Conto – A Noiva Fantasma

Conto – A Noiva Fantasma

 

 

Autor: Cleber Medeiros

   Estamos no ano de 1912, as primeiras aves da manhã cantam nas árvores de meu jardim, formando, com as rosas, crisântemos e lírios, um clima romântico e quase perfeito. Então eu, Aurora Dias, de apenas 17 anos, desperto de meu sono e abro a janela de meu pequeno quarto, para contemplar o novo dia que surge. Em minha mente, a lembrança de meu grande amor: Felipe, seu lindo sorriso sempre aberto e sincero, seus lindos olhos castanhos que me hipnotizaram desde o primeiro dia em que o vi, lembro- me então que hoje é o dia tão esperado por nós dois, o dia de nosso casamento.

Havia sido muito difícil para nós chegarmos á esse momento, meu pai José Dias não o via com bons olhos e desejava que eu me casasse com alguém que lhe transmitisse mais segurança e confiança, no entanto, quando nos apaixonamos, o amor fala mais alto, e eu lutei, lutei muito, todos os dias para convencer meu pai de aceitar Felipe como meu namorado.

Em minha mente vem a lembrança do dia em que Felipe veio até nossa casa, pedir a permissão para o meu pai, para namorarmos e ele, mesmo cheio de receios e duvidas, acabou cedendo e concordando, decisão a qual acabou se arrependendo depois, quando descobriu que eu estava grávida de 2 meses.
Foi um momento muito intenso, muito difícil para todos nós, meu pai até cogitou a ideia de matar Felipe, mas graças a Deus, eu e minha mãe conseguimos tirar essa ideia de sua cabeça e convencê-lo a aceitar meu casamento com o meu grande amor e, agora, pai do filho que eu já carregava em meu ventre e amava acima de tudo.

Olho para o relógio de meu quarto e me dou conta de que já passam das 7 da manhã, havia perdido muito tempo em meio ás minhas lembranças e percebo que precisava me apressar para o casamento que aconteceria em poucas horas.

Então tomo um demorado banho, para refazer minhas forças, me preparar para o grande dia e ficar linda para o meu amor. Desço as escadarias que me levaram até um humilde sala, onde meu pai e minha mãe já me esperavam. tomo rapidamente meu café e, com a ajuda de minha mãe, voltou ao meu quarto para colocar o meu vestido nupcial. Percebo então que meu pai está calado, frio, indiferente, e eu sei que, por trás daquela imagem, está um coração de pai desgostoso com os rumos que a vida de sua filha tomara, mesmo me compadecendo de meu pobre pai e, por um momento, me arrependendo de fazê-lo passar por aquilo, eu não podia perder tempo, e muito menos havia tempo ou condições para mudar a minha vida.

Subo, então, ao meu quarto com minha mãe e colocou meu vestido de noiva, um vestido simples, demonstrando ser de uma jovem que não teve dinheiro para gastar com luxos e nem tempo para pensar nisso. Visto meu vestido e percebo que minha mãe também está calada, com certeza ela também não concordara com minhas decisões, dou-lhe então um forte abraço e descemos para irmos, juntamente com meu pai, para a Igrejinha de São Sebastião, onde ocorreria meu matrimônio.

Ao longo do trajeto, que percorremos em uma humilde carroça, meus pais permaneciam em silêncio, na verdade, parecia muito mais que estavam me levando á um enterro do que ao meu casamento, no entanto, tentando entender o que se passava naqueles corações, já tão machucados pela vida, preferi me manter em silêncio, e assim chegamos na Igreja que estava, ao mesmo tempo, humilde e lindamente, ornada para meu grande momento.

Ainda na carroça, percebo que todos os convidados estavam ali, nos esperando dentro da igreja. Meu pai desce para certificar-se de que Felipe também havia chegado, no entanto, minutos depois, ele volta com a noticia que iria mudar definitivamente a minha vida.

