A Dama Negra – 2ª T Nocturna IV – Sangue Puro

A Dama Negra – 2ª T Nocturna IV – Sangue Puro

Nocturna IV

Sangue Puro

Vampiros de uma casta abaixo dos primeiros seres da noite conhecidos como os primordiais, que em era longínqua andaram pela terra. Vampiros Sangue Puros, sem mistura de sangue de outros seres em sua linhagem. Poderosos, são os únicos que transformam um humano em vampiro, isso se o humano sobreviver ao “doce” beijo de suas presas. São em grande maioria senhores de seus clãs, alguns anciões mantém a linhagem pura. Seres raros em época atual, adorados pelo demais vampiros inferiores, que se aproximam para ter o privilégio de tomar o sangue “limpo” ou simplesmente roubar-lhes seu coração, que é fonte de todo o poder.

O corpo estava dolorido, mas não era a dor o que mais o incomodava. Levantou-se devagar e sentou no chão, o rosto coberto esboçou uma careta. Estava furioso por ter perdido seu alvo, falhara na missão de eliminar a todos. Agora precisava descobrir quem eram aqueles dois que apareceram de repente no refúgio e fugiram naquele maldito carro. Bernard afastou os manequins de si e se levantou batendo a roupa encharcada e repleta de estilhaços de vidro. Se fosse um humano comum poderia ter morrido com aquele ataque. Graças à bondade de sua senhora em alimentá-lo com seu sangue puro por tantos séculos, o corpo do carniçal era tão resistente quanto ao de um vampiro.

Olhou-se e verificou que as roupas grossas haviam sido o suficiente para impedirem o vidro de cortá-lo, o que era bom, assim não deixaria nenhum rastro de sangue para trás. Ajeitou o capacete na cabeça e achou melhor não retirá-lo por hora, não correria o risco de ser reconhecido. O vidro do visor estava levemente trincado, mas conseguia enxergar o suficiente para sair dali. Agora precisava ir embora antes que a polícia chegasse. Bufando baixo enquanto mancava, o humano se apoiou na parede e chutou o que sobrara do vidro da vitrine e o quebrou o suficiente para poder sair sem correr o risco de se cortar. Atravessou e saiu diante da loja procurando sua moto. Sentiu certa satisfação ao ver que o veículo estava ali e não havia sido destruído, apenas os danos por causa do tombo. Foi até a moto e ergueu-a com um gemido, o corpo reclamava os ferimentos. Ignorou a dor e montou, não seria aquilo que o impediria de completar sua missão. Ligou o veículo e fungou satisfeito ao ver que pegara de primeira.

Olhou mais uma vez ao redor e deu a partida, acelerando para sair dali. Enquanto dirigia para seu esconderijo, pensava no que havia acontecido. Aquelas sombras sobrenaturais eram fortes, assim como aquela manipulação de água, aqueles não eram vampiros quaisquer, eram poderosos. Precisava descobrir quem eram eles, começaria procurando pela placa do carro, não havia o visto por causa daquele breu, mas procuraria imagens do veículo nas gravações das câmeras de segurança, no período em que o condutor havia o estacionado para entrar no prédio. Dirigiu até um velho prédio na periferia e quando estacionou um vampiro saiu e andou até ele.

– Livre-se da moto e traga-me outra – ordenou e lhe jogou as chaves.

O vampiro acenou com a cabeça e Bernard o deixou para trás enquanto entrava no prédio e seguia até seus aposentos. Chegando lá, tirou aquelas roupas molhadas e rapidamente colocou vestes novas e secas idênticas às anteriores. Deixou o capacete danificado e pegou o reserva, mas antes de colocá-lo pegou o celular e iniciou uma ligação, rapidamente sendo atendido.

– Inicie o segundo ataque, estou à caminho.

Vampiros…

O imaginário humano os atribui a lendas ou fantasia, mostradas em filmes, livros e séries. Romancearam nossa existência em um conto de fadas.

Conto de fadas?! Tsc… Conto de horror. A verdade dos fatos é que somos os predadores, a maioria age por instinto de sobrevivência onde a lei do mais forte prevalece. Aqueles que fazem de tudo para não perder aquilo que conquistaram, basicamente o seu ‘gado’. Os humanos nada mais são que gado, onde pela surdina são levados a crer que controlam suas existências. Criar algo e dar a eles para fantasiar, nada mais é que mera manipulação dos grandes sangues puros que há milênios controlam seus rebanhos.

Dessa forma que os donos de cada região mantém suas terras sobre controle. Usando o ‘mito’ romanceado dos vampiros para encobrir sua real natureza, a fera predadora e sanguinária.

