Conto: A Vida Ensina…

 

De: Eduardo Moretti

 

“Aquilo que nos fere é aquilo que nos cura. A vida tem sido muito dura comigo, mas ao mesmo tempo tem me ensinado muita coisa.”

Caio Fernando Abreu.

 

Como isso podia ser normal? Meu Deus do céu! Essas pessoas eram uma aberração, isso sim! – Pensou Bianca indignada. Tudo o que ela mais repudiava na vida, ali exposto no corredor do colégio, pra quem quisesse ver; não fosse seu namorado segurá-la, ela teria partido pra cima delas…

 

 

Bianca era uma garota de dezesseis anos, linda e geniosa. Ela trazia consigo na maioria das vezes, um semblante sério… Tinha opinião formada, era briguenta e triste; ninguém conseguia entender o porquê dela ser assim, nem mesmo Guto, seu namorado há seis meses, que tinha dezessete anos e era o melhor nadador do colégio. Ele só sabia que a amava, mas estava muito difícil manter o namoro. Ela não o escutava, só falava, gritava, esbravejava o tempo todo, e ele já estava cansado disso.

– Para! – Gritou ele, segurando-a. Ela andava depressa e resmungava pelas ruas, parecendo uma louca, e se assustou com o namorado por sua atitude repentina. De olhos arregalados olhando fixamente para ele. Pela primeira vez, ela emudecera, desde o lamentável episódio no colégio.

– Para! Chega! Eu não te agüento mais Bibi. – Disse mais calmo, depois a soltou e segurando-a pela mão, caminhou com ela até um banco na praça por onde passavam e sentou-se com ela. – Eu te amo… Mas esta cada vez mais difícil a convivência com você. Você parece carregar o peso do mundo nas costas, está sempre na defensiva, como se esperasse algo ou alguém te atingir. Ai você vai e atingi primeiro, passa por cima das pessoas como um trator. Pra que isso? E com pessoas que não estão te fazendo mal nenhum?

– Ah não, pera lá… Então você acha normal, aquela cena que vimos no colégio? – Falou já se exaltando novamente.

– Me deixa pensar… Duas garotas se beijando, que aparentemente se amam e não estão fazendo mal a ninguém, o que há de errado nisso? Deixa-as serem felizes como quiserem. Ninguém tem o direito de julgar isso. Nosso único dever é cuidar de nós mesmos, buscando ser felizes todos os dias e não se preocupando com a vida dos outros… Então sim, eu acho super normal duas garotas se beijando, se amando e até mesmo se casando.

– Bom você é homem, eu até entendo você achar isso normal. Vai ver é até fetiche, afinal todo homem sonha em ver duas mulheres juntas. Mas vejamos por outro lado… E se ao invés de garotas, fossem dois garotos se beijando no corredor do colégio hein? Você continuaria achando tudo normal? – Indaga em tom desafiador. Guto então a encarou sério, depois riu da cara dela, meneando a cabeça.

– Quando você vai entender Bibi, que eu não tenho preconceitos? Ainda que fossem dois garotos e daí? Qual o problema nisso? É amor… E ele não tem que ser certo ou errado, seguir regras ou padrões que a sociedade define como “normal”; ele precisa apenas de duas pessoas que se amem e se respeitem de verdade. E não importa cor, credo, classe social ou sexo. O amor não se explica. Se vive. Eu não sou gay, e não acho nada de errado em quem seja. E se um dia eu me apaixonar por um garoto, eu irei viver isso sem problemas, porque o problema não estará comigo ou com ele, e sim na cabeça de pessoas que acham isso errado, que são preconceituosas e homofóbicas como você.

Bianca parecia não acreditar naquilo tudo, como seu namorado podia ser tão liberal e condescendente? O mundo só podia estar perdido mesmo. Mas ela não se permitiria aceitar isso ou aquilo, ela tinha suas convicções e não iria contra elas jamais. Ela sentiu uma vontade de chorar, mas segurou. A única vez que chorara na vida foi quando sua mãe lhe confessara, quando ela tinha apenas cinco anos de idade, que seu pai não a quisera e que ele as abandonara a própria sorte, sumindo no mundo. Anos mais tarde, ela voltou a chorar, quando sua mãe lhe deu a triste notícia de que seu pai morrera num trágico acidente. Durante três dias, ela chorou até que suas lágrimas secassem… E desde então, prometera a si mesma nunca mais chorar.

