Cine Extream: Grampeado

Cine Extream: Grampeado

 

Alberto Müller, trinta e oito anos, psicólogo. Um profissional imbuído de respeito e consideração por seus pacientes. Foi naquela manhã de verão que um pequenino detalhe, uma delicada mudança em sua rotina, deflagraria uma sequência de eventos inusitados. Pela primeira vez atrasou-se para sair de casa. Isso fez seu primeiro paciente do dia cancelar a consulta. Em seu lugar, a secretária encaixou outra pessoa, que há dias esperava para ser atendida: senhora Bergmann.

Nem bem chegara, Cíntia, a secretária, cochichou-lhe que uma senhora muito bem-apessoada o aguardava em sua sala. Dr. Müller, espichou o pescoço e a viu pela fresta da porta entreaberta. Estava sentada numa confortável poltrona de couro marrom, voltada para a janela. Seus cabelos negros e ondulados, rebatidos para cima e seguros por uma presilha de marfim, deixavam à mostra seu longo e delicado pescoço. Devia ter uns trinta e cinco anos, e a julgar pela postura, parecia ser bastante refinada, suspeita esta que se confirmou ao ouvir sua doce voz:

– Bom dia, doutor Müller, obrigada por me receber. – Tinha as mãos trêmulas, um comportamento tenso, olhar inquieto de gente ansiosa.

-Desculpe por invadir sua sala assim, mas quando se é vítima de um maníaco… – Disse a paciente a segurar tensamente a alça de sua pequena bolsa preta.

-Vítima de um maníaco? Um caso de polícia. No entanto, fez bem vir aqui. Permita-me tirar o paletó e colocar o jaleco, sim? – Disse o doutor ajeitando-se e recolhendo papéis espalhados sobre a mesa.

Após se sentar, abriu a gaveta e tirou de lá o gravador. Ela fixou os olhos no aparelho.

-Isso a assusta? Normalmente gravo as conversas com os meus pacientes.

-Preferiria que isso não fosse gravado.

-Está bem. Começaremos por onde a senhora achar mais importante.

Ao tomar nota dos pontos importantes da conversa, Müller notou a ausência da ficha da paciente com os dados pessoais. Então, ergueu a mão, pediu desculpas por interrompe-la, foi até a porta e disse para a secretária:

-Dona Cíntia, não encontro a ficha da senhora Bergmann.

-Doutor, ela se negou a preenchê-la.

Doutor Müller estranhou. Tornou ao seu lugar. Mesmo antes de pedir para que ela prosseguisse, a paciente antecipou:

-Desculpe, evito fornecer meus dados. – Disse com voz embargada ao tirar da bolsinha um lenço de papel.

-Muito bem, fale um pouco da sua vida.

Mostrando-se ansiosa, a senhora Bergmann decidiu se abrir. Primeiro acertou-se na poltrona, moveu os olhos para cima, como quem busca organizar as ideias, suspirou e deu início:

– Foi mais ou menos assim…

Tudo começou há dois anos, quando seu marido Iran, levou o novo sócio, um homem muito rico, chamado Santiago, para jantar em sua residência. Comemoravam a abertura da empresa, uma exportadora de carnes exóticas, um produto exclusivo. Pouquíssimas pessoas no mundo teriam condições de pagar por um prato tão delicioso e raro. Somente sete chefes estariam qualificados para tamanho requinte gastronômico. Antes do jantar, tomaram um drinque. Iran estava animado e pediu ao amigo que aguardasse um instante, pois, fazia questão de apresentar sua esposa. A senhora Bergmann finalmente desceu as escadas e se direcionou à sala de visitas. Ao vê-la, Iran sorriu e segurou-a gentilmente pela mão, conduzindo-a até Santiago, que tranquilamente apreciava o drinque:

-Querida, este é o meu novo sócio, Santiago.

Ela antipatizou-se logo de cara. Seu sorriso de boas-vindas simplesmente desmontou, dando lugar a uma feição séria e reservada. Sua intuição dizia que sua vida mudaria. Santiago ergueu-se do sofá, curvou a cabeça em cumprimento formal e, estendeu a mão. Hesitante, a senhora Bergmann retraiu, como quem está à beira de perder o fôlego. Confusa, deu as costas e saiu rapidamente da sala. O marido chegou a se desculpar pelo comportamento estranho e inadequado da esposa. Porém, Santiago não deu importância ao fato. Relutantemente a Sra. Bergmann retornou. A despeito do seu silêncio durante o jantar, os outros dois conversaram animadamente, fizeram planos e cálculos de lucros. Inclusive definiram os países-alvo para o desenvolvimento das futuras negociações: África do Sul, China, Japão, Inglaterra, Alemanha e Tailândia. Na hora da sobremesa, a senhora Bergmann desculpou-se e se retirou. Alegou sofrer de forte enxaqueca. No final do jantar, Santiago despediu-se e Iran mais uma vez lamentou por sua esposa. Santiago desejou melhoras e partiu.

