Anjos de Metal: Capítulo 1 – Rito de passagem

Anjos de Metal: Capítulo 1 – Rito de passagem

– Apartamento nº 3.

A velha senhora conferiu o dinheiro, entregou as chaves do quarto e conferiu a assinatura do recibo, depois guardou tudo em uma gaveta. 

 Saindo detrás do balcão para acompanha-lo num tour pela velha pousada, como era de costume em uma cidade do interior. Aquele pequeno gesto tinha o intuito de fazer com que os hospedes se sentissem acolhidos. O lugar era simples porem muito aconchegante, mostrando a hospitalidade interiorana. A mulher parecia estuda-lo com os olhos esperando uma brecha para puxar assunto, ela estava com um olhar caloroso e um largo sorriso.

Sem muito mais o que fazer, a mulher decide começar o assunto.

– O que pretende aqui? – Ela perguntou desviando o olhar. – Passeios ou negócios.

– Estou apenas de passagem, não devo me demorar. – Disse ele.

– De onde o senhor é?

– Eu sou um peregrino, não tenho nenhum lugar para ir ou para retornar.

– Que interessante. Nunca hospedei um peregrino antes.

O homem apenas sorriu em resposta, um sorriso sem a menor vontade. Era como se ele dissesse ”eu não dou a mínima para isso.”.

 – As refeições são servidas às 12h o almoço e as 18: horas o jantar. Não servimos o café da manha. – Ela disse de maneira automática, percebendo a indireta ela apenas o guiou em silencio pelo salão, mostrando a ele um portão de ferro fundido.

O sorriso em seu rosto simplesmente desapareceu, ela havia entendido a mensagem do novo hospede, “eu não estou a fim de conversa”.

– Tem um mercado com uma mini padaria a duas quadras seguindo a rua aqui em frente. La você poderá fazer um lanche ou comprar qualquer outra coisa que precise. – Ela completou ainda com a voz doce porem comedida . 

– Tudo bem. – ele respondeu indiferente.

– Seu chaveiro abre três portas. – ela continuou mostrando-lhe um portão de ferro que dava acesso à rua. – a primeira abre este portão, a segunda aquela porta. – ela disse apontando para o topo da escada. – a terceira abrira a porta do seu apartamento.

Como se memorizasse mentalmente o que a mulher dizia Sam a acompanhou ate o andar de cima onde ficavam os apartamentos, carregando consigo apenas uma velha mochila surrada de viagem.

– O acesso ao restaurante só é permitido aos hospedes a partir das 10h da manha, quando começamos a preparação do almoço.

O grande vão servia de recepção e restaurante, o que fazia com que os clientes atravessassem uma fila de mesas e cadeiras ate chegar ao balcão da recepção. Uma plaquinha de papelão pregado uma porta ao lado da recepção indicava o banheiro.

De onde eles estavam ele pode perceber o movimento que vinha da parte de traz do balcão, algumas vozes distintas cochichavam e ouviam-se risinhos baixos, foi então que de longe o homem notou estar sendo observado, presumindo ser ele mesmo a causa de tal histeria.

A mulher remexeu em seu chaveiro rapidamente ate encontrar a chave que cabia na porta de entrada, apressando-se em mostrar ao homem o acesso à parte superior do lugar.

A mulher estava vermelha de vergonha, suas bochechas estavam tão coradas que mais pareciam dois tomates maduros.

Uma das garotas que estavam na cozinha soltou um “quero um desses no meu quarto.” Enquanto varria a entrada da cozinha

– Queira desculpar, as meninas não fizeram por mal. – ela se apressou em dizer, percebendo a conversa que elas tinham a respeito do viajante.

– Tudo bem, não se incomode. Isso é normal aos jovens.

Eles subiram as escadas sem dizer uma palavra a respeito do que acontecera a pouco, a senhora não conseguia esconder a vergonha que estava sentido.

Ela aparentava ter não mais que 50 anos, estava usando um vestido floral rodado preso por um elástico abaixo dos seios volumosos e flácidos, tinha a estatura mediana e estava um pouco a cima do peso. Seu rosto era sofrido, cheio de rugas e manchas escuras, suas mãos calejadas tremiam como se esperasse uma represália.

– A porta é antiga – ela disse quando chegaram ao topo. – você tem que fazer uma forcinha para abri-la.

A porta dava acesso a uma espécie de antessala onde uma rede balançava sozinha de frente para uma janela aberta, do lado oposto a essa janela ficava a porta de numero três, que correspondia ao seu apartamento.

Aquele espaço comportava cinco quartos de igual tamanho dispostos em um corredor estreito sendo todos numerados com emborrachado verde na porta, ficando do um ao três de um lado e o quatro e cinco do outro.

Ela abriu a porta do apartamento. (se é que aquilo poderia ser chamado de apartamento), ali continha apenas uma cama de casal e um colchão de espuma velho com dois lençóis dobrados e um travesseiro puído na cabeceira.