– Isso não está mais dando certo. – Disse sem encará-lo.

– Nós dois? É do nosso namoro que você está falando? (Olhou-a triste).

– Sim. A gente não está se mais entendendo, e você não me respeita como eu sou, acho melhor pararmos por aqui.

– Tudo bem, se é assim que você pensa. Eu nada posso fazer e também não quero mais discutir. Na verdade, eu ando cansado disso tudo, que com toda certeza não esta nos levando a lugar nenhum. Eu gosto de você de verdade, mas você não me ouve, fala de respeito, mas também não respeita a minha opinião ou de qualquer outra pessoa, pensa que é a dona da verdade…

– Ai… Que saco! Ta legal. Eu já entendi. – Disse se levantado. – Não precisa ficar me massacrando também o tempo todo, a gente se vê por ai, tchau! – Falou saindo apressada. E Guto num ímpeto se levantou e foi atrás dela.

– Espera Bibi… – Ela parou, mas sem olhar para trás. – Eu espero do fundo do meu coração que possamos ser amigos. E que você encontre a paz que nem mesma você sabe que procura, pra acalmar esse seu coraçãozinho inquieto, triste e duro. – Nesse momento uma lágrima caiu de seu rosto. – Você não sabe amar… E quando eu digo isso, eu me refiro a todo tipo de amor, não só o seu por mim, mas pela sua mãe, seus amigos, pelo próximo e principalmente pela vida… Mas você ainda pode aprender… Só precisa se abrir mais para a vida e para o amor… Lembre-se que: O amor não precisa de perguntas, ele é a resposta de tudo! Boa sorte e seja feliz. Tchau…

Bia seguiu em frente, sem olhar para trás… Ela não via à hora de chegar em casa e ir direto para o seu quarto, colocar os fones de ouvido e ouvir a sua playlist no celular, se esquecendo de tudo e de todos…  Até mesmo de Guto. E essa seria a parte mais difícil, pois do seu jeito, ela também o amava de verdade. – Depois ela lembrou: Mas tinha sua mãe, e o sermão que ela ia ouvir depois que ela soubesse de sua suspensão no colégio.

Chegando em casa, ela entrou feito um furacão, batendo a porta com tudo e já ia se dirigindo para o quarto. Quando sua mãe quando a viu, tratou logo de interrompê-la…

– Hei… Hei mocinha, aonde a senhora pensa que vai com tanta pressa? – Disse terminando o terço que estava rezando, fazendo o sinal da cruz. – Ela era muito religiosa e rígida com a filha. Bibi parou de onde estava e se virou séria pra mãe, ela sabia que iria ter mais chateação e pensou se não teria sido melhor ficar na rua mesmo.

Antônia tinha trinta e nove anos, e estava de licença do seu trabalho como secretária executiva, e depois da separação há treze anos, ela nunca mais se interessara por homem nenhum. O grande amor de sua vida e também a maior decepção fora Raul, o pai de Bianca.

– Vem, senta aqui. Eu preciso ter uma conversa séria com você filha. – Disse se ajeitando no sofá, abrindo espaço para a filha, que resistiu um pouco, mas depois sentou-se.

– Olha se for sobre o que aconteceu no colégio hoje, eu não quero mais falar sobre isso…

– Calma, respira. Eu já estou sabendo o que aconteceu no colégio sim. A diretora acabou de me ligar contando tudo. Mas não é sobre isso que eu quero falar com você. Eu acho que a suspensão, somada ao fato de tudo que eu tenho pra te falar, vão ser mais do que suficientes para que você reflita e muito sobre a sua vida e a maneira como vem conduzindo as coisas… Enfim, é sobre o seu pai e também sobre mim…

Bianca olhou séria para mãe e não entendeu o porquê daquele assunto agora, ela estava esperando tudo, menos aquilo…

– Porque isso agora? Meu pai já esta morto e eu nem me lembro dele direito, ele nunca quis saber de mim… Porque desenterrar esse fantasma agora? – Indagou nervosa.