-O que a deixou tão incomodada em relação ao senhor Santiago? – Perguntou o psicólogo enquanto anotava rapidamente os detalhes.

-Sinceramente não sei. – Murmurou a paciente, curvando os ombros com um olhar evasivo.

-Poderia descrevê-lo fisicamente?

-Claro! – Disse num tom irônico e nem um pouco melancólico. – Ele é alto, aparenta seus quarenta anos. Forte, parecido com o meu marido, cabelos, olhos e barba castanhos escuro. Aliás, muito parecido com o meu marido… E com o senhor também, doutor Müller. Sua barba faz-me recordar ambos.

-Algum outro detalhe que gostaria de acrescentar?

-Depois desse encontro minha vida virou um inferno.

-Por quê?

Hesitante, a paciente decidiu revelar:

-Tenho a impressão que este sócio do meu marido é um psicopata. Eu sei que é. Primeiro essa coisa de negociar carnes exóticas. Depois, fomos a um restaurante reservado a convite de um renomado chef que nos preparou um jantar especial. O sabor da carne era muito diferente, diria… levemente adocicada. A princípio, a consistência e o paladar nos causaram repulsa. No entanto, nos acostumamos e hoje a consumimos com frequência.

-Compulsão por carne? – Estranhou doutor Müller a anotar mais esta informação.

-Sim, doutor. Hoje somos até capazes de consumi-la cru. Comemos até nos fartar. Não engorda!

-E o que mais além da compulsão por carne?

-Ele me segue, doutor, por todos os lugares.

-Como sabe disso?

-Conhece cada passo que eu dou. Sou seguida…

-Como sabe que é seguida? – Insistiu Müller.

-Meu carro é fechado por agentes contratados por ele. Fazem isso de propósito. Ele faz questão que eu saiba que é ele. Um dia ele chegou a dizer que ele tem poder sobre mim… Aí…

-A senhora disse que ele faz questão que saiba que é ele?

-E tem mais: Se eu estiver apreciando a vitrine de uma loja, é certeza que o verei pelo reflexo do vidro. Ele se posiciona bem atrás de mim para me vigiar. Não aguento mais. – Explicou aos prantos. Após se recompor, enxugou as lágrimas restantes e complementou: – Doutor, sei que não estou louca. Eu sei disso. Sou vigiada a todo instante. E esse vício maldito por carne…. É um homem insano. O que devo fazer?

Müller fez várias outras anotações e indagou pela última vez, já que a sessão chegaria ao fim:

-Compulsão por carne e paranoia. – Disse o doutor em voz baixa. E prosseguiu: – Alguma suspeita do porquê disso?

-Talvez seja para mantermos as receitas da carne em segredo. É algo que ele guarda a sete chaves. O segredo só pode ser revelado a compradores especiais. Já disse, doutor, ele é louco, um maníaco. Eu nem conheço o método de preparo! Ou, então, está obcecado por mim, sei lá!

-Seu marido tem ciência?

-Do quê? Que ele me segue? Claro que não!

-E quanto a compulsão por carne? Por que a carne a preocupa tanto?

-Não é qualquer carne, doutor. Como disse, é um produto especial e principalmente… A forma como é preparada… esse é o segredo que desperta na gente uma coisa irresistível. Meu marido e eu, quando vimos pela primeira vez o método de preparo, sentimos um enorme prazer. Se o senhor visse, sentiria o mesmo, posso garantir.

Müller levantou-se para indicar que a sessão já havia terminado e disse:

-Gosto de picanha. Bem, a senhora poderá deixar agendada a sessão para a próxima semana. – A paciente assentiu.

-Por favor, também deixe o seu telefone de contato para qualquer eventualidade. – Completou.

A senhora Bergmann elegantemente descruzou as pernas e se levantou. Fitou-o e disse:

-Farei isso quando tiver plena confiança no senhor. – Virou-se e caminhou a passos rápidos em direção à porta. Deteve-se ao dizer uma coisa: – Doutor, tenha certeza de uma coisa: o senhor será grampeado.