(…)

Lya olhava Gianni se arrumando de frente ao espelho, admirando-o e notando o quanto parecia mais forte em sua presença e poder. Sentia a energia dele crescendo e uma estranha sensação que dali surgiria algo que nem ela mesma poderia imaginar. Talvez seu amigo Solomon estivesse certo, Gianni podia ser mais do que um mero humano e o fato dela tê-lo transformado podia ter sido o estopim aceso correndo pelo pavio, quase perto de explodir.

Gianni tinha acabado de tomar um banho e vestiu uma roupa simples: blusa, calça jeans e um casaco aberto por cima. Quando abaixou para pegar o sapato, notou Lya observando-o. Os olhos esverdeados, brilhantes e atentos a cada gesto dele, lhe arrepiaram. Ofegou baixo e caminhou até a cama, sentando na beira ao lado dela. Fitou-a um tempo e sorriu leve, voltando aos sapatos que tinha na outra mão.

– Algo errado? – Perguntou enquanto afrouxava o cadarço do mocassim de couro preto.

Ela balançou a cabeça de leve negando e depois virou o rosto olhando para o lado oposto, ficou um pouco sem jeito, estava exagerando naquele olhar de admiração e tinha noção disso.

– Eu só estava notando que você está mais forte. – Passou a mão no rosto e olhos piscando algumas vezes, e voltou a face a ele sorrindo. – Está treinando?

Ele calçou o primeiro par do pé esquerdo e olhava-a enquanto amarrava o cadarço.

– Um pouco, ajuda a manter minha mente ocupada ao menos para os pensamentos malignos que sempre tenho… – Parou de falar e ficou um pouco pensativo olhando para frente, balançou leve a cabeça, como aquele gesto fizesse sumir aqueles pensamentos. Inspirou fundo e voltou ao que fazia pegando o outro par do sapato.

– Pensamentos malignos?! – Lya falou receosa com a resposta.

– Sim, vem sempre junto com a sede, mas aprendi a controlar de certa forma. – Calçou o outro par do sapato, assim que amarrou voltou à sua posição sentado ao lado dela e olhou-a um tempo, por fim falou demonstando curiosidade. – Como foi com você? Quando acordou como vampira, o que sentiu?

Lya inclinou o rosto de lado surpresa com a pergunta, porém não iria deixar de responder, passou a mão em uma mecha de seus cabelos colocando atrás da orelha e sorriu suave voltando seus pensamentos ao passado.

– Eu fiquei com medo, muito medo. – Virou o rosto para ele. – Eu tinha acabado de completar 18 anos, era noviça e tinha medo de ir para o inferno por ter sido transformada em vampira.

Gianni ficou em silêncio engoliu seco, já que para ele era uma sensação parecida.

– Nosso grupo estava feliz por ir a Roma, imagina naquele século um pequeno convento sem muitos recursos ser convidado para conhecer o Papa. – Lya sorriu. – Eu era a mais empolgada.

Gianni sorriu e esperou que ela continuasse a contar sua história.

– Alguns meses antes dessa notícia, recebemos um bispo que queria conhecer o convento e o trabalho que fazíamos com os pobres. – Lya mudou a expressão, ficou séria e sombria. – Um simples convento recebendo um membro do alto escalão do clero de Roma, ele era envolvente e sempre com um sorriso estranho no canto dos lábios, porém de uma conversa que cativava a todos.

– Menos você, pelo que percebi. – Gianni notou a mudança de expressão dela e ficou mais atento. – O que aconteceu?

– Ele não era bem o que podia se dizer de um santo homem. – Lya inspirou fundo. – Dom João V era de voz mansa e sempre prestativo. – Lya ficava cada vez mais tensa. – Eu percebia isso, mas as demais irmãs e noviças não, elas estavam encantadas.

Gianni segurou a mão dela e entrelaçou os dedos afagando com carinho para lhe encorajar a continuar. Lya sorriu olhando as mãos unidas e inspirou fundo voltando a falar.

