Cine extream: Mundo em coma

Cine extream: Mundo em coma

 

25 de junho – 9:10 h

-Pois é, menina. Não é que ela finalmente acordou! Todo mundo ficou parado.
-E o que você vai fazer? Já que é a única pessoa mais próxima dela, vai ter que arranjar uma auxiliar, sei lá, uma enfermeira. Sabe como são essas coisas, ela vai dar um trabalhão quando sair do hospital.
-Eu sei; falando nisso, tenho que ir pra lá agora! Ela vai receber alta. Depois te ligo.
-Está bem. Se precisar de alguma coisa me ligue. Um beijo.

10:32 h – Recepção do hospital

-Senhorita Carla?
-Dona Rosinha acabou de receber alta. Caso queira ajudá-la a se arrumar, aqui está a autorização de entrada.
-Ah, tudo bem, e como ela está?
-Melhor do que quando entrou aqui. Doutor Roberto conversará com você daqui a pouco. Por favor, pegue aquele elevador, segundo andar, apartamento duzentos e quatro.

“Estou ansiosa. Minha vó significa muito pra mim. Lembro como se fosse ontem quando recebi a notícia da morte dos meus pais. Quatorze anos atrás. O mundo parecia ter desmoronado. Vovó Rosinha, reumática, cheia de dores, com dificuldade até para andar, chegou perto de mim, toda esquisitinha, segurou meu rosto e aninhou-me carinhosamente no seu colo e disse: – Filha, não se preocupe. Você nunca ficará sozinha enquanto eu viver. A vida é assim. Às vezes achamos que não é justa. Se pudéssemos fazer nossa escolha… Mas isso não é possível. – Aquelas palavras me acalmaram.

 “O quarto é aqui. Estranho! Que som é esse? Gargalhadas? Esses… Enfermeiros filhos da p… Como podem zonear no quarto de uma velha que acabou de sair do coma! Vou por um fim nisso já.”

-Carlinha, minha filha, que bom que você chegou! Estava aqui me divertindo um pouco com o doutor e seu assistente. Eles são uns amores.
-A senhora está bem?
-Bem melhor, não é mesmo, doutor?
-Sua vó está muito bem-disposta. Intriga ver seu corpo regenerar a cada minuto. Sugiro, dona Rosinha, que venha nos ver periodicamente para avaliarmos o seu estado geral.
-Sim, doutor, venho sim. Trarei um pedaço daquele bolo de que falei. Uma delícia! Aprendi a fazer mamãe. A propósito, esta é a minha neta Carlinha. Não é linda?
-Prazer em conhecê-la. Eu sou Dr. Roberto de Castro.

-.. Minha vó. Ela está diferente.
-Como disse, também estamos surpresos. Os exames indicam total normalização da taxa glicêmica, colesterol e hormônios. Estão melhores do que os de uma pessoa de quarenta anos.
-Por quê? É algum medicamento?
-Asseguro-lhe que não. Um mistério da natureza.
-Está bem…
-Bem, filha, vamos. Estou com a barriga doendo de tanto rir. Agora vamos a um bom restaurante.
-Dona Rosinha, não abuse, hein!
-Ora, doutor, passei mais de seis meses deitada. Quero viver.
-Moderação. Senhorita Carla, aqui está meu número do celular.
-Obrigada, doutor. Vamos, vó. Deixe-me segurar sua mala…
-Não, não. Eu carrego.
-Mas, vó, é pesada!
-Vamos, vá na frente e chame o elevador.

“Não acredito! Ela não arrasta mais os pés. E segura a mala sozinha!”

-Adeus, queridas enfermeiras. Adorei vocês. Cuidem-se.
-Cuide-se bem, dona Rosinha. Mande notícias.
-Vó, vamos pegar um táxi. Precisa ir pra casa rapidinho.
-Casa que nada. Cantina italiana. Estou com fome.
-Mas, vó…
-Vamos e não discuta comigo. Olha lá o táxi.

“Ah, meu Deus, já sei! Acho que é aquele negócio que acontece quando a pessoa melhora pra morrer depois. É isso! Ela vai morrer.”

-Vamos, vamos logo motorista. Meu estômago não aguenta mais esperar.

