Anjos de Metal: Capitulo 13: Laço Familiar

Anjos de Metal: Capitulo 13: Laço Familiar

Semanas depois…

Lucca checou o projeto mais uma vez, segundo seus cálculos ela estava perfeitamente alinhada em seu eixo, ela media quarenta e cinco centímetros e o peso estava proporcionalmente distribuído em toda a sua extensão. Era uma completa loucura o que ele estava pensando, mas depois do que aconteceu ele se sentia mais capaz, o encontro com Sam o levou a crer que alguma coisa ali tinha despertado seus poderes mágicos adormecidos, em duas semanas ele passou de um completo fiasco a um aprendiz de mago em treinamento.

Ninguém conseguia entender direito, mas agora o menino antes taxado de idiota era capaz de realizar alguns truques simples de magia, como a levitação ou a mudança física de alguns objetos, coisas que até pouco tempo atrás ele era incapaz de executar sozinho ou com a ajuda de alguém. Na verdade nenhum deles foi capaz de explicar com certeza mais aquele encontro mudou a vida dos cinco garotos de forma brutal. A magia era algo comum entre eles, isso porque Lucca nunca havia escondido nada que dizia respeito a sua vida, pelo menos para seus amigos, componentes dos Anjos de Metal.

Os cinco descendiam de uma linhagem mágica que estava destinada a restaurar o equilíbrio da magia no planeta, como o pai de Lucca havia explicado a ele tantas e tantas vezes. Eles nunca levaram tanta fé assim, mas segundo suas famílias essa era uma parte importante de sua história e deveria ser preservada.

Até aquele momento nenhum deles acreditava em nada daquilo, mas depois que Lucca acabou com o porão do colégio, todos eles adquiriram uma habilidade estranha. Agora Adam, Jimmy, Tonny e Drew treinavam para controlar seu respectivo elemento, eles não sabiam como, mas o encontro com Samuel havia dado aos cinco algum tipo de energia elementar adormecida.

Esses efeitos se intensificavam ainda mais quando eles estavam juntos, e isso fez com que eles permanecessem em grupo quando queriam aprontar das suas. Lucca era o único que não podia “usar um elemento”, mas em compensação seu talento adormecido para a alquimia aflorou como nunca, e na presença de um dos garotos seu poder se intensificava assim como o deles.

A cabeça de Lucca estava fervilhando de ideias para testes que deveriam ser feitos com os livros, um deles e o que mais chamava atenção era um ritual de invocação familiar que serviria como um tipo de guardião protetor, apesar de Lucca não entender cem por cento do que realmente estava descrito em cada um dos livros por terem escritas    diferentes.

Sua ideia era criar um instrumento que facilitasse a canalização dessa energia, um instrumento que aumentasse a capacidade física de seu usuário. O ritual de guarda traria um guia para poder ajudar nessa canalização de um tipo de energia elementar. Em alguns documentos antigos roubados da biblioteca do pai, Lucca encontrou algo parecido com aquilo, eram relatos de bruxas que usavam gatos, ratos ou cachorros como familiares para poder proteger suas almas por causa da santa inquisição promovida pela igreja no século XV. Esse ritual seria perfeito para que ele pusesse em prática a sua melhor ideia até agora, uma varinha mágica que lhe permitisse canalizar a magia ao seu redor usufruindo de todos os elementos.

O único problema era que Lucca não tinha certeza se isso daria certo, e mesmo assim ele ainda precisaria de um núcleo mágico compatível com o protótipo que ele estava desenvolvendo, afinal todos os núcleos possíveis já estavam extintos da face da terra e não havia ninguém por perto capaz de fabricar tal artefato. Pelo de unicórnio, pelo de curupira, pena de fênix, escama de sereia e outros artefatos considerados mágicos eram raríssimos de serem encontrados e, portanto caros de mais para um menino de 17 anos do subúrbio conseguir, sua única opção era a fabricação da própria varinha. 

Ele tinha o corpo físico da varinha, o dia propício e o ritual necessário para a fabricação. A única coisa que faltava era o núcleo mágico, o único núcleo disponível para ele era a fibra do coração de dragão, e o único dragão existente nessa época é o dragão-de-komodo, e por ser um animal em extinção esta proibido de ser caçado, capturado e morto.

Se seus cálculos estivessem corretos, coisa em que ele apostaria sua vida, seu pai teria guardado em algum lugar o núcleo perfeito para o seu experimento, o artefato mágico mais poderoso que ele já conhecera na vida, a pedra filosofal. O único problema era que Orfeu jamais deixaria que ele usasse aquele artefato em uma coisa como essa, ele teria que pegá-la sem que o pai percebesse e devolvê-la assim que possível. Um pequeno fragmento seria mais que suficiente para gerar o poder necessário para a varinha, assim eles apenas teriam de esperar o dia perfeito.