– Eu falei com a líder do convento, mas do que adiantava? Elas não acreditavam e achavam que estava vendo coisas demais. Deixei para lá por um tempo, foi quando ele veio com a tal visita ao Vaticano, ficamos felizes e naquela manhã saímos em viagem para Roma. – Aproximou mais de Gianni deslizando delicadamente seu corpo até ele, instintivamente na necessidade de ter um afago seu. – Foi na primeira noite que chegamos a Roma e fomos levadas a um convento perto do Vaticano, estávamos todas muito felizes e nos preparávamos para dormir. – Engoliu seco – Não tivemos muita chance, aquelas coisas pularam em cima de nós. Gritamos por ajuda, corri para a porta e descobri que estava trancada… Eu vi uma a uma ser devorada pelas criaturas que tomavam seu sangue e estraçalhavam a pele das irmãs… Me encolhi em um canto e comecei a orar pedindo a Deus que me salvasse. – Ofegou baixo tomando fôlego para continuar. -Nesse momento, ele abriu a porta e entrou cercado de sombras, olhos vermelhos e presas afiadas, caminhou entre as demais feras que ainda devoravam as freiras mortas no chão. – Fitou a mão de seu amado que lhe afagou encorajando a continuar. – Eu tremia de pavor, porque era muito forte a presença dele, um sangue puro controlador de sombras. Aqueles olhos vermelhos buscavam por algo ou alguém, olhou todos os corpos e por fim farejou o ar. Com um sorriso de quem havia encontrado o que procurava, expôs as presas, lembro do brilho delas em contato com os feixes de luz da lua que entravam pela frestas da janela. Escolhi ainda mais no canto do quarto atrás da cama quando ele apareceu de frente a mim, gritei apavorada pedindo para não morrer. – Apertou um pouco a mão de Gianni, tensa, lembrar daquele momento lhe trazia muita dor. – Ele agarrou-me pelo braço e ergueu no ar com uma facilidade que eu parecia uma boneca de pano sendo jogada de um lado para o outro daquele quarto, as outras feras não se aproximaram de mim, ficaram com medo dele.

– Esse vampiro devia ser bem poderoso para ser temido pelos demais, você não teria nenhuma chance de sobreviver. – Gianni afagava a mão dela enquanto a ouvia continuar.

– Sim, era não só um sangue puro qualquer, ele era de segunda linhagem, muito antigo e temido. – Uma breve pausa de quem se perdia em suas lembranças. – Conforme jogou-me longe, acabei torcendo o tornozelo e não consegui me levantar, a criatura envolta em sombras veio lentamente até mim, rindo e se divertindo enquanto me via arrastar pelo lugar na tentativa inútil de fugir. Ele começou a falar um italiano diferente, eu entendia uma ou outra palavra solta. Voltei a pedir para não morrer e ele agarrou-me pelo pescoço e ergueu novamente, quando voltou a falar entendi a frase nitidamente… “ Viverás se sobreviver ao meu beijo mortal.” – Fez um Gesto com os ombros. – E aqui estou, sobrevivi à transformação e venho andando pelo mundo desde então… – Soltou a mão dele e passou no rosto soltando um suspiro como quem quisesse aliviar a tensão naquele gesto de soltar o ar preso no peito.

– Esse sangue puro, ainda está por aí, presumo? – Curioso instigou ela a continuar falando.

– Não… Já foi eliminado… – Ficou muda olhando Gianni.

– Hum… Eliminado, entendo. – Fitou-a um pouco frustrado por ela não falar mais detalhes, estava começando a ficar feliz pelo fato dela finalmente começar a lhe contar a verdade.

– Gianni, foi a pior fase dessa existência vampírica… Não gosto muito de lembrar, mas se quer saber, eu mesma o matei. Ataquei, tomei seu sangue e arranquei o coração devorando em seguida. – Levantou um pouco irritada por ter falado com ele daquela forma. – Desculpa, você não tem nada haver com isso, foi passado.

Gianni acompanhou-a com o olhar até ela ficar de costas para ele. Inspirou fundo e levantou indo até ela, passou a mão sobre os ombros da sua amada e envolveu-a por trás dando um beijo tenro na nuca de Lya.

Aquele gesto amoleceu-a novamente e mesmo sem olha-lo sorriu e continuou a falar.

– Eu o queria morto, queria que pagasse assim como o maldito Dom João V, aquele humano era servo desse vampiro puro e levava sempre freiras para alimentar seu “senhor”. – Fechou os olhos e um riso perturbador brotou de seus lábios ao completar aquelas palavras. – Eu matei o humano com tanto prazer que o torturei até ver o brilho de vida sumir de seus olhos apavorados.

Gianni ao ouvir aquelas palavras ficou tenso, sentiu vir dela a mesma fúria que ele experimentava vez ou outra quando a raiva lhe consumia.

– Desculpe fazê-la lembrar, fiquei curioso… – Gianni ficou em silêncio.

– Eu entendo sua curiosidade. Queria lhe contar tantas coisas, mas isso significa o por em situações que não tenho direito de lhe expor. – Afastou-se de seus braços e virou de frente para ele. – Entenda que não é mentir, estou apenas evitando que entre em um mundo podre da qual não se tem mais volta.

Gianni olhava-a sério, levou a mão e tocou o rosto afagando a maçã da face com o polegar.

