Anjos de Metal: Capitulo 6 – Lucca

Anjos de Metal: Capitulo 6 – Lucca

Alquimia é uma ciência de compreensão, decomposição e recomposição da matéria, contudo não é uma técnica onipotente, pois, não é possível criar algo do nada. Se você deseja obter alguma coisa é preciso pagar um preço equivalente. Esse é o principio da alquimia, a chamada troca equivalente.

 Mantenha a concentração”.

Essas palavras não saiam de sua mente, repetida como um mantra para ele desde que ele tinha cinco anos de idade, motivo pelo qual o garoto de 16 anos detestava a educação que recebia em casa. O pai o forçava a três horas diárias de estudos sobre um assunto que ele odiava “Magia Antiga”.

Lucca respirou fundo e mais uma vez se forçou a relembrar porque ele era torturado todos os dias de sua vida com todas aquelas baboseiras. Segundo o pai sua família descendia de uma linhagem mágica muito antiga, tão antiga quanto à própria magia, seus ancestrais ajudaram a erguer grandes impérios e eram responsáveis por guardar os segredos da magia e repassá-los adiante.

Orfeu insistia no que ele chamava de educação mágica em casa por não confiar nos métodos educacionais do século 21, em suas andanças pelo mundo ele vivenciou muita coisa para acreditar que criar um local específico para um estudo fragmentado de magia era perda de tempo, a magia estava em todos os lugares por isso não era necessária uma sala de aula para que houvesse aprendizado. Uma ideia um tanto a frente do seu tempo, isso para um homem que nasceu no século XVIII e serviu ao lado de Napoleão Bonaparte no golpe conhecido como 18 de Brumário.

Há muito tempo, Orfeu foi um exímio mago treinado pelos grandes mestres templários e responsável pela captura e extermínio de vampiros e criaturas das trevas. Segundo suas histórias, Orfeu trabalhava a serviço da santa inquisição matando os seres da escuridão e trazendo paz ao mundo. Isso muito antes da inquisição exterminar essa raça e se voltar contra os bruxos e bruxas que um dia serviram há um propósito perante a coroa.

Apesar da idade Orfeu não aparentava mais de 25 ou 30 anos, isso graças ao seu estoque eterno de elixir de juventude, obtido através da pedra filosofal, artefato cobiçado por muitas tribos e difundido em todas as culturas do mundo, porém muito difícil de ser obtido.

Ele era o dono de uma das três pedras existentes na terra, a primeira pertenceu a Merlin, mago da távola redonda e dizem há muito tempo estar escondida em Avalon, a terra das fadas. A segunda foi destruída no final do século passado e pertenceu a Nicolau Flamel seu mentor e amigo de longa data que o ensinou a como consegui-la alguns séculos atrás.

Lucca o admirava por tamanha sabedoria, seu pai era capaz de feitos inimagináveis, uma deles era acreditar que Lucca seria o maior mago do mundo, o menino porem não acreditava que tinha todo esse potencial para magia, pois até seus 16 anos nunca foi capaz de realizar um único feitiço, poção ou transmutação bem sucedida.

─ Lucca é a sua vez de tentar. ─ Disse Orfeu entregando a ele um pedaço gasto de giz branco.

Era a décima vez naquela noite que ele explicava sobre os processos químicos e a alquimia, para ele uma troca realmente equivalente seria aquela aula pelo vídeo game pausado desde as três horas da tarde em seu quanto esperando por ele.

Ele levantou-se da mesa apanhou o giz com má vontade e desenhou no chão o círculo exposto na lousa a sua frente

─ Para que eu tenho que fazer isso mesmo pai? ─ Perguntou ele terminando o desenho.

─ Essa pergunta mais uma vez, isso faz parte de seu treinamento. ─ Respondeu Orfeu caminhando em direção à lousa.

─ Essa já é a décima vez que eu tento transmutar madeira em água, o máximo que vou conseguir é destruir o piso mais uma vez.

─ Isso você só vai saber se tentar você já sabe tudo o que há para saber sobre alquimia, agora é uma questão de concentração.

─ Teoricamente eu sei de tudo mais na prática eu sou um completo fiasco, nem uma magia, ou sequer alquimia que eu tente dá certo. ─ Disse ele com ar de deboche.

─ Não diga isso, você é meu filho e tem o dom da magia antiga. Esse é apenas um bloqueio passageiro. ─ Disse Orfeu tentando acalmá-lo

─ Bloqueio passageiro pai! ─ Lucca disse nervoso. ─ Nós temos que encarar a verdade, esse bloqueio já durou tempo demais.