Acostumado a abordagens paranoicas e ameaças vazias, Müller aproveitou para fazer a seguinte observação clínica: Diagnóstico prévio: Suspeita de crises maníaco-compulsivas e paranoia – Depois, conduziu-a gentilmente até a recepção.

-Muito bem, senhora, não esqueça de agendar a próxima sessão.

Neste mesmo instante, o telefone tocou. Ele acabou despedindo-se às pressas e precipitou atender:

– Alô?

-Oi, querido! Sou seu. – Sua noiva.

-Oi, amor, estava ansioso pra falar com você. Nosso encontro no final da tarde está de pé?

-Claro que sim. Liguei para ouvir sua voz e dizer que te amo. Nos vemos naquele café de sempre.

-Ótimo. Vejo você lá. Estou com saudades.

-Eu também.

-Um beijo. – Sandra, um refresco em sua vida. Preparou-se, então, para mais um atendimento.

Findo este, Müller finalmente relaxou. Pendurou o jaleco e reuniu as coisas. Rumou tranquilamente para a estação de metrô. No caminho, percebeu um carro preto, um jaguar, a trafegar lentamente. Estranhou já que o fluxo intenso da avenida não permitia velocidade abaixo de trinta quilômetros por hora. “Será que eu estou sendo seguido? ” – Pensou. Riu de si. Imaginou como seria a vida se sofresse de delírio paranoico. – “Bobagem. ”

Já no café, procurou por Sandra. Ainda não havia chegado. Escolheu uma mesa no calçadão, pediu um cappuccino gelado. Finalmente chegara o momento de relaxar. Simplesmente não pensar em nada e apreciar o momento. Ao primeiro gole, vislumbrou a beleza de um final de tarde. O sol tingiu de vermelho as vidraças dos arranha-céus. A mais ou menos vinte metros de onde estava, carros transitavam imutavelmente. Müller os observava um a um, como quem aprecia um desfile. Dado momento, avistou o jaguar preto. Desta vez, a janela do motorista estava aberta. Surpreendeu-se ao ver que a senhora Bergmann o dirigia. Lançou um olhar sério, misterioso. Imediatamente acionou o vidro elétrico protegido por uma película escura.

-“Que coincidência! A lei da sincronicidade não falha”. – Pensou. Enfim, Sandra chegou com sua jovialidade contagiante. Ao vê-la caminhando a passos delicados, Müller, seguindo-a ao longe com os olhos, censurou-a com um sorriso e um leve balançar de cabeça pelo ligeiro atraso. Aquele final de tarde fora perfeito.

No dia seguinte, um sábado ensolarado. Ele decidiu sair para uma caminhada no parque. Aproveitou para levar consigo um livro que há muito custava para concluir a leitura. Enquanto andava, sobreveio a incômoda sensação de ser vigiado. Num relance de olhar, pensou ter captado uma diáfana silhueta feminina, próxima a uma árvore do outro lado da rua. Um arrepio percorreu a espinha. Parou para verificar com mais atenção, mas não havia nada. Isso deixou Müller pensativo: – “Crises recorrentes de súbita alucinação? ” – Tentou racionalizar. Müller fora sempre cuidadoso para não ser vítima de transferências ou projeções. Absorto, ao atravessar a rua, foi sacudido abruptamente pela buzina de um carro que quase o atropelou. Após ter se controlado e pedido desculpas ao motorista, e em troca ter recebido uma dúzia de variados palavrões, decidiu voltar para casa. Naquele final de semana, permaneceu recluso.

Na segunda-feira de manhã, ao abrir a porta de casa, encontrou na soleira o jornal diário. A notícia de capa atraiu sua atenção: “Polícia procura sequestradores de empresário”. Imediatamente a foto da vítima o remeteu à descrição do tipo físico do marido da senhora Bergmann e seu sócio. Um senhor com cabelos, olhos e barba castanhos. Lampejos da sessão com aquela estranha mulher sobrevinham à mente. O celular tocou. Era Cíntia. Disse que acabara de receber uma ligação urgente da senhora Bergmann. Suplicava para ser atendida no final da tarde. Disse que pagaria o dobro pela sessão. Mais motivado pela curiosidade do que pelo pagamento da consulta, Müller resolveu atendê-la. Ela chegou às dezoito horas em ponto. Assim que se acomodou na poltrona, deu vazão à sua angústia. Contou que, desta vez, Santiago – sentia até repulsa em citar seu nome – tinha decidido eliminar qualquer um que se aproximasse dela.