– Porque esse fantasma não existe Bianca! – Gritou a mãe se levantando. E Bibi olhou confusa pra mãe.

– Do que você ta falando? – Disse também se levantando. A mãe virou-se pra ela e disse na lata.

– Seu pai não morreu, ele está vivo! – Falou de supetão.

– Como assim não morreu? Você me falou, eu me lembro daquele dia até hoje, eu chorei a noite inteira por ele… Porque você mentiu pra mim esse tempo todo hein? – Indaga com lágrimas nos olhos. – Sobre o que mais você mentiu hein mãe?

– Eu menti sim. Ta bom? Eu errei e não tenho como voltar atrás, mas você já é uma moça, logo será uma mulher e terá que conviver com a verdade, e vai superá-la ok? Você não é mais um bebê chorão, e com toda certeza sairá mais forte disso tudo. – Falou séria e rígida como sempre fora. – Seu pai me traiu, ele foi contra tudo aquilo que eu sempre preguei, por isso eu não pensei duas vezes e o botei pra fora de casa. Não que isso fosse resolver alguma coisa, ele teria ido de qualquer maneira mesmo, era só uma questão de tempo.

Bianca já nem ouvia mais a mãe. Ela só pensava no que o pai teria feito pra que a mãe tivesse tanta raiva dele, mesmo após tantos anos, e porque ela o afastará dela, a ponto até mesmo de inventar que ele a abandonara e depois que havia morrido?

– Mas o que ele fez pra senhora ficar com tanta raiva assim, a ponto de afastá-lo de mim? A senhora me privou de ter um pai, sabia? Você não tinha esse direito.

– Eu te privei da vergonha de ter o pai que você tinha, isso sim. E você deveria me agradecer por isso.

– Agradecer pelo que, se eu nem mesmo sei do que se trata? Me responde!

– Não seja por isso, você vai saber… Em cima da escrivaninha no seu quarto tem um envelope com dinheiro que eu deixei lá pra você. Deve ter o suficiente pra você ficar pelo menos uma semana com o seu pai.

– Como assim? Você está me dando dinheiro pra eu ir ver o meu pai, e passar uma semana com ele? Eu nem o conheço, lembra? Porque isso agora? O que a senhora não esta me contando? Cruzou os braços, esperando resposta.

– Ai garota chata! Para de fazer pergunta difícil. (Gritou por fim).

– Então me responde! Você lança essas bombas sobre mim, e espera que eu faça o que você quer e sem me dar nenhuma explicação?

– Ta bom, tudo bem. Eu não tenho mais ninguém na vida… Nem pai, nem mãe, nem irmãos a quem recorrer, e eu estou doente. Por isso, você vai ter que passar uns tempos com o seu pai, por isso eu não tive opção a não ser revelar toda verdade agora, entendeu? – Diz série e dura tentando conter as lágrimas.

Bianca parecia cada vez mais confusa e sem saber o que dizer ou pensar, e agora isso, sua mãe estava doente… Será que era mesmo verdade, ou seria outra mentira dela. – Pensou, confusa.

– Doente? Como? O que você tem, será que eu posso acreditar na senhora dessa vez?

– Você acha que eu estaria falando do seu pai agora, e mandando você passar um tempo com ele, se não fosse verdade? Se eu não estivesse realmente doente e sem tempo? Eu estou morrendo Bianca… Eu tenho câncer! – Gritou desesperada.

Nesse momento, o chão onde Bibi pisava parece que se abriu diante dela. Sua cabeça girava e as pernas estavam bambas, sem firmeza, e ela não teve opção, a não ser se sentar de novo…

– É grave? Desde quando você descobriu? Hoje em dia tem tratamentos, a medicina esta avançada, você não vai morrer. – Falou atônita.

