A Hora morta: Conto de terror – “Diários”

A Hora morta: Conto de terror – “Diários”

 

DIÁRIOS

Autor: Pedro Montanaro

 

Vi aquela mulher descendo a rua. Estava de vestido amarelo, cabelos alisados no ferro e perfume nervoso – na verdade, ela estava nervosa. Olhava de cima a baixo, de um lado pro outro umas três ou quatro vezes, e depois de ter a mais absoluta das certezas, atravessava os cruzamentos muito rapidamente, quase caindo de suas pernas. E a mesma palidez e os mesmos movimentos de olhos nas travessas seguintes. Resolvi segui-la. Não tinha nada a fazer e minha casa não exalava nem o cheiro do jantar. Assim como do almoço ou dos cigarros de mamãe. Fui seguindo a moça nervosa até a rua de baixo, aquela da casa velha.

De passos lerdos e vagarosos, como se o passeio estivesse molhado com água e sabão, ela foi andando até o velho casebre. Chegou na sua frente e recuou. Voltou até o começa da rua, como se ali tivesse o ar mais fresco do mundo. Voltou de respiração presa, tocou no portãozinho velho e capenga que separava a rua do privado e adentrou o terreno. Era uma casa velha e intimidadora. Não tinha nem dois andares, nem uma fonte pomposa ornando o jardim – e nem tinha jardim! Mas por algum motivo aquele casebre impunha respeito a qualquer um! Algo na sua pintura descascada, ou nas bananeiras que viviam no pouco quintal, ou no portãozinho sequelado, ou…
Sua simples presença já nos dava medo intimidado e, por segundos, fascinação e, por horas, pesadelos medonhos. Casa, respeito é o teu nome!

Foi andando até a varandinha. Olhou janelas adentro, espirrou um tanto, olhou mais outro e andou em volta da casa. Passou pelas bananeiras. Pisou nas bananas. Não caiu pois tinha onde segurar. Chegou até os fundos onde tinha um limoeiro e uma pereira. As frutas até eram bonitas, mas estavam recheadas de insetos e picadas. A inanição era melhor. O terreno também não era muito grande: era o casebre abandonado ocupando sua metade; eram as bananeiras e suas raízes; eram o limoeiro e a pereira recheados de mato grosso e, por fim, uma edícula destelhada fundindo-se aos muros de trás. E um cupinzeiro charmoso ao lado sul do norte da casa.

A mulher ficara observando tudo aquilo com medo intenso e curiosidade muito óbvia. Vi seus pés indo até o limoeiro mas recuando. E indo até a pereira e recuando também. E indo até a edícula com passos medrosos. Não voltou. Foi. Viu que não tinha nada. Voltou com carrapichos ornando a saia, suas meias fininhas e sua pele polaca.

Sentou-se em um banquinho improvisado com tábuas de madeira e tijolos para caçar os carrapichos. Os tirou de si e de sua roupa. A cada carrapicho, uma dorzinha e uma careta. Por segundos esqueci-me do que estava a fazer ali ou de quem era aquela mulher. Apenas por segundos.
De repente, oriundo do casebre, ouvimos um chiado branco, desses de rádio fora de estação. De segundo a segundo o chiado mudava, como se alguém estivesse a testar estação a estação. A mulher embranqueceu-se em medo. As maçãs de seu rosto sumiram em horror. Um passo pra trás mas outro pra frente. Eu tentei gritar para ela ir embora, pois sentia em mim um medo e uma intuição. Gritei com as paredes sujas.

Depois de muito procurar, a rádio estancou-se nas notícias do Repórter Esso. O tempo pareceu parar. O sol nem se movia mais e no céu nenhuma nuvem. Três notícias depois, ainda intuía. E as maçãs ainda estavam lívidas.
Sete notícias depois e um reclame publicitário, a porta de ferro e vidro dos fundilhos se abriu. Ali, um homem de terno vermelho e gravata negra preenchia seu umbral. Me senti mal ao ver aquela figura soturna. Não sabia o motivo de sentir medo, mas o sentia em toda a sua plenitude. À flor da pele, o receio medroso. À flor de mim, raiva por ela estar ali e ódio causticante por aquele homem.

A figura estendeu a mão direita. Esperava pacientemente o cumprimento da mulher e suas mãos frias. Pacientemente. Muito pacientemente. Dois reclames publicitários e ele nem pigarreou. Quase o quarto reclame e ela saiu de sua terrível catatonia. De novo, muito pacientemente, ele esperou-a caminhar até sua mão estendida. Ela com medo, ele com cãibra. Muita cãibra. Assim que ela chegou próximo de seus dedos bem tratados, ele a agarrou com força raivosa. Suas mãos deslizavam pelas curvas veneráveis da pobre moça com a mesma destreza de um guitarrista espanhol.
Ao ver aquilo, senti-me mal, impotente e fraca! Sentia em mim um passado. Do tipo não tão distante mas não tão recente. Do tipo que marca, que nos deixa com sangue pisado. E do tipo que eu não me recordava. Que raiva!

Só um nome consegui ouvir. Maria Paula. Maria, mãe de Jesus. Paula, versão feminina de Paulo. Apóstolo Paulo. Paulo de Tarso. São Paulo, Bairro da Liberdade, Rua São Joaquim, 501. E o trânsito a divagar. Ao mesmo tempo que Maria Paula adentrava a casa, ele a despia com desejo insano e suado. Respiração pesada e saliva trasbordante. Enquanto ela se aproximava de uma velha pilastra, sua saia ia desmanchando-se de seu corpo e sua calcinha era revelada. Enquanto a calcinha dela era revelada, ele ficava de desejo duro. Conforme o desejo pungia, o pescoço dela transbordava em cuspe paranóico e doentio. Molhava-a de saliva e tensão. Arrancou-lhe a calcinha e a virgindade. Mordeu-lhe as partes rosas até ficarem vermelhas. Ela não gemia, pedia socorro com grunhidos chorosos. Senti-me atônita. Perdida. Desarmada e sem chão. O que fazer?
Transaram. Ele transou.

Eu, sem saber o que fazer e de suor frio, corri de volta para minha casa sem olhar dos lados, com as pupilas dilatadas e molhadas de desespero!
Eu sabia o que estava a acontecer. Sentia o sabor daquele homem… Não sabia dizer onde o experimentara ou o sentira antes, mas sabia. Apenas sabia. Sabia aquilo. Conhecia. Sentia de novo. E o suor esfriava casa vez mais. Até que eu cheguei na minha casa. Cheguei mas ela não estava lá. Sem mais luzes. Sem mais o tapete verde de Vovó. Sem mais a poltrona onde mamãe cosia as toalhas de mesa, cobertores e… Sem mais… Não conseguia entender! O que estava a acontecer?

Subi até o meu quarto. Intacto. Triste. Avermelhado com as luzes de São Jorge. Rosas. Uma foto minha. E a luz com mais um ou dois dias pra queimar.
Ouvi uma movimentação lá embaixo. A porta da sala e seu ruído chato. Os passos de papai e mamãe. Passos lentos. Calculados e doloridos. Doíam ao bater no assoalho. Desci. Desci mas não entendi. Desci pra descobrir o que estava a acontecer.

Eles não me ouviram. Não me viram. Não me sentiram. Seus olhos manchados estavam doloridos. Mãe. Pai. Não conseguiam ouvir. Não. O que aconteceu? Por que não me ouvem?
Até que um sopro frio me atingiu… Gritei surdamente. Tudo retornou… Descobri. Redescobri o que estava acontecendo…

Quem me é responsável. Responsável, quem é Jorge Trufatto?

CONTINUA no dia 10 de maio