“É melhor irmos mesmo. Será a sua última refeição.”

-Motorista, dá pra colocar uma música mais alegrinha?
-Mais, vó?
-Menina chata! Que cara é essa? Viu algum fantasma?
-É que nunca a vi assim!
-Senhora, chegamos. Um segundo que já abro a porta.
-Não precisa. Consigo muito bem me virar sozinha. Venha, filha.

“Eu é que vou precisar de internação.”

11:45 h – Cantina da Mama

“Olha só isso! Segura o cardápio sem tremer. Tá lendo sem os óculos!
-Já escolheu, senhora?
-Sim, quero um talharim especial à moda do mediterrâneo. Prefiro a lagosta cortada de comprido. Ah!, sim, molho picante… Nossa que fome!
-Vó, não acha que deveria ir mais devagar? Pimenta não é…
-Por favor, garçom, é isso mesmo que eu quero.
-Sim, senhora. E a senhorita?
-Nada por enquanto.

13:45 h
_Vó, por favor, desça da cadeira.

-Carlinha, querida, esta é uma tarantela daquelas. Não ouvia uma tão bem tocada assim há muito tempo. Música me faz feliz.
-Vó, estão todos se aproximando da nossa mesa. Ai, caramba, que vergonha. Desça já daí!

26 de junho – 14:20 h – Sexta-feira: ao telefone do trabalho
-… Isso mesmo Raquel. É o que você ouviu, de pé na cadeira, dançando. Depois desse showzinho, você acredita que assim que chegamos a casa, ela desfez a mala e ficou cantarolando enquanto lavava a louça?
-Não acredito! E como ela está hoje?
-Uma menina. Aliás, não para de falar.
-Quantos anos ela tem?
-Oitenta, minha filha! O que será que deram pra ela? Deve ter cheirado. Só pode.
-Será que aplicaram algum tipo de droga experimental sem que ninguém soubesse?
-Também pensei nisso. Bom, não sei; seja lá o que for, trouxe minha vovozinha melhor do que nunca.
-Ai, que lindinha! Darei um pulinho aí pra ver vocês duas, tá?
-Seria ótimo. Tenho que ir agora. Depois nos falamos.

17:30 h – A caminho de casa

“Não deixei de pensar na vó Rosinha. Mesmo ao telefone, tive a impressão de falar com outra pessoa. Voz firme, segura… estranho mesmo. Vou aproveitar pra comprar alguma para o jantar. Quem sabe faça uma canja. Vai cair bem.”

18:40 h – Em casa

“Cheguei. Onde estão as chaves? Acho que ela vai gostar de tomar uma canjinha enquanto assiste à novela… Ma-mas que som alto é este? Não, não pode ser. Vem de casa. Rita Lee?

-Oi, vó!
-Oi, querida. Como foi seu dia?
-Dá pra abaixar o som só um pouquinho? Mal te escuto.
-Ah, sim; é que eu estava me exercitando… Só um segundo. Melhor assim?
-Ufa! Podemos conversar agora.
-Deixe-me sentar. É a primeira vez hoje que encosto meu esqueleto pra descansar. Não parei um segundo.
-Vó eu… sabe, não sei se quer falar sobre isso, mas tenho curiosidade de saber como foi ficar em coma por tanto tempo?
-Sabe, Carlinha, é como se eu estivesse no limbo. Acho que a gente entra em coma quando não aguentamos mais os excessos.
-Mas seu excesso de vitalidade me assusta. Tudo isso é muito estranho.
-Quero viver. Sentir prazer. Você não faz ideia do que é ficar entre a vida e a morte todo esse tempo.
-Todo mundo quer viver plenamente, mas acho que existem atividades específicas para a sua idade.
-Existe alguma proibição em ouvir música, por acaso? Dançar?
-Se parar nisso… espero que não queira sacudir o sutiã em alguma balada por aí.
-Balada? O que é isso?
-É um lugar onde, jovens como eu, se encontram para dançar e curtir a noite.
-Você me leva a uma balada?
-Tá louca? E essa agora?
-E qual o problema, Carlinha? Só pra conhecer. Que mal há nisso?
-O que vão dizer de mim se nos virem juntas?
-Tão nova e já é assim tão radical.
-Radical, eu? Tudo bem, eu a levo. Mas aviso que não vai gostar. Muito agitado.
-Ah; isso me faz lembrar a época do baile da saudade. Eu era apaixonada por aquele cantor, como era mesmo o nome dele? Ah; Francisco Petrônio. Era tudo tão lindo!
-O mundo evoluiu. No lugar de cantor existe um DJ que mixa as músicas.
-Mi-mics… Tudo bem; quando vamos? Gostei da ideia.
-Se der, este final de semana.
-Ótimo! Bem, preciso sair agora.
-Que hora, hein? E a canja que eu ia preparar? Posso saber onde vai?
-Canja é coisa de velho. Vou às compras. Preciso me produzir um pouco.
-Eu não a reconheço mais. O que fizeram com a minha vovozinha?
-O lobo comeu, minha querida. Aliás, estou à procura de um.
-Estranho ver aquela senhorinha recatada agora tão descolada. O que aconteceu?
-Não sei. Sei, sim, mas não lhe direi até o momento certo. Tchau.

