Anjos de Metal: Capitulo 10 – Premonição

Anjos de Metal: Capitulo 10 – Premonição

Em um solavanco Alice acordou assustada.

─ Alice Pacheco! ─ A voz da professora sentada em sua mesa a trouxe de volta à realidade monótona da sala de aula.

Aquele era o garoto dos seus sonhos, se é que aquilo podia ser chamado de sonho, tendo em vista que Alice era incapaz de dormir. Desde os oito anos de idade, Alice entrava em uma espécie de transe, que fazia com que ela tivesse essas visões do garoto enjaulado.

Depois do que aconteceu no porão há mais ou menos uma semana atrás, Alice vigiava Lucca e seu grupo todas as horas da noite. Usava seus poderes para colocar espi­ões para segui-los durante todos os dias naquela semana. Não era normal um ser humano ser imune aos poderes hipnóticos de Alice, a única hipótese plausível para aque­le fato era que aquele garoto que ela viu no porão seria como ela, ─ um vampiro, ─ mesmo essa hipótese sendo verdadeira ainda havia um grande furo nessa teoria, co­mo ele conseguia sair durante o dia? Como ele fez aquelas luzes explodirem daquele jeito?

Todas as luzes explodiram fazendo Alice perder a vi­são por alguns segundos, os eletrodomésticos no lugar pareciam ter ganhado vida, os computadores se ligavam sozinhos, objetos tremeluziam como se uma aura fantas­magórica estivesse possuindo os objetos.

Alice nunca tinha visto uma coisa como aquela na vi­da, em um acesso de raiva Lucca deixou o lugar em fran­galhos, todos os equipamentos eletrônicos piraram e fize­ram Alice quase perder o controle.

─ Qual a resposta Alice? ─ Perguntou a professora com a voz enérgica e impaciente.

─ Han? ─ Perguntou ela sem entender.

─ Qual a resposta para a questão cinco do exercício?

Voltando à tona Alice não fazia a mínima ideia de qual seria o assunto em questão, ela não tinha aberto o livro de química e muito menos tinha feito aquele exercí­cio. Ela apenas concentrou-se nos olhos da professora encarando-a descaradamente. A menina era capaz de ou­vir uma vozinha abafada e parecia vir de dentro da mente da professora, que repetia:

“─ H2O2, 2 moléculas de oxigênio e 2 de hidrogênio. Está na cara que ela não sabe a resposta”.

─ Água oxigenada. ─ Disse ela sem cerimônia com um sorriso. ─ Duas moléculas de hidrogênio e duas de oxigênio.

Essa era uma ótima habilidade para uma vampira, a habilidade de ler mentes, isso fazia dela uma expert em qualquer assunto, bastava que ela fixasse seus olhos em alguém para que mergulhasse nos confins de sua mente.

─ Muito bem Alice. ─ Limitou-se a dizer a professora.

A menina não pareceu se importar com o elogio rece­bido pela resposta, ela estava mais preocupada quando Lucca iria aparecer no colégio. Desde o ocorrido no porão ela não tinha visto nenhum dos garotos, o único lugar que ela encontrava eles era no parque da cidade sempre com os instrumentos tocando ou batucando alguma coisa.

Ela estava obcecada por eles, Lucca em especial, ele parecia ser o garoto de seus sonhos. Alice estava sempre desenhando o rosto de Lucca, mesmo antes de conhecê-lo ela já o desenhava. Pastas e mais pastas repletas de dese­nhos com os mesmos rostos, um era o de Lucca o outro era o de um homem de uns trinta anos de idade que sem­pre estava na companhia de Lucca em seus “sonhos”.

Aquela mesma cena se repetia dia após dia desde aquele primeiro encontro, ele não saia de sua mente em nenhum momento:

“─ Como um garoto poderia deixar Alice daquele jei­to” ─ Ela estava atordoada com a ideia de encontrá-lo, mas era preciso.

Alice tinha que enfrentá-lo mais uma vez, ela tinha que encará-lo de perto para fazer as perguntas que per­turbavam seus pensamentos, descobrir o porquê de sua imunidade psíquica, será que seus poderes estariam fa­lhando, ou seria apenas alguma neurose de sua cabeça.