“Mas isso é um caso de polícia”. – Pensou o psicólogo, apertando os olhos e franzindo a testa.

-Creio que acaba de pensar que isto é um caso de polícia, doutor. – Müller fez que sim com a cabeça. – Não, não gostaria de envolver a polícia nisso. – Continuou. – Os negócios do meu marido seriam prejudicados. Recentemente eles iniciaram a exportação das carnes do tipo especial. Como lhe expliquei antes, por ser um tipo de carne raro, pouquíssimos clientes teriam condições de pagar o preço. Isso seria mexer com pessoas poderosas. Para o senhor ter uma ideia, o importador envia seu próprio avião para buscar a encomenda. Além disso, o senhor não imagina a fortuna que ambos, meu marido e aquele homem, estão fazendo. – Disse a mulher fragilizada sem conter as lágrimas que lhe caíam dos delicados olhos.

-Então, sugiro que o seu marido saiba a verdade. Vocês correm sérios riscos. – Insistiu Müller. – Após um tempo em silêncio, a senhora Bergmann teve a seguinte ideia:

-Doutor, poderíamos tentar conversar com Santiago. Nós dois, eu e você. Que tal? Ocorreu-me agora convidá-lo para ir à minha casa e, sem que soubesse, o senhor estaria lá. Um encontro com fins terapêuticos. Seria oportuno para entender o real motivo de sua obsessão por mim.

-E seu marido?

-Ele viajou para o Canadá. Voltará dentro de três dias.

-.. eu…

-Por favor, preciso de sua ajuda. – Disse ao inclinar o corpo para frente e lançar um olhar lacrimoso. Müller permitiu que seu coração generoso e a curiosidade mais uma vez assumissem a razão. Por fim, concordou.

-Que tal esta noite, doutor?

-Não é do meu costume…. Tudo bem. Combinado. Poderia ser às vinte horas?

-Perfeito! – Exclamou a paciente com um amplo sorriso e a exibir seus dentes brancos. – Moro próximo à igreja Nossa Senhora das Graças, na rua das Aroeiras, 229. Posso lhe dar uma carona.

-Não obrigado. Sei onde fica.

Somente meia hora mais tarde, já a caminho da casa dos Bergmann, Müller deu-se conta da loucura que havia feito em concordar com tal plano. “Esse meu ímpeto salvacionista vai me matar um dia”. – Pensou. Várias outras coisas passavam pela sua mente: “E se ele estiver armado? Sim, uma pessoa que persegue outra poderia andar armada”. – A insegurança aumentou à medida que se aproximava do local. Tentou arduamente abrandar os pensamentos ruins com possíveis soluções boas: – “Afinal, é apenas uma conversa a três. Talvez possa ajudar”.

Finalmente chegou à mansão cuja fachada estava iluminada.  Contudo, estranhamente, o interior estava escuro. Müller pensou em recuar, mas a curiosidade o atiçava, e assim, decidiu prosseguir com a absurda missão conciliadora. Notou o portão aberto e o cabo da câmera de segurança desconectado. Oscilou por um instante, mas decidiu entrar. Bateu à porta e viu surgir uma raia tênue de luz por debaixo da porta. Em seguida, a própria senhora Bergmann atendeu.

Levando em consideração o porte da casa, Doutor Müller chegou a comentar sua estranheza quanto a ausência de funcionários, sequer um para atender aos convidados. Mas ela justificou dizendo que dera folga a todos.

-O senhor gostaria de um café? Não ofereço vinho ou uísque, pois sei que negaria. Está a serviço…

-Sim, um café seria ótimo. – Disse Müller enquanto deslizava os olhos sobre os detalhes da sala de visitas, aliás, decorada com extremo requinte.

Enquanto apreciava, perguntou se Santiago tinha confirmado sua vinda. Muito calmamente ela respondeu que sim.

-Um plano simplório demais para um homem astuto. – Disse Müller preocupado com a meia hora que já havia passado além do horário marcado.

-Ele é um homem com sede de novas experiências, doutor. É a caça convidando o caçador. Haveria algo mais tentador que isso?

Müller não deixou escapar à percepção o súbito comportamento sensual da senhora Bergmann. Algo bastante estranho para uma situação de expectativa.

-Aguardarei mais quinze minutos. Caso não chegue, lamento, mas terei de ir. – Disse após checar o relógio mais uma vez.