***

Os cinco se reuniram na casa de Lucca aquela tarde, já que o habitual quartel general dos garotos estava interditado até segunda ordem.

Aquela era mais uma tarde rotineira na vida dos garotos, regada a jogos e lanches. O legal de estarem na casa de Lucca era que eles nunca repetiam um único jogo sequer durante a semana. O gênio nerd era considerado o rei dos jogos.

Ele tinha de tudo o que se pudessem imaginar, todos os tipos de cards, livros e CDs, até mesmo antigos jogos de tabuleiros e caça palavras, que faziam a alegria da galera sempre que se reuniam.

Tudo levava a crer que aquela seria uma noite de garotos onde era proibido dormir, aquele que se entregasse ao sono seria massacrado com pimenta e maquiagem feminina.

Em cima da mesa um livro já surrado de Dungeons & Dragons estava aberto em uma das páginas de personagens, várias folhas estavam escritas com os nomes e as atribuições dos personagens esperando apenas o início de mais uma interminável partida criada por Lucca, que era de longe o melhor mestre de D&D que se tinha ouvido falar naquela cidade. Mas nenhum deles parecia interessado no jogo, pelo menos não naquela tarde. O que preenchia a mente dos garotos naquele momento eram os acontecimentos vividos na reserva, Samuel e o estranho livro em branco que agora pertencia a Lucca, como também um cristal antigo que continha uma aura mística desconhecida.

─ Cara, eu quase pus fogo na minha casa ontem à noite.  ─ Disse Jimmy estalando os dedos, fazendo uma fagulha de fogo aparecer flutuando no ar.

 ─ E eu quase inundei o banheiro. ─ Concordou Tonny.

Enquanto os garotos conversavam sobre seus poderes e a possível origem deles, Lucca ainda olhava fixamente para um papel com uma estranha linguagem e cálculos que não faziam muito sentido.

─ Você ainda está encucado com a varinha não é? ─ Perguntou Drew percebendo a apreensão do amigo.

─ Sim. ─ Ele respondeu sem tirar os olhos do papel. ─ Preciso saber a hora exata para completar o ritual.

─ Será na lua azul. ─ Disse Tonny ao ver o pedaço de papel sobre a mesa. ─ É o fenômeno que vai acontecer amanhã à noite, não é?

─ Isso mesmo. ─ Ele disse pegando o pedaço de papel sobre a mesa. ─ O ritual tem que ser feito amanhã à noite num lugar onde todos os elementos se reúnem, e nós cinco temos que ir.

─ Na reserva. ─ Completou Adam tomando o pedaço de papel para si. ─ Lá é o único lugar onde os elementos estão em abundância.

─ Mas por que nós cinco temos que ir? ─ Perguntou Drew.

─ Porque isso deve ser feito com um círculo de exatamente cinco pessoas. ─ Ele respondeu. ─ Tem a ver com os cinco elementos, e nós cinco completamos essas características.

─ Essa sua conta num tá errada não? ─ Disse Adam contando nos dedos.

─ Existem quatro elementos básicos… ─ Lucca    começou.

 ─ Terra, água, fogo e ar ─ Completou Jimmy. ─ Isso é ciência básica, cabeção.

─ Isso eu sei, mais qual é a desse quinto elemento? ─ Perguntou Adam.

─ O quinto elemento é basicamente a junção dos outros quatro. ─ Lucca continuou. ─ Segundo os livros do papai eu preciso da representação dos quatro elementos para poder transmutar energia para a varinha e assim usar a magia do familiar corretamente.

─ Suponha que a gente resolva te ajudar. ─ Disse Tonny com os olhos fixos no celular. ─ O que nós teríamos que fazer?

─ Simplesmente nada. ─ Ele respondeu. ─ Vocês só me dariam o apoio moral.

─ Isso parece furada para mim. ─ Disse Jimmy desinteressado.

─ Para mim também. ─ Responderam os outros três em uníssono.

─ Qual é pessoal, me quebrem essa. ─ Ele disse com um olhar de cachorro molhado. ─ Eu sempre uso meus talentos a favor de vocês não é?

─ Chantagem agora é? ─ Disse Tonny em tom de brincadeira.

─ Ok, nós ajudamos. ─ Completou Adam. ─ Como isso vai funcionar?

─ Cada um de nós representa uma força da natureza. ─ Explicou ele. ─ Adam, você é terra, o elemento fogo vem do Jimmy, Tonny é a água e Drew o ar.

─ E você corresponde à criação, nós já sabemos. ─ Disse Tonny de olho no papel. 

─ Sim. ─ Concluiu Lucca. ─ Eu vou canalizar essa energia para a varinha, dando a ela o poder que eu preciso para melhorar minha alquimia.