– Gianni, não fique com raiva, se não lhe conto tudo é para poupá-lo. – Engoliu seco e abraçou-o pousando o rosto sobre o peito dele. – O que você viu até hoje não chega nem a ser a parte pior do mundo dos vampiros, não quero que se corrompa e por isso prefiro que me odeie ao ter que deixá-lo entrar nesse mundo.

O vampiro envolveu-a em seus braços e acolheu-a com carinho ouvindo cada palavra em silêncio até que ela calou-se. Ficaram abraçados por um tempo até que ele respondeu.

– Você saiu de lá, não foi?

Lya levantou o rosto para encará-lo.

– Sim…

– Lya, acho que você está me subestimando.

– Não, por favor, não é isso, sei que está ficando forte, mas…

– Mas… – Estreitou os olhos . – O que tem medo que eu veja Lya?

Ela negou com a cabeça baixando o rosto.

– Existe muito mais do que imagina. Esse mundo à parte é o que destrói tudo o que imaginamos de certo ou errado. – Afastou-se dos braços dele. – Tem razão quando dizia que sou um demônio. – Andou até a cama e sentou baixando e pegando sua bota para calçar. – Eu tornei-me um.

– Lya… – Gianni se aproximou e agachou ficando apoiado em uma perna, e tocou o queixo dela fazendo olhá-lo. – Eu sei de suas barbáries do passado, posso imaginar que existam muitas outras mais, porém o que mais me preocupa é o fato de se esconder, de não me falar tudo e pior, eu tenho receio de descobrir da pior forma.

Ela segurou a mão dele cautelosa afastando um pouco de seu queixo, voltou a calçar as botas, levantou pegando seu sobretudo, vestiu e caminhou pelo quarto. Gianni levantou um pouco chateado com aquele silêncio, de pé ficou parado observando-a, havia decidido esperar o tempo dela.

– Eu espero, Lya.

– Espera? – Olhou-o surpresa.

– Sim, espero que conte-me tudo e peço a Dio que não demore. – Andou até a porta do quarto e abriu para ela passar. – Vamos?

– Não irá demorar… – Murmurou.

Ela o seguiu saindo do quarto, ambos foram até a sala e o grupo estava reunido sentado à mesa com o desjejum servido. Willian acenou para eles se sentarem e comerem também, Greg olhava torto à boneca que estava sentada no sofá da sala. Michael, que havia saído logo de manhã, já havia retornado para levar Lya e a boneca para casa, aguardava a hora deles saírem. Rice viera junto e olhava a casa com certo ar de desdém, ao ver Lya foi até ela sorrindo.

– Lya, nossa, pensei que nunca mais iria vê-la. – Fitou Gianni com o canto dos olhos ao parar ao lado de sua senhora. – Viemos lhe buscar. – Olhou para Mic, que estava de pé com as mãos nos bolsos perto da porta montando guarda.

– Logo iremos todos para casa, Rice. Agora vou comer. – Caminhou passando pela sala e olhou a boneca. – Anny, está bem?

A boneca mexeu a cabeça girando para fitar a sangue puro.

– Eu estou sim, Lya.

– Minha nossa… – Rice colocou a mão sobre a boca e se aproximou sentando no sofá de frente para a boneca.

Gianni estranhou aquela boneca, sentiu uma magia forte vindo dela e olhou intrigado para Lya.

– Ah, desculpe, acabou que de toda essa confusão não contei sobre a Anny. – Olhou Greg – Eu prometi ao Sr Greg que livraria ele da garotinha do ursinho de pelúcia. – Sentou a mesa depois de Greg puxar a cadeira enquanto olhava torto a boneca.

– Ela me da arrepios… Não sei o que é melhor, antes como fantasma ou agora como essa boneca que fala… – Greg estremeceu e voltou a sentar olhando Willian.

– Está dizendo que essa boneca é a alucinação de Greg? – Gianni questionou sentando na cadeira ao lado de Lya.

– Assombração, fantasma, espírito obsessor ou seja dê o nome que quiser, ela perseguia o Sr Greg porque ele matou toda família e jogou o trailer pegando fogo com ela dentro de um penhasco.

Gianni e Willian olharam o vampiro tatuado, surpresos com aquela revelação.

– Não acredito que aturei suas alucinações por conta disso! – Willian bufou. – Eu achando que você era maluco e precisava de cuidados.

– O que?! Eu disse que a via, você que não acreditou. – resmungou baixinho comendo uma tigela de cereal.

Gianni virou o rosto para a boneca e depois para Lya.

– Isso é cruel, mantê-la dessa forma dentro da boneca.

– Não vejo dessa forma, ela já estava sendo perseguida por espíritos malignos, logo iriam arrastá-la para o inferno. – Olhou Gianni como que falasse algo normal. – Eu a salvei de certa forma.