– É câncer filha, é claro que é grave. Eu descobri há duas semanas… Enfim, ele está no ovário, foi descoberto tarde demais, está caminhando para estágio quatro, que é o último, e é inoperável… Os médicos nada podem fazer, eu tenho no máximo três meses de vida.

Bianca desesperada correu pra mãe e a abraçou. Elas choraram juntas por pouco tempo, pois logo Antônia afastou a filha de si…

– Bom é isso. Agora faça por favor o que eu te mandei, e vá encontrar o seu pai. Ele está te esperando. Junto com o envelope, tem também o endereço dele, é perto daqui, fica a uns quarenta quilômetros.

– Mãe e a senhora…

– Não fala nada, apenas vá. – Disse firme.

Bianca foi para o seu quarto, pegou a mala e o envelope e quando voltou, já não viu mais a mãe na sala, na certa ela não queria se despedir… Já no ônibus, ela só pensava que a viagem mesmo curta, parecia não ter fim, e ela só desejava descansar um pouco. Agora de mala na mão, mesmo sem coragem, afinal sua vida tinha virado de ponta cabeça e ela não tivera tempo de pensar direito em nada, ela tocava a campainha da casa do pai… Quando a porta finalmente se abriu, ela revelou um homem de meia idade, bonito, cabelos levemente grisalhos, aparentando ter uns quarenta e oito anos. Ele estava sem jeito. Depois a encarou um pouco, certamente já sabia quem ela era…

– Oi. – Foi Bianca quem quebrou o silêncio, sem saber o que falar.

– Oi. Você deve ser a Bianca? – Pensou um pouco, depois consertou. – Bibi na verdade, que é como você gosta de ser chamada, sua mãe me falou.

– Sim. – Os dois emudeceram como se esperassem o outro continuar a conversa que estava no mínimo embaraçosa.

– Bom, entra. Me deixa levar sua mala. – Disse pegando a mala da mão dela e colocando sobre o sofá. Ela foi entrando e olhando tudo a sua volta… A casa era média, nem grande, nem pequena, e era muito bem decorada e arrumada.

– Você está com fome? Eu posso preparar um sanduíche pra você, o jantar sai às oito. – Perguntou Raul encarando-a.

– Não. Obrigada. Eu gostaria mesmo é de descansar um pouco.

– Entendo. O dia hoje foi bem duro pra você, né? Sua mãe me contou tudo. A gente vem conversando faz três dias, desde que ela me mandou um e-mail explicando tudo, enfim… Bom, vem comigo. – Ele pegou a mala e foi indo na frente, seguido por ela que reparava em tudo. – Eu arrumei o quarto de hóspedes pra você, já deixei toalha limpa em cima da cama, tem escova de dente nova no armário do banheiro, shampoo, condicionador, sabonete, tudo que você precisar está aqui. Qualquer outra coisa que precise, é só chamar. Fique a vontade para tomar um banho e descansar. – Os dois se entreolharam por um instante, e logo depois ele saiu do quarto e fechou a porta, tentando deixá-la à vontade. Bia se levantou e olhou tudo, foi até o banheiro e olhou-se no espelho, seu rosto estava péssimo. Ela estava cansada e abatida, pensou em tomar um banho, mas o cansaço físico e mental eram mais fortes. Ela tirou o tênis e a blusa, depois jogou-se na cama. Sua cabeça rodava com tanta informação, por fim, ela respirou fundo, fechou os olhos e tentou descansar um pouco.

Bianca demorou, mas depois apagou completamente e só acordou no outro dia pela manhã. O pai fora chamá-la para o jantar, mas ela dormia profundamente e ele achou melhor deixar. Naquela noite ele dormira no sofá, caso ela se levantasse e quisesse comer alguma coisa. Depois de ter tomado banho e estar trocada, ela sentia-se um pouco melhor e resolveu sair do quarto e tomar café, já que seu estômago agora começara a reclamar de fome. Ela encontrou o pai na cozinha, já terminando de por a mesa…

– Bom dia. – Disse com um meio sorriso.