─ Mantenha a calma, respire fundo e deixe sua mente livre. ─ Disse ele abraçando o garoto para esconder suas lágrimas. ─ Isso vai passar.

Orfeu notou certo pesar na voz do filho e seus olhos marejaram com a ideia que agora invadia sua mente, Lucca estava decididamente largando as artes mágicas, seus inúmeros fracassos o fizeram desacreditar e o tornaram um humano normal.

─ Não, isso não vai passar. ─ Lucca gritou. ─ Eu não posso ser como você, o grande Orfeu filho de Oreon, o senhor de Atlântida.

Para Lucca seguir os passos do pai, o grande Orfeu descendente direto de Oreon o rei de Atlântida era um peso grande demais que ele carregava. Ele sabia muito bem que ele seria o próximo na linha de sucessão responsável por resguardar as pedras elementares que Oreon deu a própria vida para proteger, pedras essas que segundo a lenda regem a magia do planeta e eram os pilares de Atlântida.

Essa era a sua historia preferida, Orfeu sempre a contava em noites de tempestade na hora de dormir, narrada com maestria pelo pai fazia com que ele sonhasse com Atlântida, as pessoas, as fontes de água tão limpa que era possível enxergar o brilho dos cristais refletidos nela pela luz do sol, corredores, prédios e praças à beira mar apinhados de gente contando sobre as antigas histórias e praticando livremente a magia.

Orfeu dizia que quando ele estivesse preparado para tal viagem Lucca seria capaz de restituir à Atlântida o poder perdido e seu lugar de direito entre os continentes.

Com o passar dos anos, desde o início de seus estudos mágicos Lucca percebeu que ele jamais poderia igualar seus feitos aos feitos de seu pai, pois ele não estava tão conectado a magia quanto o pai queria que ele estivesse. Sem mais uma palavra Lucca subiu as escadas do porão deixando o pai sozinho mais uma vez, passou pela cozinha pegou uma das maçãs que estavam na mesa e saiu em direção à rua perdido em seus pensamentos.

Mesmo que ele pensasse e repensasse em uma saída nenhuma ideia lhe vinha à mente, ele era o único de toda uma linhagem histórica que não tinha talento natural para a magia.

Não havia mais dúvida, Lucca estava fadado ao fracasso, ele jamais poderia se igualar aos grandes magos da história que sabiam como usar o conhecimento antigo, e ele sabia que isso era uma decepção para Orfeu.

─ Para mim já deu pai. ─ Disse Lucca pegando a mochila e pondo nas costas. ─ Eu vou mais cedo para a escola hoje.

─ Tudo bem Lucca. ─ Ele respondeu. ─ Está tudo bem.

Eles precisavam colocar a cabeça no lugar ou as coisas sairiam ainda mais do controle, as discussões geradas pelos dois não eram tão fáceis de resolver quando estavam em seu nível critico. Orfeu detestava ser contrariado, ele agia como se estivesse em uma guerra e usava tudo o que podia para destruir seu inimigo, não importando quem fosse.

Lucca já sofrera o suficiente, nas poucas vezes que fez o pai explodir de raiva. Foi forçado a gerar energia manualmente para aquela casa, e sem saber magia corretamente era quase impossível realizá-las sozinho.

Foi graças a essas “tarefas extras” que Lucca desenvolveu o que podemos chamar de tic tecnológico, sempre que ele brigava com Orfeu o menino construía alguma coisa para o pai como um presente de desculpas, e como elas eram frequentes ele sempre tinha algo novo em mente, algum aparelho tecnológico mirabolante que com certeza Orfeu desaprovaria e jogaria fora daqui a duas semanas mais lhe daria todas as ferramentas necessárias para a sua execução.

***

Sentado no banco do parque Lucca retirou o telefone do bolso, o relógio marcava exatamente 18h20, o garoto passou o dedo indicador sobre a tela e a mesma apareceu de forma tridimensional bem diante de seus olhos, como uma enorme tela LCD. Com aquele apetrecho o menino era capaz de invadir qualquer aparelho eletrônico que possuísse acesso à internet e para isso o aparelho não precisaria estar conectado, bastava apenas à tecnologia.

Essa era a real habilidade de Lucca, habilidade essa desvalorizada pelo pai, desde os dois anos de idade o garoto descobriu seu apresso pela tecnologia, quando começou a desmontar e remontar objetos quebrados.

Aos cinco anos ele já era capaz de concertar os utensílios domésticos de casa, aos dez ele se apaixonou pela internet e não parou mais, com sobre peças e sucatas encontradas no lixão da cidade o garoto criou o melhor computador já visto na face da terra, e assim ele passou a burlar sistemas sites e programas em proveito próprio.