Gianni ficou um pouco tenso com aquelas palavras, voltou a sua atenção para a mesa e começou a pegar algo para comer.

– Ainda é cruel, Lya, viver dessa forma. – Olhava vez ou outra para a boneca. – Quero saber mais sobre seus reais poderes, mas agora tenho outras coisas para resolver. – Voltou a face para Willian. – Seu ombro? – Perguntou-lhe.

Willian tocou-o e girou leve dando uma leve estalada.

– Pronto para outra. – Riu fazendo uma careta logo em seguida. – Nem pensar outro tiro dessas balas, mas estou recuperando-me.

– Ótimo, precisamos descobrir quem fez aquilo.

Lya olhou a ambos e por fim falou.

– Eu quero saber, o que esta acontecendo?

Gianni voltou a face para ela, depois para Willian e por fim começaram ambos a contar tudo desde o começo, sobre os relatórios e as mortes dos sangues puros. Lya ouviu tudo atenta e perguntava uma coisa e outra para entender. Quando ambos relataram sobre as últimas palavras de Sebastian, a vampira ficou em silêncio uns segundos até que começou a falar.

– Existe um vampiro puro que é detentor de varias informações e como havia dito, ele investigou o passado de sua família e chegou ao clã Salvatore.

– Estava me investigando? – Gianni parou de comer e ficou atento a tudo que ela falava. – O que ele lhe contou sobre mim e esses vampiros?

– Sobre o clã Salvatore é que eram poderosos e governavam Roma, Regentes escolhidos pelo Vampiro Rei e confiado a eles a manter a ordem e o equilíbrio natural daquela região.- Desconversou sobre está investigando Gianni.

– Ordem e equilíbrio natural… Essas palavras me soam estranhas vindas de vampiros. – Gianni estava intrigado.

Lya sorriu com a forma dele de ver o lado de tudo ainda na visão humana, mas não iria falar daquilo naquele momento.

– Posso lhe dar aulas futuramente sobre a sociedade vampírica, mas voltemos ao clã Salvatore. – fez uma breve pausa. – O clã que por muito tempo controlava Roma foi dizimado em uma noite. Isabella Bragatti, a atual Regente, foi quem encontrou o último sobrevivente e segundo disseram ele, antes de morrer, lhe confiou a Regência por ela ter lhe ajudado. – Lya ficou um pouco cética com essa parte do relato. – Entendo de uma única coisa, se um membro do clã sobreviveu e Gianni é o que restou da família humana, acredito que ele virá até você de alguma forma.

Lya falou a Gianni parte do que descobriu com seu amigo Solomon, preferiu omitir a desconfiança dela em ele ser sempre vampiro e ter sido transformado em humano, as histórias batiam e os fatos ligavam cada vez mais Gianni ao vampirismo. Ele era vampiro, tinha quase certeza pelo fato de ter poderes ao ser transformado e conseguir por conta própria estudar e aperfeiçoar a manipulação das sombras. A surpresa estava ainda por vir, e se o tal sangue puro sobrevivente fosse Gianni? Seria o empecilho para Regente de Roma, já que por direito os Salvatores eram donos da região. Alarmada, tentou não transparecer a eles suas conclusões, preferiu procurar primeiro Solomon para descobrir uma forma de confirmar a desconfiança quase certa de Gianni ser o primogênito do clã Salvatore.

– Vir a mim? Não creio muito, se não, já teria me procurado.

– Quem garante? – Lya deu de ombros e voltou a comer.

Gianni ficou intrigado e voltou a comer para terminar seu desjejum.

– Lya, gostaria de conversar com esse seu amigo, é algo muito sério e possivelmente condiz com o fato de terem forjado minha morte. – Virou o corpo na cadeira para olha-la. – Poderia fazer isso, levar-me para falar com esse vampiro?

– Eu preciso falar com ele antes, Sr Straycker não costuma receber estranhos.

– Esses vampiros e suas manias, não recebem estranhos e sabem informações importantes. – Falava impaciente voltando a sentar de frente a mesa e tomando o café.

– Gianni, tem que entender uma coisa, Solomon é um vampiro antigo, não é como os que vivem misturados aos humanos, aliás ele detesta humanos, ainda mais transformados. – Fitou-o um tanto chateada com a reação dele. – Não sei se ele lhe receberia, por isso falarei com ele antes, estamos de acordo. – Inclinou a face olhando com leve sorriso ansiosa em que ele concordasse.

– Ok… Faça do seu jeito. – Falou ao virar o rosto para ela, suavizou a expressão antes chateada ao notar o sorriso suave dela. – Que seja logo, quero descobrir os motivos sinto que estou sendo jogado em algo sério e não gosto de ser pego de surpresa.