A senhora Bergmann, sem resistência, concordou e pediu licença para ausentar-se da sala por alguns minutos. Müller meneou, contudo, incomodou-se com o silêncio que inundou o ambiente. Para ajudar a amenizar a tensão e a passar o tempo, decidiu tomar mais um café. Com xícara em mãos, caminhou em direção à sala de jantar. À direita da sala havia uma parede de vidro que permitia vislumbrar o amplo jardim iluminado. À esquerda, podia-se ver a porta da cozinha.

Doutor Müller olhou novamente o relógio e constatou que os quinze minutos haviam esgotados. Hora de partir. Desistiu do café. Retornou à sala de visitas, pousou a xícara sobre a mesa, pigarreou e chamou pela senhora Bergmann:

-Preciso ir! Talvez devêssemos nos ver no consultório na próxima semana.

Nenhuma resposta.

-Senhora Bergmann! Tenho que ir. – Chamou-a várias vezes alçando a voz. E nada. De repente, ouviu um estalo. Vinha da cozinha. Apressou-se para lá. – Senhora Bergmann, não precisa se preocupar em preparar nada… eu…

Ao chegar, não havia ninguém. Somente uma pálida luz iluminava o ambiente. No canto esquerdo, uma porta entreaberta. De lá, uma névoa suave escapava. Müller imaginou ser uma espécie de câmara frigorífica. Talvez a senhora Bergmann estivesse ocupada em selecionar ingredientes para o preparo de algum petisco.

-A senhora está aí? – Abriu vagarosamente a porta e entrou. A luz fraca da cozinha iluminava timidamente o interior da câmara frigorífica; o seu interior avultava algumas peças de carnes penduradas. Impossível ver detalhes, mas pareciam carnes finamente preparadas.

Esticou a mão para o alto e tocou numa peça. Aromas de ervas finas e temperos especiais exalavam das carnes dependuradas. Dedilhou acidentalmente algumas partes metálicas, algo como grampos.

“A carne é grampeada ao invés de ser amarrada? Certamente é para conter o recheio. A gastronomia evolui! ” – Concluiu pensativamente em voz baixa. Subitamente a porta da câmara se fechou. Com a escuridão não foi possível localizar o interruptor. Müller recuou em direção à porta. Estava trancada. Bateu, esmurrou e gritou. Ninguém para acudi-lo. Um silêncio denso sobreveio, frio como a morte. O pobre psicólogo ameaçou alguns passos à frente, mas primeiro sobreveio o medo de permanecer ali fechado, depois o crescente tiritar de frio e, por fim, o pânico. Tudo conspirou para convencê-lo de que não sairia de lá tão cedo. Repentinamente, um lufar quente tocou-lhe a nuca. Parou por um instante para prestar atenção de onde poderia ter vindo:

-Tem alguém aí? – Arriscou.

O sopro ritmado mais parecia com um respirar, e que se tornou rápido, semelhante a um ofegar excitado. Müller sentiu um arrepio subir pela espinha. Virou-se e arriscou agarrar em falso o que ou quem pudesse estar atrás dele. Os movimentos desordenados dos braços no vazio e o chão escorregadio o fizeram cair. Em seguida, um golpe certeiro atravessou-lhe impiedosamente a garganta. Com a face contra o chão gelado, sentiu o cálido sangue escorrer. Em agonia, viu câmara abrir. Uma gota de esperança em meio àquele horror o fez clamar por socorro. Mas sem voz, sem conseguir mover a cabeça, com a respiração rápida e falha, viu com o canto dos olhos três figuras que pareciam ser dois homens e uma mulher.

-Querida, mais um com barba? Por quê?

-Homens de barba são mais dóceis e tolos. – Respondeu friamente a mulher. Müller tentou gritar, mas só mexeu os lábios numa tentativa fracassada de balbuciar algumas palavras.

-Santiago, você trouxe os grampos? – Perguntou Iran em voz de comando.

-Temos que preparar a carne para semana que vem. Temos mais um comprador na fila de espera. Tomara que a câmera de infravermelho tenha filmado o golpe. O comprador valoriza mais o produto ao ver as cenas da execução.

-Senhora Bergmann, devo confessar que foi certeira. Diria…. Cirúrgica! – Disse Santiago a rir enquanto preparava o instrumental.

– Obrigada pelo elogio. Procuro melhorar. Incrível mesmo é como isso vicia. – Disse a senhora Bergmann friamente enquanto abria um saco plástico.