– Bom dia, filha. – Só depois ele se tocou do que havia dito. Bibi ficou surpresa, porém feliz. De alguma forma ela esperava por aquilo a sua vida toda e agora tinha o pai que tanto sonhara, só não conseguia ainda chamá-lo de tal forma.

– Vem cá filha, senta aqui um pouco. Você deve estar faminta… Você dormia tão profundamente ontem, que eu nem tive coragem de acordá-la.

– Obrigada. – Disse Bibi sentando-se perto do pai a mesa. – Eu estava precisando mesmo descansar.

– Olha fica a vontade, eu preparei tudo do jeito que sua mãe me falou que você gosta.

– Ela ligou? Como ela ta? – Indagou preocupada.

– Sim, pra ver se você tinha chegado bem. Ela está melhor na medida do possível. Agora tome seu café, pra gente poder conversar depois.

Bianca já começara ficar apreensiva, afinal sobre o que ele queria tanto lhe falar? Na certa queria explicar tudo e se desculpar por ter estado tantos anos ausente de sua vida. Por fim, ela acabou de tomar o café reforçado e foi direto para sala falar com o pai, que já a esperava. Sentados de frente um para o outro, enfim, Raul começou a falar…

– Bibi, eu queria que você soubesse que nunca foi minha intenção te abandonar. Eu amei você desde o dia em que nasceu filha. Mas a minha vida estava complicada na época, sua mãe e eu já não nos entendíamos mais, brigávamos muito, até o dia que ela me viu com outra pessoa e me colocou pra fora de casa… Eu me lembro desse dia até hoje, você tinha apenas três anos de idade, me doeu muito ter que te deixar, não ver você crescer… – Disse já começando chorar.

– Então você traiu a mamãe… Ela te flagrou com outra mulher? Por isso ela te colocou pra fora de casa? Ela nunca me falou nada. Mas isso não era motivo pra você se afastar, mesmo que ela não quisesse deixar você me ver e conviver comigo, você era pai, tinha seus direitos. Porque não os procurou? A não ser que você não me quisesse…

– Nem por um momento diz uma coisa dessas filha. – Disse ele enxugando as lágrimas, e depois foi pra perto dela e a abraçando. – Eu te amo Bianca, você não sabe o quanto doeu em mim, viver sem a minha pequena todos esses anos.

– Mas o que eu não entendo, é o porquê de você nunca ter me procurado?

– Porque sua mãe nunca deixou, e também porque eu fui fraco, tive vergonha de ser quem eu era, de me assumir pra você…

– Bobagem, no começo seria ruim, mas depois eu aceitaria de boa ter pais separados, tantas crianças tem e passam os fins de semana junto com o pai. Minha vida poderia ter sido assim também, teria sido melhor do que achar que meu pai não me queria, que ele estava morto, porque até isso depois de um tempo minha mãe falou… Que você tinha morrido.

– Eu sei. Ela me mandava e-mail informando tudo. Eu fiquei horrorizado com toda história, mas depois achei que seria melhor assim, você poderia ter vergonha de mim, sei lá, até eu mesmo tinha vergonha de mim e não me aceitava…

– Tudo que eu sempre mais quis na minha vida, foi ter um pai… Porque eu teria vergonha de você? Você me parece ser muito bom, carinhoso e atencioso, um homem digno e honesto, pelo menos foi isso que você deixou transparecer até agora, você teria sido um ótimo pai pra mim.

– E você teria me amado e me aceitado do mesmo jeito se soubesse que eu sou gay?