-Falarei com ele o quanto antes. – Pegou a xícara de café e tomou.

A jovem freira caminhava apressada pela calçada parcialmente coberta de neve após saltar do táxi em frente ao prédio ao qual fora a última estadia de seu amigo Gianni. Estava tensa e olhava tudo a sua volta até entrar no prédio naquela noite fria. Tocou por fim o interfone e aguardou, alguns minutos passaram e voltou a tocar no interfone, logo em seguida foi atendida.

– Boa noite, Sr Botan? – Ela estava um tanto trêmula e sua voz saiu baixa. – Sou a Irmã Maria, gostaria de lhe falar, posso entrar?

– Boa noite, irmã Maria. Claro, entre. – Willian fez um gesto para Gianni e apertou o botão para abrir a porta a ela.

Depois do ataque ao amigo de Willian, ambos estavam cautelosos e Gianni fez um gesto para todos se esconderem. Lya ficou e escondeu-se nas sombras pronta para um ataque se fosse necessário, os demais foram para os quartos e aguardaram.

Gianni ficou de pé ao lado oposto da porta quando Willian olhou pelo olho mágico. Notando que só havia a freira na frente da porta, abriu, porém com a guarda pronta para atacar se alguém resolvesse surpreendê-los.

– Irmã Maria, quanto tempo – Apoiou a mão no batente da porta e olhou rapidamente para o corredor, voltou o rosto para ela dando um leve sorriso. – Então, o que trás aqui?

– Sr Botan, sei que é atrevimento visitar-lhe a tantas horas, mas eu preciso encontrar padre Salv… Ah desculpa, Gianni… – Corrigiu-se sem jeito. – Eu sei que ele partiu, mas teria como ao menos me indicar um rumo?

Willian ainda a mantinha de pé no lado de fora do apartamento e olhou disfarçadamente para Gianni que estava escondido de trás da porta. Gianni fez um gesto com a cabeça negativo, para ele não informar que estava na cidade e muito menos no apartamento.

– Eu sinto muito irmã Maria, ele partiu e ainda não nos deu um sinal de onde esteja, apesar de ter-me dito que avisaria onde estaria residindo. – Notou a agitação dela e o olhar assustado. – Aconteceu algo? Parece assustada, posso ajudar?

– Eu entendo, achei que poderia ter o paradeiro dele ou indicar uma direção. – Virou os olhos assustados e marejados. – Eu não sei ao certo, afinal não é um problema que diz respeito ao senhor.

– Eu posso entender, porém se me falar, quem sabe conheça alguém que possa ajudar. – Will falava disfarçando e olhando Gianni no canto.

– Quem sabe, talvez possa ajudar. – Respirou fundo e falou trêmula. – Recebi um telefonema do Arcebispo Dom Bartolomeu de que era para sair da cidade, fugir na verdade, porque viriam atrás de mim. – Ela olhou para dentro do apartamento e depois para o vampiro. – Eu achei muito estranha essa ligação, eu questionei e ele falou apressado que estaríamos correndo perigo por conta de uma encomenda que levei para ele a pedido de Dom Emanuel de Roma. – Inspirou baixo. – Eu saí da casa de minha amiga e estou em uma pensão, mas… Estou com medo e preciso encontrar Gianni, sei que ele pensaria em algo… Eu…

Willian estranhou aquela história e alarmou-se voltando olhar para Gianni de trás da porta.

– Pode deixar ela entrar, Willian, ela não foi seguida e não há nenhum vampiro de tocaia. – Lya saiu das sombras e parou ao lado de Will com um sorriso gentil a freira.

Irmã Maria arregalou os olhos ainda mais assustada quando viu-a sair das sombras ficou sem voz naquele momento, por fim conseguiu balbuciar aquela palavras fazendo menção a vampira.

– A Dama Negra…- murmurou assustada.

– Sou eu… Culpada. – Sorriu – Não fique aí parada com essa cara de que viu um demônio, entre. – Andou até ela e tocou leve o ombro da freira fazendo-a entrar quase que forçada.

Willian fechou a porta e viu Gianni sumir nas sombras, passou a mão nos cabelos e voltou para ambas mulheres com um sorriso a face para disfarçar o clima tenso.

– Srta Lya veio procurar Gianni, o cara é requisitado, mas como disse antes ele não está. – Apontou o lugar no sofá para a freira sentar.

Irmã Maria ainda estava assustada com a vampira a sua frente, sentou sem jeito e ficou olhando-a .

– Eu acho que realmente não tem como me informarem aonde Gianni foi, então eu já vou… – A freira tentou levantar, porém Lya a impediu.