19:30 h – Durante as compras

“Tudo parece tão agitado. Acho que vou entrar naquela loja.”
-Pois não, senhora. Posso ajudá-la?
-Sim, queria uma calça jeans e uma camisetinha branca que combinasse. Vou usar com tênis.
-Claro, temos esta calça aqui, muito bonita e esta camiseta… Não tenho branca, só roxa. É pra sua neta?
-Não. É pra mim.
-.. Pra senhora? Olha, eu… Hei, Claudinira! Você pode atender esta senhora aqui?
-Quem? Ah, tudo bem, a senhora. O que achou desta calça?
-Achei bonitinha. Vou levá-la.
-É pra presente?
-Não. Mas posso experimentar antes? Preciso ver se cai bem.
-Cla-claro. O provador é logo ali. É só me chamar. Meu nome é Claudinira.
-Obrigada, filha.
-Oh, Cinira. Viu aquilo? Que negócio é esse?
-Fala baixo. Velha louca. Imagina usar uma calça de cintura baixa nessa idade.
-Sem noção.
-Quer causar.
-Abriu o provador. É ela. Vai, vai lá, Claudinira.
-Gostou dona…
-Isso, a senhora gostou, dona Rosa?
-Serviu direitinho. Levarei duas calças e cinco camisetinhas.

20:35 h – No shopping

“Quanta coisa bonita. Uma loja de artigos esportivos. Preciso de roupas mais apropriadas para os meus exercícios e caminhadas. Que fome! Queria comer alguma coisa gostosa. Já sei: banana-split bem grande. É isso.” – Rapaz, é você mesmo, gostaria de uma banana-split.
-Quais os sabores dos sorvetes?
-Morango, flocos e baunilha.
-Algum tipo de cobertura especial?
-Jujubas? A senhora quer embalada numa caixinha térmica pra viagem?
-Não, vou comer agora.
-Ah, sim, pois não. Água mineral acompanha?
-Uma soda.
-Diet?
-Por que haveria de ser diet?
-Geralmente pessoas que querem controlar a taxa glicêmica, ou se sentem gordas…
-Não sou diabética, nem gorda.

21:15 h

“Essa delícia me fez lembrar dos meus tempos de mocinha. Agora preciso ir. Não posso deixar de comprar um agasalho para as caminhadas.”

“Nem tenho vontade de voltar pra casa. No meu tempo de mocinha, quando queria ir ao baile, o meu pai não deixava. Tinha um fogo pra sair. Então, fugia de casa. Oba! Achei o agasalho que eu quero.”

Enquanto isso, a neta ao telefone

-Resolvi te ligar só pra falar dela. Acho que a velha ficou piradinha.
-Pirada? Como assim?
-Ela tem feito cada coisa! Você acredita que ela saiu e não voltou até agora?
-Você a deixou sair sozinha? Não é perigoso?
-Ela decidiu sair e nem me chamou pra ir junto.
-Carla, não acho que isso seja piração. Ela foi passear, arejar a cabeça. Ficar em coma por seis meses… tipo… sei lá, deve estar conversando com as amigas do tempo dela.
-A esta hora da noite, Raquel! As velhinhas que eu conheço já devem ter tirado a dentadura pra dormir. E você não sabe da maior: Ela quer ir pra balada .
-Não acredito! Jura? E aí? Você concordou?
-Não teve jeito. Agora vou ter que pagar esse mico. E se esse for seu último desejo?
-Chegar lá com a vó a tiracolo? No mínimo bizarro.
-Putz, maior bafo! Vou na fé. E quando você vem aqui?
-Quem sabe na semana que vem. Estou super enrolada, mas quero ver dona Rosinha.