Nesse momento Bianca ficou muda e surpresa, de repente agora tudo fazia sentido, a mãe religiosa e rígida, não aceitava certas coisas, não perdoara o marido por ter lhe traído com outro homem, e o tocou pra fora de casa. Por isso desde pequena a mãe lhe dizia que os gays não iriam para o céu, que eram uns doentes, sem vergonha, que Deus não tinha criado o homem pra viver com outro, e sim com uma mulher, que gays e lésbicas eram uma aberração… Ela crescera ouvindo tudo isso e odiando os homossexuais também. E agora ela amava aquele pai que deveria ter sofrido e muito longe dela, assim como ela sofrera longe dele. E quanto de preconceito ele já teria enfrentado na vida por isso, por ser como era? E o quanto ela mesma julgara as pessoas no seu colégio e nas ruas por terem uma opção sexual diferente? Eles eram normais, sim! Pessoas como outra qualquer e que mereciam respeito e serem felizes… Como a mãe fora capaz de lhe passar tanto ódio por homens e mulheres que só tinham amor pra oferecer? Isso não podia continuar assim, ela tinha que mudar e começaria a partir de agora…

– Eu te amo pai! – Disse chorando e o abraçando forte. Depois de um tempo, ela o olhou nos olhos e disse: – Eu tenho orgulho de ser sua filha e te aceito como o senhor é… Só não me deixe, não me abandone nunca mais… Por favor! – Implorou com lágrimas nos olhos.

Pai e filha se abraçaram forte e choraram juntos… Nascia ali uma amizade para vida toda, e todas as barreiras, inclusive a do preconceito cultivado durante anos, finalmente haviam sido quebradas…

Bianca passou o resto da semana com o pai, o conhecendo melhor. Depois voltou para sua cidade e ficou os últimos dois meses ao lado da mãe, que com a doença também se redimiu pedindo perdão à filha e ao ex-marido. As duas últimas semanas, eles passaram juntos como uma verdadeira família, até que numa triste manhã nublada e fria, sua mãe veio a falecer… Bibi chorou muito e Guto que agora era seu amigo, a consolou, não saindo do seu lado nem por um minuto. Ela decidiu não mais voltar a estudar naquele colégio, tudo agora mudara e ela também. Mesmo sendo outra pessoa no convívio com os amigos e demais alunos, eles nunca mais a olharam de outro jeito, pareciam não acreditar em sua mudança. Por isso, ela decidiu ir embora e morar com o pai em outra cidade, respirar outros ares e poder ser a nova Bianca, que ela era agora… Afinal depois de tudo que passara, outra vida lhe faria muito bem.

Raul depois de um tempo, encontrou um companheiro e Bibi aceitou tudo numa boa, os três passaram a morar juntos e a se darem muito bem, e ela não aceitava que ninguém falasse mal de seus pais… Eles viajavam juntos, passeavam, viam filmes, era tudo perfeito como uma família de verdade, a que ela nunca tivera e sempre sonhara em ter.

Em seu quarto, terminando de ler um livro, ela o colocou sobre o criado-mudo ao lado de um porta retrato com a foto dos três juntos, e um outro com a foto da mãe, sorriu satisfeita e pensou: – Que nunca fora tão feliz como agora, e que apesar dos revezes da vida e de tantos sofrimentos, ela amadurecera e que Guto estava certo, o amor não precisava mesmo de perguntas, ele simplesmente era a resposta de tudo. E ela finalmente aprendera uma grande lição com tudo isso, a de que A Vida Ensina… – Bianca então, apagou a luz do abajur, deitou-se na cama e dormiu em paz.

 

“Todos nós somos iguais, e nunca devemos permitir que o preconceito ou julgamentos falem mais alto. Dar ouvidos a esse tipo de pessoas é estar renunciando a nossa própria liberdade. Respeito é bom, todo mundo gosta e a sociedade exige… Faça valer o seu.”

(O Autor)

   

(Tema do Conto: A Vida Ensina) - Life Is Beautiful - Vega 4

Eduardo Moretti
Um cara do bem, romântico, sonhador, apaixonado pela vida e que ama o que faz... "Escrever para mim, é deixar de ser criatura para ser criador."
  • Isa Miranda

    Grande verdade… Não devemos julgar ninguém, nunca sabemos quando a vida vai nos mostrar que podemos passar pelo que o outro passa. Sejamos mais humanos e menos “rotulistas”

    Muito bom amigo ótimo conto com lição para vida <3

    • Eduardo Moretti

      Obrigado Isa, minha querida. s2