– Espere, irmã. – Os olhos verdes estavam fixos na freira e analisavam-na dos pés a cabeça, por fim a vampira sorveu levemente o ar ao se aproximar mais dela, queria sentir o cheiro da freira e assim o fez. Logo que sentiu o cheiro dela, afastou-se e ao sentar na cadeira fitou no canto dos olhos a direção das sombras que Gianni escondia-se. – Fique, irmã Maria, ao que pude escutar quando falou com Sr Botan é que possivelmente estão perseguindo-a, mas quem em sã consciência perseguiria uma freira?

– E-eu… – Engoliu seco – Eu não sei dizer… – Olhava Lya trêmula e segurando o terço mexendo nele sem parar. – Eu só sei que o Dom Bartolomeu não é homem de brincadeiras e se mandou eu sair da cidade é que possivelmente tem algo maligno atrás de mim.

Willian ficou de pé perto do sofá observando tudo atento a cada palavra da freira. Lya cruzou as pernas e de forma elegante pousou a mão no braço da poltrona ainda olhando a jovem freira, atenta a cada gesto e fala dela.

– Você tem o cheiro dele… – Falou com uma pontada de irritação, farejou levemente o ar e depois sorriu virando o rosto para Willian, porém não era ele que olhava e sim Gianni nas sombras. – Então, foi assim que sobreviveu longe de mim… – Voltou a face para a freira. – É serva de sangue dele.

– Ahn?! – Irmã Maria ficou ainda mais temerosa com o fato de a vampira pelo cheiro saber de tal trato que fez com Gianni em alimentá-lo. – Foi um trato nosso, assim ele não atacaria pessoas inocentes nas crises de sede.

– Não muda o fato de ser uma serva de sangue. – Olhou em volta e depois Willian. – Se eu em poucos minutos descobri isso, imagina quem quer acabar com Gianni possa fazer com a jovem freira.

– Ela falou de uma encomenda… – Willian interrompeu, porém se curvou a Lya como quem se desculpasse por ter interrompido a conversa da puro com a freira. – Esse arcebispo disse que tudo isso vem da tal encomenda de Roma?

Lya fez um gesto para ele continuar a falar com a freira e ficou observando ambos em silêncio.

– Sim, mas eu não sei o que tinha naquela caixa, era uma caixa de veludo cor vinho muito antiga ao meu entender. – Ela inspirou aparentemente demonstrando cansaço. – Desculpa, estou sem dormir direito há mais de 24 horas… Bom, como ia dizendo, eu vi que era essa caixa quando Dom Bartolomeu abriu o embrulho e expôs na minha frente a – Apertava o terço entre os dedos, nervosa. – Eu não sei o que tinha lá dentro.

– Entendo. – Willian virou-se de costas para a freira e Lya e fez um gesto para Gianni manter-se nas sombras, algo dizia a ele que por enquanto era melhor Gianni não se mostrar a jovem freira.

Naquele momento o celular de Maria começou a tocar e ela até levou um pequeno susto pega de surpresa com a ligação, pediu desculpas e olhou a tela do aparelho, franziu a testa demonstrando preocupação e atendeu de pronto a ligação.

– Irmã Clarence, aconteceu algo? – Fez uma breve pausa e ao ouvir as palavras da outra freira na ligação, levou a mão assustada a boca. – Por Deus, como isso aconteceu? Aliás, alguém ferido ou… – Fez outra pausa e ficou ainda mais alarmada. – E-eu, vou lhe encontrar… Diga-me, Dom Bartolomeu está bem? – Ouviu-a relatar novamente e ficou triste. – Estou indo, espere-me. – Encerrou a ligação e olhou ambos os vampiros já sabendo que teria que falar a ambos o que aconteceu. – Incêndio na catedral e felizmente não havia fiéis na nave, mas Dom Bartolomeu foi levado com uns 30% do corpo queimado.

– Nossa… Sinto muito… – Lya olhava-a um tanto alarmada com aquela notícia.

Willian não pensou duas vezes, foi até a estante, pegou as chaves do carro e seu casaco de couro e olhou a freira.

– Irmã Maria, vou com você, essa situação está muito estranha. – Andou a passadas rápidas até a porta e esperou a freira, voltando o olhar as sombras sabendo que Gianni ouvira tudo. – Verei o que está acontecendo, vamos logo, irmã. – Abriu a porta do apartamento e esperou por ela no corredor no lado de fora.

– Obrigada por ir comigo, Sr Botan, estou muito nervosa… – Ela levantou olhando Lya receosa, abaixou a cabeça e correu de encontro ao outro vampiro seguindo para fora do apartamento.