Ela simplesmente não tinha as respostas.

 

***

 

A suave brisa noturna, que corria pela reserva, fazia Alice se lembrar do tempo em que tinha passado com a mãe nas montanhas do Himalaia uns sete anos antes, a temperatura amena do lugar tornava mais fácil a percep­ção de movimentos e assim ela poderia caçar animais maiores para aplacar sua sede de sangue.

O sangue animal não tinha o mesmo poder nutritivo do sangue humano, mas dava a Alice o que era necessário para a sua sobrevivência, sendo assim, ela era conhecida como uma vampira vegetariana, por se alimentar de for­ma diferente dos demais vampiros.

Aquela parte da reserva era relativamente nova para ela, que nunca tinha fugido tanto da trilha de 10 km habi­tual em que ela e Eurídice vinham seguindo. O local era belíssimo, cachoeiras percorriam enormes paredões es­condendo cavernas onde os animais da noite se abriga­vam durante o dia, os lagos eram tão límpidos que era possível ver o emaranhado de vida que ele continha à noite tudo se revelava de forma surpreendentemente bela e dos 200 mil metros quadrados, apenas 90 quilômetros quadrados eram disponível ao público, sendo desse total apenas 10% usado pelo parque.

Ela já estava ali há algum tempo, pensando no que vinha acontecendo desde o primeiro encontro com aquele garoto, até então ela nunca sentira isso em sua vida (se é que aquilo podia ser chamado de vida).

Seus sentidos estavam confusos, um misto de raiva e medo fazia seu coração bater mais forte, pulsando o san­gue em suas veias, espalhando-o por todo seu corpo e fazendo seu rosto corar. Alice estava um tanto intrigada com o ocorrido e isso fez com que ela se deixasse levar por uma pessoa que ela nunca havia visto na vida até fa­zendo seu rosto corar três semanas atrás.

Sentada em um galho grosso da árvore mais antiga do parque, Alice observava a forma e o brilho da lua sen­do encoberta por uma nuvem errante. Levantando uma das mãos na frente do rosto Alice se perguntava como aquela lua havia ganhado aquele tom vermelho intenso, igual aos seus olhos.

“─ Essa lua é igual a mim”. ─ Ela pensou. “─ Um la­do escuro e imperfeito, escondido de tudo e de todos, e um lado belo e iluminado que faz com que as pessoas se apaixonem“.

 

***

 

A praça da reserva servia como centro de eventos da cidade, tudo acontecia ali: movimentos culturais, festas e eventos de caridade, piqueniques e acampamentos de verão. Aquele lugar era praticamente o centro turístico local.

Este era o evento mais esperado do ano para a popu­lação de Rairá do Sul, pois o evento comemorava os 205 anos de fundação da cidade, a semana estava cheia de atrações culturais e artísticas, uma oportunidade anual para as pessoas daquele lugar afastado serem o centro das atenções, pelo menos por alguns dias.

Exposição de artistas locais, músicas, peças teatrais, espetáculos de dança e palestras estavam entre as atrações da semana. Uma espécie de feira artesanal ficava exposta com a produção dos moradores, entre iguarias e produtos rústicos vindos da terra. Doces, compotas, chapéus e cola­res eram apenas parte do que era vendido ali.

O festival era organizado pelos professores do Institu­to Para Jovens Eugênio Salomão, com o auxílio da prefei­tura municipal, para atrair compradores e investidores para a cidade, o que rendia alguns trocados a mais no fim da semana de trabalho.

O show de abertura era apenas o começo, e tinha como propósito fazer os jovens participarem das festivi­dades locais, as apresentações eram uma espécie de servi­ço comunitário que os jovens tinham a obrigação de fazer para obter uma espécie de crédito extra.

─ É com o imenso prazer. ─ Iniciou um homem de terno e gravata que acabara de subir no palco improvisado. ─ Que eu inicio as festividades do 59º festival cultural da cidade…

Apollo Souza

SOBRE MIM
Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudonimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal- RN. Formou –se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acarau no ano de 2012 na cidade de Santo Antonio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias historias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância.
Publicou seu primeiro trabalho na Bookess editora, ao transformar sua tese de graduação em pedagogia em livro, decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.