A Dama Negra – 2ª T – Nocturna III – Revelações Mortais

A Dama Negra – 2ª T – Nocturna III – Revelações Mortais

Nocturna III

Revelações Mortais

Sentada em seu trono especial, Isabella tinha os pensamentos longínquos enquanto olhava através da janela de seu quarto. Seu dedo indicador alisou distraidamente o osso polido. Feito dos crânios de seus inimigos, aquele trono era de um estranho gosto macabro para uma vampira cujos poderes não eram relacionados aos mortos. Séculos atrás ela podia ostentar aquela bela relíquia em seu salão principal para infundir medo em seus inimigos. No entanto, como atual Regente de Roma, deveria omitir certos gostos para manter as aparências. Agora o assento ficava ali, confinado a seus aposentos particulares onde ela o usufruía em seus momentos de meditação.

Passos silenciosos, que somente um vampiro poderia escutar, aproximaram-se. A puro virou-se no exato momento em que o albino pôs os pés em seus aposentos.

– Desculpe incomodar, mia signora, deveria ter batido antes de entrar – Bernard fez uma leve reverência.

– Sabes que tu tens a liberdade de entrar sem ser anunciado – a bela morena sorriu e esticou a mão – Venha até mim.

Bernard aproximou-se e ajoelhou perante sua dona. Bragatti alisou os cabelos e o rosto dele, mas o carniçal segurou delicadamente seu pulso. A vampira franziu o cenho, aquele tipo de comportamento era incomum vinda de seu servo mais prezado.

– Desculpe ser rude, mia signora, mas não trago boas notícias.

Isabella endireitou a postura e olhou-o séria.

– O que tens para mim?

Bernard continuou ajoelhado, mas ergueu a face para encará-la, respondendo igualmente sério.

– Soube pelos informantes que alguém anda pesquisando sobre o que houve com o clã Salvatore, mia signora. Mais de uma pessoa. Parece que alguém anda atraindo perigosa atenção para o passado.

A vampira semicerrou os olhos. Havia eliminado toda aquela família desprezível e recentemente acabara com o último de seus membros, então quem se interessaria em desenterrar aqueles fatos?

– Quem, Bernard?

– Ainda não sei ao certo quem é o mandante, mia signora, mas ao que tudo indica… Gianni Salvatore está vivo.

Os olhos da vampira ficaram rubros e um dos crânios do trono se quebrou sob seus dedos. A fúria estava estampada em sua face e o ar agitou-se perigoso ao seu redor, mas mesmo assim Bernard não se moveu de sua posição.

-… Como?! – rosnou – Tens certeza do que dizes?

– Infelizmente sim, mia signora – o humano respondeu e tirou algo das vestes.

Eram recortes de jornais de acontecimentos estranhos em Nova Iorque, manchetes que um bom observador saberia dizer que foram adulteradas para encobrir algum acontecimento extraordinário.

– Os investigadores vieram à mando de alguém desta cidade, então resolvi verificar e encontrei isto… Mandei alguns servos ao local e eles descobriram que Gianni foi até a delegacia noites depois de sua suposta morte para resgatar seus pertences… Coincidentemente na mesma noite em que a delegacia foi vítima de um ataque. Aquele Regente pode ser paranóico, mas ainda comete erros em seu trabalho… Um deles é ter secretárias particularmente linguarudas e ciumentas.

– Continue… – a vampira ainda o fitava com os olhos semicerrados, intrigada e irritada.

– Conseguimos extrair delas informações sobre toda essa confusão. Ao que parece o Salvatore tornou-se um vampiro e fora um dos envolvidos com o ataque na delegacia, uma confusão entre vampiros e lobisomens… Tentou fugir e sua captura fora ordenada. Não descobri muito mais sobre o que houve, pois a vampira não tinha mais informações além de uma vampira estar interessada na segurança dele… Creio que Lya Merelin lhe seja um nome familiar, mia signora.

Mais um crânio foi quebrado pela outra mão e uma lufada de vento perigosa a rodeou. Bragatti estava furiosa e daquela vez Bernard afastou-se para trás, não por medo, mas por sua própria segurança. A vampira não podia acreditar. Além do maldito Salvatore ainda estar vivo, havia deixado de ser humano e agora podia estar aliado à Dama Negra. Podia não, certamente estaria, pois era ela a mais provável de tê-lo devolvido o dom da imortalidade. Eram péssimas notícias, aquilo punha em perigo tudo o que conquistara até então. Precisava dar um jeito naquele problema antes que a verdade viesse à tona. Não admitiria perder tudo por causa de um maldito filhote que se recusava a permanecer morto.