***

O sol começava a se pôr.

Em cima do telhado ela observava a fraca luz solar deixar cidade, dando lugar à penumbra da noite. Alice sentia sua pele queimar com o calor do sol que ainda pairava pelo ar, mais não se importava, pois esse era um sacrifício que sempre valia a pena.

Aquele era um momento raro e de tanta beleza que ela não se permitia perder tal espetáculo, o sol saia de cena e dava lugar pela segunda vez a uma lua majestosa, de um vermelho vivo, que aos poucos passaria do azul à prata em questão de segundos.

Cada segundo era precioso, ela poderia ver a mesma lua através da redoma de seu quarto, mas não teria o mesmo sabor. O espetáculo visto a olho nu era tão intenso e belo que valiam o sofrimento e a agonia de ser quase queimada viva.

O sol e a lua dividiam o mesmo espaço, um se curvando ao outro. O sol dava lugar à lua no céu como se reconhecesse a grandiosidade do que estava para acontecer naquela noite.

Por um segundo a imagem dele lhe veio à cabeça, o som de sua voz invadia seus ouvidos mais uma vez, ela fechou os olhos permitindo-se reviver aquela lembrança    novamente.

Lucca estava diante dela. Seu rosto tinha a mesma expressão severa e cheia de rancor, seus olhos castanhos pareciam saltar de tanta raiva, mas para ela aquilo pouco importava. Sem saber como ou porque, a menina queria vê-lo mais uma vez, queria estar com ele, queria que ele estivesse ali junto dela naquele instante.

Seus batimentos aceleraram, o rosto de Lucca começou a se esvair em fumaça, ela tentava segurá-lo com as mãos, mas era impossível, pois a fumaça escapava por entre seus dedos. Os sons noturnos trouxeram-na de volta à vida real. A lua subia ainda majestosa no céu.

Ela queria que aquele momento não terminasse, porém mais uma vez a sede de sangue tomou conta dela. E como um animal faminto, novamente ela se viu forçada a ceder.

Em um salto leve e gracioso a garota correu rumo à reserva deixando para trás seus devaneios de adolescente.

Lucca, Adam, Jimmy, Tonny e Drew agora estavam em um ponto cego da reserva, longe de olhos curiosos, de pessoas que podiam importunar os planos destes jovens. Lucca carregava consigo dois livros em couro curtido, grossos e amarelados pelo tempo, um pertencia a ele, dado por Sam há alguns dias atrás e o outro era do pai, que o guardava com todo o cuidado para poder passá-lo para ele no momento certo de sua jornada mágica.

Ele não tinha garantias de que aquilo realmente funcionaria, mas ele tinha que tentar. Se o que Samuel lhe dissera fosse verdade (e ele estava torcendo para que fosse verdade), ele seria capaz de despertar de uma vez por todas sua magia até então adormecida, e assim ele deixaria de ser um peso morto para Orfeu, e assim ele seria capaz de corresponder às expectativas do pai.

Segundo o livro de Orfeu, o Festival da Lua Azul era um antigo rito de passagem para jovens bruxas que chegavam aos quinze anos, onde seria passado para a mais nova toda a sabedoria antiga escrita em um livro, no caso dos garotos aquele ritual serviria para canalizar o poder dos elementos para um determinado objeto.

Em muitos dos casos, um novo livro em branco era entregue à bruxa ou mago mais novo para que este escrevesse seus próprios ensinamentos sobre a magia, uma nova visão do que já estava sendo repassado para ele ou ela através dos anos, e para isso era delegado algo místico que fizesse enxergar o tecido mágico do universo.

Teoricamente seu pai havia lhe explicando como ocorria esse ritual de magia. Ele deveria ser feito na segunda lua cheia do mês, quando o tecido mágico estava mais forte, e as sete dimensões alinhadas. Esse ritual servia para dar energia mágica a objetos e seres místicos que seriam os guias nessa nova jornada e ajudariam esses magos a desenvolver totalmente seus poderes.

─ É bem simples. ─ Lucca explicava aos amigos. ─ Vocês farão um círculo em volta de mim segurando a forma básica de um elemento.

─ Isso é bem fácil. ─ Afirmou Adam em tom irônico.

─ Sim.  ─ Disse ele. ─ Qualquer um é capaz de fazê-lo.

─ Hei, não precisa esculachar cara. ─ Respondeu Adam sorrindo.

─ Só segurem os objetos e deixem o resto comigo está bem!?

Apollo Souza

SOBRE MIM
Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudonimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal- RN. Formou –se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acarau no ano de 2012 na cidade de Santo Antonio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias historias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância.
Publicou seu primeiro trabalho na Bookess editora, ao transformar sua tese de graduação em pedagogia em livro, decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.

 

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