Logo que ambos saíram, Lya levantou e foi de encontro a Gianni que saiu das sombras alarmado com tudo que ouviu da freira.

– Preciso ir até lá, seu servo veio de carro, certo? – Foi até o quarto chamando os demais. – Preciso das chaves do carro.

Michael saiu do lugar acompanhado de Rice e a boneca. Greg apareceu logo em seguida passando pela boneca, desconfiado. O vampiro corvo olhou Lya, que fez um gesto para ele entregar a chave do carro a Gianni. Assim que estendeu a chave do carro, Gianni as recebeu agradecendo e foi para a porta pegando seu sobretudo e arma, colocando no bolso de dentro do casaco pesado.

– Vou com você. – Lya o seguiu e ambos saíram do apartamento indo atrás de Willian e a freira.

O cenário na catedral era desolador. Com as ruas em volta fechadas, acarretou um pequeno engarrafamento na região, fazendo com que ambos tivessem dificuldade a chegar ao local. Willian e a irmã Maria saltaram do carro após estacionar perto e foram até o local a pé, chegando lá eles procuraram a freira que irmã Maria havia falado ao telefone.

Havia dois caminhões de bombeiros, algumas viaturas e muitos curiosos que observavam o lugar e comentavam lamentando o incêndio a um prédio antigo e histórico da cidade. Willian olhava o local atento a cada detalhe e depois o prédio da catedral. Irmã Maria falava com a irmã Clarence e ambas vieram encontrar Willian, pedindo para levá-las ao hospital. O vampiro concordou e voltaram para o carro, assim que ambas entraram ele fez uma chamada para Gianni.

– Estamos indo ao Hospital Geral, foi para onde levaram o arcebispo. – Ouviu a resposta de Gianni. – Ok, aguardo-o lá, tome cuidado. – Willian desligou a chamada e guardou o aparelho entrando no carro e tomando o rumo do hospital sem notar que estava sendo observado de longe.

Pouco tempo depois chegaram ao lugar e as freiras ao saltarem do carro entraram pela porta da emergência, indo à recepção para saber noticias do arcebispo. Willian seguiu e logo que ouviu dos médicos junto com as freiras que o humano sobrevivera, afastou-se delas com alegação que iria fumar e foi até o pátio do hospital, aguardou Gianni e Lya chegarem.

Gianni passou pela catedral e lamentou a destruição feita pelo fogo. Depois que encerrou a chamada com Will, direcionou o carro junto com Lya para o hospital. Estava tenso e falava com a puro que diversas pessoas, que de certa forma estiveram envolvidas com ele, estão sendo atacadas e mortas.

– Preciso descobrir quem está por trás disso, agora temos um sobrevivente de um ataque e pode nos contar quem é o culpado. – Estacionou o carro e olhou Lya. – Acho que tem alguma relação e irmã Maria por minha culpa pode estar em perigo.

– Confirmaremos tudo, afinal o arcebispo sobreviveu e pode nos contar. – Lya saltou do carro após Gianni e ambos foram encontrar Willian no pátio.

Logo que avistaram, se aproximaram olhando em volta.

– E o que descobriu? – Gianni parou ao lado do amigo vampiro.

– Nada, apenas que entraram e atearam fogo no lugar. Segundo relatos, queriam roubar artefatos da catedral e bateram no arcebispo, um padre tentou pedir socorro e foi baleado, está em estado grave. – Tragou o cigarro e soltou a fumaça no ar. – E o arcebispo está com parte do corpo queimado, ao que tudo indica conseguiram roubar coisas sacras do lugar e a tal caixa, foi o que a outra freira falou à irmã Maria.

– Queriam a caixa e forjaram um assalto. – Gianni concluiu.

– A irmã Maria pode estar em risco já que o arcebispo falou da tal caixa para ela e a mandou sair da cidade. – Willian alarmou-o.

– Gianni, se tem algo errado envolvendo a freira e isso pode chegar a você, será arriscado ficarmos aqui. – Lya ficou apreensiva olhando o lugar. – Vamos embora, Sr Botan pode nos informar por telefone.

– Não, irmã Maria está em perigo, não irei deixá-la sozinha. – Gianni se afastou dele e foi até a entrada do hospital atrás da freira.

Lya girou os olhos na órbita e virou para Willian.

– Ele não tem noção que está correndo risco? – Saiu andando atrás de Gianni.

Willian seguiu ambos e logo entraram no hospital. Havia uma única certeza para aqueles vampiros: aquela noite estava somente começando.

Continua….

Colaboração e revisão

Fabiana Prieto

Perfil – > http://cyberseries.com.br/seu-perfil/fabiprieto/

Música Tema : Korn - Forsaken

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

 

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