o trânsito. Mas o que mexeu comigo mesmo foi você ao aparecer do nada. Com os olhos puxados, um rosto simpático.

   E no meio da chuva sem o mínimo de receio você se aproximou. E ja de início se apresentou e diferente de tudo que eu observava, você me surpreendeu. Mas tão rapidamente se despediu pois tinha compromisso. E nesta noite de sábado eu ainda não dormi. Pois ainda me lembro de cada segundo dos dez minutos que passamos juntos. Pode parecer doido, estranho, mas eu não paro de pensar em você e cansado de te procurar nas redes sociais, eu não me conformo com a sua ausência. Ainda vou te achar, nem que seja apenas pra te ver novamente.

Luan Ribeiro
Autor, Supervisor de texto e diretor de planejamento no CYBER SÉRIES. Gaúcho!!
  • nando

    Uma crônica de nossos dias atuais retratada com sensibilidade e também segurança. O narrador consegue se equilibrar nesses dois pilares sem apelos, reviravoltas mirabolantes, tão somente um observador “passivo” disposto a receber o que o mundo (que não para) tem a oferecer.

    Parabéns 👏👏👏i