23:10 h – De volta a casa

-Carlinha, cheguei!

-Oh, vó, onde a senhora esteve? Seu… Rosto! Está mais jovem ou é impressão minha?
-Não parei um minuto.
-Deixa pra lá. Nossa, dona Rosinha, quantos pacotes, hein! Torrou toda grana.
-Olha o que comprei: um agasalho para as minhas caminhadas, duas calças jeans, um par de tênis e cinco camisetinhas. E isso!
-Não a-cre-di-to, lingerie! Isso é pra mim?
-De jeito nenhum. Pra mim.
-Essa eu quero ver. Vamos lá, experimente tudo. “Duvido que entre.”
-É pra já. Vou tirar essa roupa de velha… feche os olhos.

“A mulher pirou de vez. Vou me controlar pra não rachar o bico.”

-Primeiro a calça. Pronto. Agora você pode olhar.
_Uau, vó! A senhora ficou uma gata! Que corpinho, hein!
-Você não acha a cintura dessa calça baixa demais?
-Mas é assim que usa, quer dizer, gente mais jovem usa assim. Estou passada. Ficou perfeito! Parece uma mocinha. Precisamos agora arrumar seu cabelo. Vamos tirar uma selfie.

27 de junho – 7:00 h – sábado – No cabeleireiro

-Carlinha, amiga. Como vai? O que faz aqui tão cedo em pleno sábado?
-Oi, Pepeu. Dei uma passada aqui pra trazer minha vó.
-Quem? Esta mocinha é sua vó? Para com isso. Não pode ser. Gente!, vocês viram isso?
-É verdade. Sou vó dela.
-Mas o que posso fazer por você?
-Minha neta…
-Deixa que eu falo, vó. Pepeu, queria que você a transformasse. Tipo aqueles programas de TV, sabe?
-Já sei. Como devo chamá-la, meu bem?
-Todos me chamam assim.
-Depois que eu a transformar, seu nome será Rose, a poderosa. Senta aí.

11:00 h

-Clemilda, chame Carla. Diga que esta garota aqui está pronta pra arrasar.
-Já vou chamar, Pepeu. Nossa! Ficou linda!
-Vá logo, demônio. Quero ver Carlinha se morder. Dona Rosinha… Opa, desculpe, meu bem, Rose, agora pode olhar.
-Eu não me imaginava assim!
-Gostou? Você me inspirou. Está maravilhosa. Ah, Carlinha, aí está você.
-Vó! É você? Não pode ser. A senhora está linda!
-Que neta sem modos. Tire essa “senhora”. De agora em diante é “você”.
-As duas estão prontas para arrasar. Depois me contem os detalhes, tá?
-Pepeu, nem sei…
-Ora, deixe de bobagem, Carlinha. Depois conversamos. Nunca vi um negócio desses. Ela está mais jovem do que quando entrou há 4 horas.
-Eu sei. É perturbador.

22:15 – Momentos antes de saírem para a balada

-Devemos nos vestir.