Sua principal atividade criminosa era invadir o sistema da NASA e a chamada área 51 para produzir os projetos engavetados por eles. Tanto o quarto quanto a garagem da casa era repleta de projetos abandonados pelo governo norte americano em que ele foi capaz de terminar e executar perfeitamente.

Para a sua surpresa a área 51 não se tratava de um deposito hospedeiro de óvnis e coisas estranhas, mais sim um centro mundial sob o comando dos Estados Unidos para produzir a tecnologia.

Em seus infinitos projetos falhos, estava esse pequeno aparelho que se tornou o xodó do garoto, aquele aparelho que tinha a aparência de um celular dos mais modernos, tinha a capacidade de conectar uma pessoa diretamente à internet através de uma interface neural, o corpo físico permaneceria imóvel em um lugar, mas a mente viajaria através daquela tela por milhares e milhares de lugares cibernéticos em um milésimo de segundo. Infelizmente, aquela habilidade não era vista com bons olhos pelo pai que abominava a tecnologia, pois segundo ele foi graças à tecnologia que os seres humanos abandonaram o interesse pela magia.

A reserva estava deserta, Lucca não estava surpreso, afinal aquela não era uma hora propícia para as pessoas estarem ali. Todo o movimento era durante a manhã e à tarde, pessoas com trajes esportivos e senhores de meia idade sempre vinham nesses horários praticar algum tipo de atividade física.

O pessoal mais jovem também gostava daquele lugar para encontros entre amigos, sempre regados às drogas e álcool, a saída noturna da escola era sempre um motivo para festejar, pois estavam livres das aulas e professores chatos.

Ao toque de um botão a tela virtual desapareceu, ele desligou o aparelho e colocando-o no bolso começou a caminhar admirando as diferentes cores que a paisagem noturna proporcionava. Lucca tentou imaginar o que o pai estava fazendo naquele momento, no mínimo estaria lendo algum livro antigo de alquimia como era de seu costume. Essa não era a primeira vez que eles discutiam sobre o assunto e com certeza não seria a última.

“─ A alquimia não é uma ciência exata.” ─ Pensou ele. ─ O princípio da troca equivalente.

Uma ideia finalmente veio à sua mente, Orfeu já havia lhe dado à resposta há muito tempo. Como ele poderia ter sido tão idiota para não perceber isso? A resposta para o seu bloqueio estava embaixo do seu nariz o tempo todo: a pedra filosofal.

Também conhecida como a pedra da cura, a pedra filosofal era dotada de grande poder, pois usa a força dos elementos em sua composição, este artefato mágico criado há milênios era capaz de dar a vida eterna para aqueles que a possuíssem, além de mudar os estados subatômicos da matéria fazendo sua decomposição e reestruturação ao desejo de quem a possuísse. E se ele fosse capaz de recriar essa energia e canalizá-la através de um objeto?

***

Naquela noite Lucca chegou atrasado à escola, foi direto ao que eles chamavam de Covil dos Anjos. Ele sentou-se em um canto e permaneceu com os olhos no laptop, enquanto Adam, Jimmy, Tonny e Drew davam os toques finais no equipamento para o ensaio que havia sido marcado há uma semana. Ele era uma espécie de agente da banda, cuidava da parte visual e sonora além de agendar os shows para os Anjos de Metal, uma banda de garagem que era uma das poucas fontes de diversão da cidade.

Nenhum deles entendia o motivo, mas todos naquele grupo se sentiam tão seguros uns com os outros que acabaram se tratando como verdadeiros irmãos, a banda era mais um pretexto para o grupo se reunir, conversar, brincar e se divertir do que ensaiar. Na verdade aqueles ensaios serviam unicamente para uma coisa, matar aula. Lucca e seus amigos ficavam ali por horas, assistiam à primeira aula de cada noite, para os professores saberem que eles estavam na sala e então davam um jeito de escapulir e iam para o porão do colégio para suas reuniõezinhas secretas.

O porão era o depósito do instituto, era ali que o zelador guardava tudo o que a escola não queria, então havia vários tipos de coisas esquecidas ali, desde livros tão antigos quanto à própria escola, carteiras quebradas, ferramentas a até computadores velhos e quebrados, que Lucca achava uso para eles sempre que fosse necessário.

Aquele lugar era um paraíso, ninguém os incomodava, eles podiam fazer qualquer tipo de barulho, poderiam ate mesmo explodir uma bomba ali que ninguém apareceria para pedir explicações a eles. Assim, aquele lugar ficou sendo a sede oficial dos Anjos não importava se era sábado, domingo ou feriado aquele lugar sempre estaria aberto para eles, bastava apenas molhar a mão do zelador para que ele abrisse uma pequena exceção.