A ventania acalmou e cessou. A vampira respirou fundo e seus olhos voltaram à colocação normal. Bernard olhou cauteloso e só se aproximou quando ela lhe esticou a mão novamente. Bragatti o esperou se ajoelhar e tornou a afagar seus cabelos, com uma expressão séria repleta de fria raiva contida.

– Ache Gianni Salvatore. Descubra como, onde e com quem está o maledeto. Todos os envolvidos devem ser eliminados.

Noite fria. Lya estremeceu enrolando-se nas mantas macias que envolviam seu corpo com o aroma de Gianni, satisfeita sorriu ainda com os olhos fechados quando de repente se lembrou de onde estava e com quem estava. Levantou lançando os lençóis no ar e sobressaltada olhou todo o quarto, buscando por ele. Estremeceu ao ver que Gianni não estava, fechou os olhos tentando sentir sua presença, mas ele não estava perto. Levantou rápido e com o peito ardendo de angustia.

– Não… Novamente não… – Caçou pelo quarto seu vestido e ao acender a luz se deparou com um bilhete sobre o criado mudo ao lado da cama. – Não, Gianni, por favor, você não fez de novo… – Balbuciou trêmula caminhando até aquele simples pedaço de papel que estava lhe trazendo o terrível medo dele ter partido novamente.

Esticou a pequena mão alva e parou no ar quase tocando a folha. Hesitou, recolheu a mão por reflexo e inspirou fundo tomando coragem para pegar o papel. Pegou em seguida e abriu de uma vez.

– Ahm… Dio Mio…- Ofegou baixo e sorriu.

Bona note mi amore, precisei sair uns instantes, retorno logo. Espere-me. Gianni.”

– Ele só saiu… – Lya levou a mão com o papel no rosto e soltou uma risada aliviada. – Que tola, com medo desse papel… – Voltou a olhar o bilhete ainda sorrindo, dobrou e colocou de volta sobre o criado mudo e olhou em volta. – Melhor preparar-me para recebê-lo, um banho e… – Olhou o vestido e lembrou que não tinha nada além de um sobretudo para vestir.

Estava distraída pensando em usar o sobretudo e deixar o vestido de lado quando notou a presença do outro vampiro chegar à porta do quarto. Colocou sobre a cama e caminhou até a porta do quarto abrindo-a antes que Greg batesse.

Bona note, Sr Greg. – Sorriu suave enquanto olhava o vampiro tatuado de pé a sua frente.

– Err… Boa noite senhora, dona sangue puro… – Sem jeito ele sorriu a ela passando a mão na nuca. – Desculpa incomodar, vim ver se precisa de alguma coisa. – Ele espichou os olhos para dentro do quarto, notando a pequena bagunça soltou um sorriso sacana e depois pigarreou ao voltar os olhos para Lya. – A farra foi boa, hein?!

Lya virou o rosto para dentro do quarto e deu outro sorriso suave.

– Ôh… E como… – Fitava Greg com olhos curiosos. – Respondendo sua pergunta, eu precisaria mesmo era de roupas limpas e comer algo, estou faminta.

– Ah, espere, vou entrar…- Fez que ia entrar e depois parou. – Errr… Posso entrar, certo? – Esperou já quase dentro do quarto.

– Claro, entre… – Lya deu um passo de lado e deu passagem para ele entrar, seguiu-o com os olhos, ainda mais curiosa, até ele abrir o guarda roupa de Gianni.

– Gianni pediu para ficar e ajudá-la com o que precisar, além disso, disse que tinha essa sacola para você… – Estendeu uma sacola de uma loja de roupas femininas. – Opa, desculpe! Para a Srta Sangue puro.

– Ah?! Dio… – Pegou a sacola e abriu olhando o conteúdo e por fim o retirou colocando a sacola sobre a cama. – Obrigado, Sr Greg… – Curvou um pouco a cabeça agradecendo-o.

Abriu o vestido e o colocou sobre ela. Era daqueles que ela adorava usar, estampado de flores negras com fundo azul escuro e saia rodada. Lya levantou o olhar a Greg e sorriu.

– É lindo.

Greg fez um gesto de positivo e voltou para a porta do quarto, ia sair e por fim lhe disse.

– Banheiro no final do corredor à direita e o rango está na mesa. – Riu.

– Sr Greg?!

– Sim, Srta sangue puro? – Parou no batente da porta.

– Irei resolver aquele seu problema com a tal garotinha.

Greg estremeceu e sua expressão ficou pesada e amedrontada, virou o rosto para os lados e para o corredor certificando-se que a garotinha com o urso de pelúcia não estava por perto. Voltou a olhar Lya, apreensivo.