-Não se preocupe com a hora. A gente costuma sair tarde mesmo. Vó, o que aconteceu enquanto estava em coma? Será que seu cérebro… sei lá, deu algum tipo de piripaque?
-Carla, acho que é hora de te contar. Algo muito estranho aconteceu.
_E o que foi?
-Lá no hospital, eu tinha breves momentos de consciência. E nesses momentos, eu parecia congelada no tempo, vazia. O quarto não passava de uma pintura. Não sei bem como explicar. As enfermeiras que entravam vez ou outra, pareciam mortalmente pálidas. Sentia-me mergulhada numa penumbra, sem vida. Era como estar num contínuo pesadelo, do qual se quer acordar e não consegue. Tentava me mexer e não conseguia.
-Mas, vó, como é possível uma pessoa em coma lembrar-se do que aconteceu?
-Não tenho a mínima ideia. Só sei que eu lembro. Uma enfermeira, muito moça, novinha mesmo…
-Como a senhora sabia que era mocinha? Estava de olhos fechados.
-Sei lá. Ela se aproximou da maca e me olhou fixamente. Então disse: “Puxa, se ficar velha significa chegar nisso, prefiro a morte.”
-Enfermeira cretina.
-Também achei, mas ela completou sua fala baixinho: – Como a morte pode ser mais forte do que a vida? Se pudéssemos enganar o destino… seria maravilhoso. Isso sim seria livre arbítrio. Eu iria aproveitar cada segundo. Aposto que essa senhora também.
-Ora, não dá pra mudar a natureza.
-É verdade. Naquele mesmo instante algo estranho aconteceu. Tudo ficou escuro. Aos poucos, bem devagar, a visão ficou clara. Até pensei estar voltando do coma. Quando me dei conta, estava na casa dos meus pais. Muito real pra ser um sonho. Vi meu reflexo no espelho. Meu corpo tinha mudado. Era eu, mais jovem, igual quando tinha uns quinze anos.
-Só pode ter sido o efeito de algum sedativo. Eles causam alucinação.
-Não, não. Eu podia sentir o cheiro do bolo que a mamãe, sua bisa, costumava fazer. Eu realmente estava lá. Foi quando senti uma energia muito forte, que me trouxe ânimo, força, uma alegria eufórica. A vida fluía novamente pelas minhas veias.
-Às vezes os sonhos parecem realidade.
-Era uma sensação inexplicável, como se eu tivesse voltado no tempo. O gosto da vitalidade é fantástico! Comecei a pular e chorar de alegria.
-E depois? O que aconteceu?
-Caminhei até a cozinha. Cheguei bem devagar. Não sabia como reagiria quando encontrasse minha mãe. Estranho, mas lá, minha cabeça era a de uma pessoa madura num corpo de garota.
-Você a viu? Viu a bisa?
-Daquele mesmo jeitinho, recostada junto à mesa fazendo coisas deliciosas pra comer. Chamei-a bem de mansinho: – Mamãe. – Ela me olhou e deu um sorriso lindo. E disse: – Menina, lave as mãos que o bolo já está pronto.
-É um sonho, sim.
-Puxei uma cadeira e sentei sem tirar os olhos dela. Enquanto pegava os pratos, mamãe mantinha aquele ar de serenidade, sempre segura. Depois de um tempo ela disse: “Menina, por que está assustada? Devia estar feliz em me ver.” – Então, respondi meio embaralhada de emoção: – Não queria que estivesse morta.”
-O que ela respondeu, vó? Conta logo.
-Ela disse: “Não estou morta.” – Aí perguntei: – Mas isso é um sonho, não é, mamãe? – Ela me olhou bem seriamente e respondeu: “Também não é um sonho. É o seu desejo.” – Fiquei olhando pra ela sem saber o que dizer.
-E depois?
-Depois ela disse uma coisa que não fez muito sentido. Tento entender até agora.
-O quê?
-Ela disse: “Rosinha, minha filha, seja eterna.
-Não entendi nada, vó. Essa coisa de sonho é assim mesmo. Não faz sentido algum.
-Depois disso, a visão desapareceu. Foi quando saí do coma.
-Uma coisa eu sei, vozinha, a cada minuto que passa a senhora fica mais jovem.
-Ótimo.
-Precisamos ir. Será legal. Está pronta?
-Se estou? Vamos agora.
-Antes de irmos, me diz uma coisa: você não acha que violou alguma lei da natureza?
-Não… Não acho que tenha violado nada. Talvez ela tenha me dado uma alternativa. Sabe de uma coisa, Carlinha: às vezes precisamos nos livrar do medo. Isso é uma doença.
-Uau, profundo. Prometo que uma hora penso nisso. Vamos curtir.
-Estou ansiosa pra conhecer esta tal de balada.
-Vó, você é demais. Que bom que você está aqui, assim tão cheia de vida.
-É assim mesmo que eu me sinto. Será que esse foi um presente da minha mãezinha?
-Ou uma maldição.
-Que besteira, menina. Bata na boca. Vamos embora.