Meu noivo, o homem a quem havia entregado o meu coração, meu corpo e minha vida ainda não estava lá, ainda não havia chegado no lugar no qual, perante Deus, nos transformaríamos em um só corpo e uma só alma. Decidimos então que eu esperaria por ele fora da igreja, dentro da carroça, e ali eu fico, por mais de duas horas, na mais longa e dolorosa expectativa de minha vida.

Eu sabia muito bem que, caso não acontecesse esse casamento, além de perder o homem que tanto amara e ficar falada por todo o pessoal do arraial, ainda teria que criar meu filho sozinha, pois meus pais, com certeza, não permitiram que eu continuasse morando com eles, sendo uma mãe solteira, o que para época era um grande escândalo e vergonha.

Passadas essas duas horas, meu pai vem ao meu encontro. O resto de brilho que havia em seus olhos havia desaparecido completamente, sua cara fechada denunciava que, realmente, alguma coisa muito seria estava por acontecer, seus passos lentos pareciam querer adiar o momento em que ele deveria me encarar e me dar a fatídica noticia. Ele então, se aproxima de mim e desabafa que aquele homem á quem tanto eu amava, havia desistido de se casar comigo, de me assumir e assumir o filho dele, que estava crescendo em meu ventre.
Nesse instante, uma onda de desespero, tristeza, medo e dor me invade, grita dentro de mim me deixa ensurdecida aos apelos de minha mãe e meu pai que, me viram descer da carroça e sair correndo, rápida com uma flecha envenenada desejando encontrar o seu alvo.

Para escapar de toda aquela dor e para tentar, quem sabe, despertar daquele pesadelo eu corri, corri por toda a cidade, até que meu corpo não mais aguentou e acabei caindo aos pês de uma frondoso flamboaiã, que perfumava e enfeitava a praça daquele pequeno e humilde arraial.

Olhando para cima, percebo que existe uma grande corda ali amarrada, á qual as crianças, de forma improvisada, utilizavam em suas brincadeiras. Sem ter mais para onde ir, sem ter como cuidar e sustentar meu filho sozinha, tendo sido abandonado pelo grande amor de minha vida, eu me deixei levar pela dor e pela loucura. Subi no flamboaiã, amarei uma das pontas da corda em meu pescoço e me joguei de lá de cima, no desejo insano de acabar com minha vida e todo aquele pesadelo na qual ela havia se tornado.

Na descida percebi que, aos poucos, ia me faltando o ar, meus sentidos mais básicos foram se desconectando, senti o frio da morte percorrer todo o meu corpo e então fechei meus olhos para essa vida. Muito tempo passou até que alguém me encontrasse ali, um grupo de senhoras, vindo de um terço, viram meu corpo, já sem vida, balançando naquela corda. Me levaram para minha casa, onde meu pai e minha mãe choraram amarga e descontroladamente a minha morte, depois providenciaram tudo para o velório e em seguida o enterro.

Foi nesse momento que percebi uma luz branca, muito forte, vindo ao meu encontro e senti-me leve, finalmente me senti bem e percebi que estava já fora de meu corpo. Contudo, aquela luz foi se apagando e eu fiquei envolta as trevas. Sim, eu não poderia descansar em paz por que minha alma não estava em paz, não podia seguir a luz porque meu eu era pura treva, então decidi que passaria toda a minha eternidade vagando por aquele arraial, principalmente em noites de lua cheia, para tentar encontrar Felipe, entender o que o fez desistir de nós, para só então poder repousar tranquila na eternidade.

Por isso, muito cuidado nas noites de lua cheia, principalmente se fores homem, quando você menos esperar, eu posso estar atrás de você, tentar te agarrar na louca e eterna tentativa de encontrar em meio á todos esses homens que, ao longo do seculo eu ataquei, o meu grande, único e verdadeiro amor.

  • Andrea Bertoldo

    Nossa!!! Fantástico!!

  • Isa Miranda

    Show… Conto maravilhoso e bem escrito, adorei!

    • Cleber Medeiros

      obrigado Isa, sendo o meu primeiro conto, acho que deu pro gasto

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