– O quarto é simples. Disse a mulher em tom de desculpa.

– Não se preocupe com isso. – Ele respondeu. – Esta ótimo para mim.

– O banheiro fica ali. – disse ela apontando para uma porta dentro do quarto. – O chuveiro demora um pouco para funcionar e a água é fria. Qualquer coisa estou às ordens.

– Obrigado. – Ele disse automaticamente colocando a bolsa na cama.

Samuel olhou o quarto mais uma vez, enquanto ajeitava a mochila, procurando por alguma coisa fora do normal. Parou em frente a janela apreciando um pouco a vista, na rua o barulho dos carros e o movimento das pessoas era frenético, a pousada se localizava próximo ao centro comercial da cidade.

– Disponha. – ela respondeu educadamente. – Se precisar é só dar um pulinho na recepção. Eu me chamo Aurora. Espero sinceramente que aproveite a estadia.

– Farei isso dona Aurora.

A senhora se retirou fechando a porta, deixando o hospede recém instalado sozinho em seus aposentos.

***

Depois de alguns minutos sozinho, Samuel verificou o corredor, tudo estava tranquilo. Em seguida pendurou do lado de fora da porta uma plaquinha feita de papelão com um “NÃO PERTURBE” escrito em tinta vermelha com uma caligrafia quase hieroglífica e indecifrável ,  fechou a porta na chave para ter  certeza de que ninguém o incomodaria.

Agora ele podia se concentrar em sua verdadeira tarefa, o verdadeiro propósito de ele estar ali. Samuel abriu a mochila e retirou um saquinho de veludo e de dentro dele quatro pequenas pedras, cada uma com uma cor diferente, e as colocou sobre a cama em uma ordem que lembrava um pentagrama.

Procurou nos bolsos ate encontrar um pedaço de papel amassado e uma caneta quase sem tinta, ele verificou o papel e então rabiscou no colchão da cama um pentagrama entre as quatro pedras. 

Em seguida colocou bem no centro dele um livro grosso com capa de couro marrom e paginas amareladas pelo tempo. Por uma fração de segundos aquele homem de meia idade pareceu se perder, vagando em antigas lembranças.

Em sua mente uma única cena se repetia dia após dia, a voz de seu melhor amigo e mentor ainda parecia viva em seus ouvidos.

“Encontre os novos guardiões!”

Em seu leito de morte o mestre entregou a ele a ultima pedra elementar para que ele, o ultimo guardião ainda vivo procurasse a nova geração e os guiasse para a maior missão de suas vidas.

– Agora cabe a mim encontra-los. – ele pensou. – Eu não posso desistir agora.  – Disse Sammy retirando um cordão de seu pescoço.

A pequena pedra presa ao cordão de prata irradiava uma fraca luz branca, que fez as outras pedras na cama flutuarem em círculos próximos ao livro.

– Terra, fogo, água e ar, unam se em um para a criação concretizar. Mostrem-me o caminho, revelando meu verdadeiro destino.

No centro do circulo formado pelas pedras flutuantes o cordão irradiava cada vez mais energia, fazendo o quarto se iluminar com as varias cores formando uma pequena aurora boreal no teto.

Em meio às luzes multi coloridas seis rostos surgiram diante dele. Rosto que ele certamente não conhecia mais de algum modo ele iria encontra-los.

Ele quase não acreditou no que seus olhos contemplavam. Samuel passara boa parte de sua vida viajando todo o mundo à procura dos descendentes das antigas tribos e agora eles estavam próximos.

– Minha centelha de poder esta se esvaindo. Chegou à hora de passa-la a diante.

As pedras voltaram a sua formação dentro do pentagrama desenhado sobre a cama, ao colocar o colar de volta em seu pescoço, Sam sentiu a pedra queimar seu peito.  Um calor aconchegante que ele não sentia há muito tempo. Um novo ciclo se iniciaria em breve.

Sua busca estava próxima do fim. 

Apollo Souza

SOBRE MIM
Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudonimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal- RN. Formou –se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acarau no ano de 2012 na cidade de Santo Antonio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias historias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância.
Publicou seu primeiro trabalho na Bookess editora, ao transformar sua tese de graduação em pedagogia em livro, decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.

  • Andrea Bertoldo

    Adorei!!!

    • Apollo Souza

      Que bom… se liga nos proximos episodios hehehe

    • Anjo Nerd

      tem muito mais cosas por ai…

  • Gildo Lima

    Muito bom, a cada frase que avanço no texto mais curiosidade tenho em saber o que vai acontecer.

    • Apollo Souza

      Tem muita coisa para acontecer… so posso adiantar que no proximo capitulo segredos serão descobertos rsrs
      apenas fique de olho rs

    • Anjo Nerd

      Aguarde…

  • Isa Miranda

    Show … Com certeza vou acompanhar adoro histórias assim s2
    Parabéns!

    • Apollo Souza

      Espero que goste…
      Tem muita coisa vindo por ai…

    • Anjo Nerd

      Obrigadoooo