28 de junho – 8:30 h – Domingo

-Oi, Raquel. Desculpe te ligar agora de manhã. É que eu tô preocupada.-
-Olha não fui aí te ver porque… O que houve?
-Não sei por onde começar.
-Conta logo.
-Está bem; você sabe que ontem eu e ela fomos àquela balada que te falei. Lembra?
-Claro que lembro. Que mico!
-Mico nada. Você não faz ideia do que aconteceu.
-Ela teve um ataque cardíaco?
-Eu é que quase tive um. Tá sentada?
-Fala.
-Saímos. Minha vó mais bem arrumada do que eu. Percebi que ela estava um pouco ansiosa.
-E aí?
-Quando chegamos lá, o lugar estava bombando. Cheio de gente bonita.
-Já sei: sua vó quis voltar.
-Voltar nada. A mulher pegou fogo. Começou a dançar e pular, parecia uma possuída.
-Jura? Que legal! E depois?
-Depois de uma hora, ela me pediu para achar um lugar pra sentar. Conseguimos encontrar duas cadeiras. Do nada, apareceu um cara e agachou do lado dela e começou mandar o maior xaveco.
-Tá brincando! Era tiozinho ou gato?
-Devia ter uns vinte e oito anos, por aí.
-Juuuraaaaa! Gatão!
-Pois é, menina. O problema é que a coisa não parou por aí. Ele a convidou pra dançar.
-Rolou beijinho?
-O maior amasso!
-Não creio!
-Isso mesmo, Raquel, o maior esfrega.
-Não pode ser.
-Quando vi aquilo fiquei passada.
-Mas não passou disso, né?
-Os dois sumiram. E é por isso que eu estou super preocupada. Tive que voltar pra casa sem ela.
-Espera um pouco. Você voltou pra casa sem a dona Rosinha?
-Dona Rosinha nada. Ela agora está muito diferente.
-Carla, escuta: E se ela foi…
-Nem me fale. Você acha que eu devo chamar a polícia?
-Já devia ter chamado. Tudo bem que sair com um cara que você acabou de conhecer na balada é comum, mas no caso dela… ela é ingênua, desprotegida. No tempo dela não tinha isso. Não sabe lidar com caras sacanas. E além do mais…
-Opa, Raquel, acabei de ouvir a porta abrir. Acho que é ela. Depois te ligo.
-Vai lá. Qualquer coisa, me chame. Tchau
-Vó, é você?