À medida que o sangue se esvaia e esvaía pelo ralo, os sentidos da presa tornaram-se confusos. A visão turvou e as vozes se fundiram aos sons do ambiente. Muito fraco, Müller, tentou mesmo assim levantar-se, mas a última golfada da artéria exposta fez seu corpo desmoronar. Por fim, deu o último suspiro.

Uma semana depois

 

-Querida, sou eu. Santiago virá hoje para o jantar.

-Eu sei, meu bem, já pedi para a nossa chef temperar a carne. Ela também preparará algumas iguarias. Tenho certeza de que apreciarão.

-Ótimo, tenho uma reunião neste instante. Cliente novo. Seu pedido nos renderá uma fortuna. Preciso ir. Te amo. Um beijo

-Só um instante. Não desligue.

-Sim, querida?

-Consegui mais carne para a semana que vem. Será especial.

-Ótimo, avisarei os compradores. Você é fantástica! Um beijo.

-Um beijo, Iran.

FIM

Geraldo Medeiros

Recifense de pais paulistanos, 53 anos. O gênero de seus contos e livros, resultam de sérias investigações sobre a mente humana, a vida e seus mistérios.

  • Valeria Cocco

    Parabéns Geraldo !!! Realmente sinistro. No momento em que ela começa a falar nas carnes exóticas, chego a imaginar algo do tipo, mas não com este final !! Muito louca a Sra Bergmann !!

    • Geraldo Medeiros Jr.

      Obrigado, Valéria!!! Que bom que gostou. Realmente não se pode brincar com a Sra. Bergmann. Eu, hein.

  • Incrível como sempre, por isso admiro tanto esse escritor! Tem muito á nos oferecer com seu talento e experiencia! Parabéns meu amigo e muito sucesso!

  • Fernando Mello

    Muito show Geraldo, me lembrou Hannibal por questão da carne humana, embora o contexto tenha nada a ver, parabéns. Aprovado!

    • Geraldo Medeiros Jr.

      Obrigado, Fernando! Acho que essas coisas acontecem sem que saibamos.

  • Marcel Acencio

    Como disseram anteriormente, eu acho que nunca li a descrição de uma morte com tanta sutileza! Ou seja, dá para fazer um conto de terror sem ser apelativo! Parabéns ao Autor! O que aprendi com a estória? Que a curiosidade matou o… Psicólogo.

    • KKKK É verdade Marcel! Obrigado pelo comentário.

    • Geraldo Medeiros

      Obrigado, Marcel. O coitado do Dr. Müller, imbuído de tanta boa vontade, encontrou uma pedreira pela frente. Que situação. Valeu, amigo!!!!

  • Pedro Montanaro

    Curti bastante! Mal consegui respirar no final kkk

    • Realmente é instigante né pedro

    • Geraldo Medeiros

      KKKKKKKK, obrigado, Pedro. Desculpe pelo sufoco. kkkkkkk

  • teresa

    Gostei muito da história e como você desenvolveu !
    Muito Bom !”gostei do sarcasmo : Querida, mais um com barba? Por quê?
    -Homens de barba são mais dóceis e tolos

    • Geraldo Medeiros

      Obrigado pela breve análise, Teresa.

  • Muito Bom ! Gostei da história !

  • Charlotte Marx

    Comigo! Dois que adoraram!

    O sopro ritmado mais parecia com um respirar, e que se tornou rápido, semelhante a um ofegar excitado. Müller sentiu um arrepio subir pela espinha. Virou-se e arriscou agarrar em falso o que ou quem pudesse estar atrás dele. Os movimentos desordenados dos braços no vazio e o chão escorregadio o fizeram cair. Em seguida, um golpe certeiro atravessou-lhe impiedosamente a garganta. Com a face contra o chão gelado, sentiu o cálido sangue escorrer. Em agonia, viu câmara abrir. Uma gota de esperança em meio àquele horror o fez clamar por socorro. Mas sem voz, sem conseguir mover a cabeça, com a respiração rápida e falha, viu com o canto dos olhos três figuras que pareciam ser dois homens e uma mulher.

    Amei essa descrição, foi sutil na progressão e surpreendente na descrição. Parabéns.

    • Geraldo Medeiros

      Adorei seu comentário, Charlotte! Valeu.

  • Sensacional. Parabéns Geraldo!!!!!!

    • Geraldo Medeiros

      Obrigado, Wellyngton!!!!