Anjos de Metal: Capitulo 4 – Alice

Anjos de Metal: Capitulo 4 – Alice

Pousando o lápis sobre a cama, Alice respirou fundo e fitou a janela com vidros especiais contra claridade de seu quarto, que sempre teve o mesmo aspecto sombrio.

Em seu pequeno quarto, no andar superior da casa, havia uma cama de solteiro forrada com edredom roxo e mais ao canto uma mesinha de estudos com vários livros e cadernos ainda abertos e um computador ligado surrado e cheio de adesivos de caveiras e outras coisas esquisitas que só ela entendia, nas paredes pôsteres de algumas bandas conhecidas do inicio dos anos 70, 80 e 90, o antigo vinil em um canto tocava uma de suas musicas prediletas, o que mostrava que apesar de velho o aparelho funcionava perfeitamente.

Olhando fixamente para o papel Alice procurou mi­nuciosamente por algum possível erro que pudesse ter cometido em seu desenho, mediu milimetricamente cada canto com um olhar clínico e mais uma vez seu desenho estava perfeito. Ela levantou-se, desligou o computador, caminhou até a janela e espiando pela brecha da cortina percebeu que já passava das 18h, logo ela teria de ir para mais uma noite entediante de aulas no instituto para jo­vens especiais.

 A menina morava nessa casa só com a mãe há mais ou menos um ano, a rotina da casa era noturna e não se via nem mãe nem filha durante o dia, a casa era sempre trancada e nunca apareciam visitas naquela residência. Os vizinhos estavam sempre de olho para descobrir quais os mistérios da família Pacheco.  Estavam sempre comen­tando a palidez e as olheiras da menina, diziam que ela estava com uma doença incurável e tinha vindo para a cidade para respirar o ar puro do campo.

As constantes mudanças fizeram Alice se acostumar a viver sozinha na noite sem amigos e também aos comen­tários dos vizinhos maldosos. As crianças do bairro uma vez ou outra jogavam um punhado de sal na frente da casa escura, pois diziam que ali morava uma bruxa, e que o sal tinha o poder de afastá-las. Alice curtia esse tipo de coisa, e seu visual Lolita gótica ajudava bastante a dar asas na imaginação dos pequenos, isso servia como uma espécie de diversão para ela, ver os moleques da rua cor­rer com medo ou mudar de calçada quando ela e a mãe vinham na direção oposta, ou ainda fazer o sinal da cruz ao passar na frente de sua casa.

 Ela costumava não deixar barato as provocações, sempre que podia mostrava para as crianças seus olhos vermelho escarlate e os dentes pontiagudos demais para uma pessoa normal, ela também dizia alguma palavra esquisita em simulando algum tipo de feitiço.

Alice deu uma batida na saia preta para tirar um fia­po da colcha de cama que estava ali, passou a mão no cabelo para pôr no lugar uns fios rebeldes, colocou sua jaqueta preta preferida, deu uma olhada no quarto e saiu tomando o cuidado de fechar a porta com a chave. Ela desceu as escadas pelo corrimão como sempre fez, e saiu pela porta da frente em direção ao parque florestal pró­ximo para poder caçar algum animal para aplacar a sua sede de sangue.

 

***

 

Ela caminhou por algum tempo observando os pas­santes na rua, até que a luz da lua refletida em uma fonte da reserva chamou sua    atenção.

As estrelas cintilavam um brilho incomum e a lua cheia tinha uma mistura alaranjada e vermelha dando um tom diferente que Alice não tinha visto ainda, o quão lin­do o céu estava àquela noite.

 Com os olhos de uma águia Alice pode observar bem de perto a beleza daquele momento. Guardando essa imagem em sua mente ela adentrou na pequena reserva florestal sem fazer muito barulho, sua agilidade fazia-a passar despercebida em qualquer lugar, por onde ela pas­sasse deixava para trás apenas uma brisa agradável, seus sentidos eram tão aguçados que ela podia ouvir um sus­surro a quilômetros de         distância.

A reserva aquela hora estava deserta, era um tanto pequena se comparada a outros lugares, mais tinha todos os tipos de animais que serviam de alimento para ela e para a mãe, que raramente a acompanhava.

Durante à noite eram raras as pessoas por ali, pelo menos no horário habitual ao qual costumava caçar, eram sempre casais de namorados que ela encontrava, algumas vezes viciados se drogando escondidos embaixo de algu­ma árvore, ou simplesmente o vigia noturno que rara­mente aparecia.

Alice era diferente de todos os jovens daquela cidade, sua condição era rara e inexplicável, segundo sua mãe ela fora agraciada com o mais maravilhoso dos presentes.

De algum modo a menina nasceu daquele jeito, inco­mum para os de sua raça. Não que ela não amasse os dons que recebeu desde o nascimento, mais certas regras deveriam ser seguidas ou ela estaria em perigo.

Alice nasceu de modo diferente dos outros vampiros que devem ser mordidos e depois beber do sangue de seu progenitor para completar a mutação. Ela nasceu como uma criança normal, do ventre de sua mãe, que por al­guma razão não contara toda a historia.

Por essa razão ela e a mãe eram duas renegadas, não tinham uma colônia especifica, não tinham a quem dar satisfação e por isso não tinham quem as protegesse.

É estritamente proibido aos vampiros transmutarem crianças de colo ou idosos em seu leito de morte, pois a condição vampírica os tornava imortais, sendo assim o bebê não se desenvolveria por completo e não poderia se alimentar sozinho devido a sua incapacidade pelo não crescimento.

Aos velhos doentes se aplicam as mesmas regras, pois eles também não poderiam se manter sozinhos.  Por isso as duas viviam fugindo de cidade em cidade se escon­dendo, pois se fossem descobertas as duas seriam conde­nadas a morte. Essa era a sina da família Pacheco, por estar fora dos padrões aceitáveis Alice se tornara uma fugitiva.

 

***

 

A garota preferia o sangue quente e fresco dos ani­mais do que as bolsas de sangue requentadas que Eurídi­ce guardava no congelador de casa. A menina gostava de sentir o sabor da caçada, ali podia ser ela mesma, usar todos os benefícios de ser uma vampira sem medo de ser taxada como anormal ou aberração.

Ela deu sorte na caçada dessa noite encontrou rapi­damente dois coelhos adultos o que renderia a ela o equi­valente a duas bolsas de sangue humano. O sangue ani­mal não surtia o mesmo efeito do sangue humano, pois não restituía totalmente a força de um vampiro, mais da­va a ela os meios para a sobrevivência pelo menos por essa noite.

Com o cuidado de uma cirurgiã Alice raspou a pela­gem do pescoço dos coelhos e deu um leve tapa com os dedos anelar e médio para sentir onde a veia aorta pode­ria estar, e sem nenhuma cerimônia mordeu de forma sutil e delicada a jugular do coelho sugando todo o san­gue ate não restar uma única gota.

 Enquanto sugava ela pode sentir o calor voltando a sua pele fria e seu coração voltava a pulsar no breve mo­mento em que o sangue fresco lhe percorria todo o corpo dando a ela forças para continuar vivendo. 

Apollo Souza

SOBRE MIM
Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudonimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal- RN. Formou –se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acarau no ano de 2012 na cidade de Santo Antonio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias historias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância.
Publicou seu primeiro trabalho na Bookess editora, ao transformar sua tese de graduação em pedagogia em livro, decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.

 

  • Isa Beta Miranda

    Alice show … Muito bom Parabéns! !!

    • Obrigado…
      Alice ainda guarda muitas surpresas rs