-Onde você esteve?
-Sai com Jean
-Jean? Quem é esse cara?
-Aquele que…
-Eu sei quem é. Como você sai com um sujeito que nem conhece?
-Que exagero, Carla! Sou experiente. Consigo distinguir um romântico de um safado.
-Não importa, desse meu mundo entendo eu. O ser humano é o mesmo em essência, não importa a época. E por que está com essa cara, dona Rosinha? Parece que bebeu.
-Estou feliz, plena.
-Ah, claro. Deve ter rolado muita coisa, né, vozinha.
-Incrível como os sentimentos florescem.
-Sentimentos? Que sentimentos?
-Ele foi carinhoso comigo; me fez reacender algo que há muito se apagou.
-Sacanagem a senhora quer dizer.
-Carlinha, por que está tão amarga? Nunca foi assim. Pensei que fôssemos amigas.-Não sou sua amiga. Sou sua neta
-E também amiga.
-Eu não tenho amigas que saem por aí dando pra qualquer um.
-Agora me ofendeu.
-Ué? Não foi isso mesmo que rolou?
-Não dessa forma que insinuou.
-Que outra forma, então? Só existe uma, e pelo visto a senhora soube fazer direitinho.
-Essa conversa está tomando um rumo que…
-Agora, a gostosona Rose…
-Fique quieta e escute bem vovozinha: Não sei em que tipo de aberração você se transformou. Fica cada vez mais jovem ao invés de envelhecer. Você me deixou super preocupada. Passei a noite em claro. Depois que saímos daquele hospital ficou impossível agir normalmente com… com… com você, com a senhora, sei lá. Fique sabendo que não farei papel de mãe.
-Estou apaixonada.
-O quê? Deu pro cara só uma vez e está apaixonada? Como é burra!
-Estou apaixonada pela vida. O rapaz foi apenas um instrumento que me liberou. A carne falou mais alto.
-Safadeza! Pecado.
-Pecado? É pecado poder sentir e ser fiel aos meus desejos?
-Viu? Você não tem um pingo de vergonha na cara, isso sim. Aliás, não devia ter mais nem um pingo de hormônio.
-Sabe, Carla, agora você conseguiu me irritar. Preste atenção: apesar de jovem, é você que parece estar em coma, suspensa, anestesiada. E sabe o que te deixou assim? O preconceito. Não dou a mínima se o mundo me acha uma aberração ou se estou experimentando coisas que muita gente gostaria. Só não quero morrer frustrada. O que importa é o que eu sinto. Que coisa! Vive mergulhada num radicalismo sem sentido…
-Nossa, que filosófico! Isso não justifica o seu ato irresponsável. Você correu e ainda corre um risco desnecessário. Quer saber? Gostaria que estivesse em coma mesmo. Daria menos trabalho. Seria até normal.
-Obrigado pela consideração. Carla, entenda uma coisa: esse mundo é cheio de falsos valores que afogam a força da vida. Venci a morte e agora quero sentir o que a natureza me deu.
-Não vê que isso não cabe aqui nesse mundo? Não é normal. Neste planeta não é assim que acontece. Você violou o ciclo natural da vida. Vó, tenho medo que algo a fira.
-Por favor, me deixe em paz. Do que adianta estar viva e não poder sentir?
-Mas assim não, vó. O mundo tem suas regras, a natureza tem suas leis.
-A natureza não impõe regras. Sou uma prova disso. As regras matam a vida. Limitam nossa expressão. Olha, paremos por aqui. Não me sinto bem. Preciso deitar um pouco.
-Virou uma adolescente revoltada. Prometa que vai voltar a ser minha vó.
-Com licença.

“Até que enfim estou sozinha no meu quarto. Não existe mudança sem crise. Essa é grande uma verdade. Mas não estou nem aí para o que os outros dizem. O que fazer agora? Pegar tudo isso que a vida me deu e transformar em mera lembrança? Não, de jeito nenhum. Eu quero mais. Que mal há nisso? Agora só quero dormir.”

Dia e horário indeterminados

“Minha nossa! Dormi demais. Que horas são? O relógio parou. Acho que já devia ter amanhecido. Que silêncio! Não ouço nenhum movimento na rua. Vou abrir a janela. Que diabos… O brilho das estrelas… Parece opaco, amortecido. As luzes dos postes também. Ninguém na rua. Que estranho! Tudo parece entorpecido, morto. Deve ser tarde. Não há som na rua. Sem uma viva alma. Que horas são?”

“O que aconteceu? Verei Carla. Quem sabe esteja acordada. A porta está tão pesada. Lá está ela.”

-Carla, o que faz sentada na poltrona? Não devia estar na cama?

“Por que seus olhos estão assim, parados? Ai, meu Deus, seu corpo está frio!” – Carla, por favor, fale comigo. Venha, levante. Não consigo erguê-la.

“Que horror! Estou quase sem voz. Vou chamar o vizinho.

Fora de casa

As luzes dos postes, algumas se apagaram. Sim, lá na frente, na esquina, parece um homem. Vou até lá para falar com ele.”

-Senhor, por favor, sabe…

“Ele está paralisado, como Carla. Está em pé, mas não me percebe. Preciso voltar. Esse sopro frio, a morte, um mundo morto-vivo. A vida congelou. Onde está minha casa? Ah, sim, lá está. Sinto um vazio tão grande que dói até para respirar. Minhas lembranças estão desbotando. Minha vida se esvai? Será esse o preço que devo pagar por ter violado a natureza? Pago pelo quê? Se pago pelo pecado de querer viver, o mundo também paga pela sua hipocrisia. É isso! Já sei. Só pode ser. Entendo agora o que aconteceu! O mundo entrou em coma.

Geraldo Medeiros

Recifense de pais paulistanos, 53 anos. O gênero de seus contos e livros, resultam de sérias investigações sobre a mente humana, a vida e seus mistérios.