─ Eu acho que nós poderíamos tocar na reserva, semana que vem é aniversário da cidade. ─ Disse Drew, tirando um mi da guitarra recém-afinada.

─ Eu não sei se estamos preparados para um evento desse porte. ─ Respondeu Adam pegando a baqueta na mochila próxima à bateria.

─ Como assim cara? ─ Perguntou Jimmy já com o olho torto. ─ Nós tocamos naquela reserva todo o fim de semana, se eu bem me lembro estávamos lá ontem.

─ É verdade Adam, nós tocamos lá quase todo fim de semana. Porque seria diferente nessa semana?

─ Nós nunca tocamos para um público, pelo menos não oficialmente. ─ Respondeu Adam dando um tapinha nas costas do amigo. ─ Essa festa atrai gente de todos os lugares.

─ Pode até ser que encontremos um agente, ou uma gravadora para alavancar nossa carreira. ─ Disse Drew animado.

─ O que você acha Lucca? ─ Quis saber Jimmy. ─ Tocamos ou não no aniversário da cidade na semana que vem?

Lucca estava concentrado demais para ouvir qualquer coisa que os amigos falassem. Ele apenas balançou a cabeça em sinal de afirmação. O que claramente era um sinal de que ele não estava dando a mínima para a conversa.

─ O que ele tá fazendo de tão interessante? ─ Perguntou Jimmy. ─ Ele entrou no modo zumbi bem rápido hoje.

O modo zumbi era a maneira que os amigos chamavam o garoto quando ele se desligava do mundo ao seu redor e respondia de forma aleatória com um aceno afirmativo com a cabeça mais seus olhos estavam vidrados em outra coisa. Quando Lucca entrava nessa espécie de transe, todas as perguntas tinham o mesmo aceno vazio como resposta, assim os amigos aproveitavam para fazer as brincadeiras mais bizarras com ele e dizer coisas do tipo: “você é o maior idiota de todos os tempos”, ou “Lucca é a maior bichona que eu já conheci na vida” ou “esse cara me deve muita grana pessoal” a resposta para essas e outras perguntas bizarras era o mesmo aceno vazio com a cabeça.

Enquanto eles não mexessem no corpo inerte de Lucca ele não pararia de agir daquela maneira, e isso era a maior diversão para os quatro garotos, pois Lucca sempre levou na esportiva o que os quatro faziam e sempre tirava uma casquinha de vez em quando, quando um deles cometia um erro. Por mais estúpido que fosse, estar com eles era divertido.

─ Volta pra Terra gênio. ─ Disse Adam dando um empurrão em Lucca que o fez acordar.

─ O que foi? ─ Ele quis saber retirando os olhos do computador.

─ Agora que vossa alteza esta entre nós. ─ Disse Jimmy. ─ Nós queremos saber se você pode nos colocar no festival em comemoração ao aniversário da cidade.

─ Lembrando que as inscrições já se encerraram no início do mês. ─ Disse Drew para completar.

─ Todo esse alvoroço por causa de um festival? ─ Respondeu Lucca. ─ Podem deixar comigo. ─ E assim Lucca voltou ao laptop mais uma vez.

Para aquele grupo, as habilidades de Lucca com a internet e as máquinas eram fantásticas, eles sempre estavam querendo que ele concertasse alguma coisa ou invadisse o sistema de faltas e notas da escola para não mancharem os boletins no final do semestre, pois isso garantiria a eles uma bela expulsão. Lucca nunca usou essa habilidade para alterar as notas dele ou dos amigos, apenas as faltas dos boletins eram alteradas, pois, apesar das faltas eles sempre tiravam as melhores notas.

─ Invasão concluída. ─ Respondeu Lucca apertando a tecla enter uma última vez. ─ Anjos de Metal toca no sábado às nove horas da noite.

─ Lucca você é… ─ Antes que Drew pudesse terminar a frase, Tonny levou uma das mãos aos lábios pedindo silêncio e com a outra apontou em direção à porta.

 

Apollo Souza

SOBRE MIM
Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudonimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal- RN. Formou –se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acarau no ano de 2012 na cidade de Santo Antonio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias historias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância.
Publicou seu primeiro trabalho na Bookess editora, ao transformar sua tese de graduação em pedagogia em livro, decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.

 

  • Andrea Bertoldo

    Nossa! Excelente,Apolo! Adorei! Só cuidado com a grafia de algumas palavras,ok? Parabéns!