– Srta dona sangue puro, serei eternamente grato se sumir com a aberração. – Voltou a passar a mão na nuca, nervoso. – Will acha que é um surto ou ilusão da minha mente, mas ela existe e me persegue.

– Sim, eu sei, na verdade ela é uma assombração e vem sempre lhe torturar e amedrontar. – Caminhou com o vestido no braço e parou perto dele. – Deve ter feito algo muito ruim, Sr Greg, uma entidade desencarnada não persegue outro ser à toa.

– É mesmo?! – Greg falava com assombro e vez ou outra se arrepiava. – E você, digo, a Srta sangue puro vai se livrar dela para mim?

– Claro, eu prometi, certo? – Deu leves tapinhas no ombro dele ao passar para tomar o rumo do banheiro, parou no meio do corredor e virou para o vampiro tatuado. – E não precisa chamar-me de Srta sangue puro, pode chamar de Lya.

– Ah! Ok, sem problema Srta san… – Riu sem jeito.- Srta Lya. – Greg afastou da porta e deu uma última olhada em volta, estremecendo em seguida desconfiado e seguiu para o lado oposto tomando o rumo da sala de estar.

Naquele início de noite, momentos antes…

Gianni acordara muito intrigado com aquele relatório, ao levantar da cama deixou Lya descansando e foi falar com Willian, queria falar com o informante que reuniu aquele relatório.

– Eu li tudo o que está aqui, diz que meu pai era estéril, que veio morar na cidade Florença e conheceu minha mãe, eles se casaram e nasci pouco depois.- Pensativo folheava a pasta.

Willian tomava uma xícara de café ouvindo o relato dele.

– Das duas uma, ou sua mãe lhe teve com outro humano ou você foi adotado. – Inclinou a cabeça para ele lançando aquela possibilidade.

– Adotado…? Pode ser, essa resposta seria a mais viável. – Pegou um pedaço de torrada e comeu voltando a olhar os papéis. -… se os meus pais me adotaram, devem ter decidido não contar e criar-me como filho legítimo. – Tomou um gole do café. – Eu gostaria de falar com esse seu amigo, pode levar-me até ele?

Willian balançou a cabeça confirmando e levantou da cadeira, se afastou da mesa e foi até o telefone. Fez uma chamada, pouco segundos depois foi atendido e em uma breve conversa acertara aquele encontro finalizando a ligação.

– Consegui que o veja, mas tem que ser agora. – Willian foi pegar seu sobretudo e as chaves do carro. – Sebastian não costuma receber ninguém de tão boa vontade, mas quando falei que era você mudou de ideia. – Girou o chaveiro no dedo e foi até a porta. – O que deixou-me bastante curioso.

– Espere, vou buscar um casaco e deixar um recado para Lya, se ela acordar e não me ver vai sair por ai atrás de mim. – Falava enquanto ia para o corredor que levava aos quartos do apartamento.

Voltou já vestindo um sobretudo marrom e colocou gorro no mesmo tom. Greg apareceu sonolento na sala, esfregando os olhos e com o cabelo desgrenhado notou aquela movimentação de ambos. Sentou largado no sofá e pegou o controle ligando a TV.

– Vão aonde? – Perguntou bocejando.

– Resolver uns assuntos. – Willian abriu a porta do apartamento esperando por Gianni.

– Greg, escuta… – Gianni parou na frente dele.

Greg deslizou o corpo no encosto do sofã para ver a TV a qual Gianni estava impedindo parado na frente.

– Fala, cara, o que foi? – Não tirava os olhos da TV que mostrava uma série de comédia.

– Preste atenção, Lya está no quarto, entendeu.

– Aham, entendi… – Respondia olhando a TV distraído.

– Greg… – Gianni estalou os dedos perto dos olhos do vampiro.

Greg piscou várias vezes e olhou-o, bocejando espreguiçou e fitou o vampiro de pé a sua frente.

– E aí, Gianni, acordei. – Riu no canto dos lábios. – Fala aí, cara, o que quer?

Willian rolou os olhos com o jeito do tatuado e se encostou na porta esperando por Gianni.

– Lya está no quarto dormindo, quero que cuide dela até nós voltarmos, entendeu?

– Ah ok, a Srta dona sangue puro, pode deixar. – Levantou rápido batendo continência. – Vou cuidar dela, Gianni.

– Vamos voltar logo, qualquer coisa nos ligue. – Gianni seguiu para a porta e saiu acompanhado de Willian.

Greg ficou olhando e coçando a cabeça, deu um longo bocejo abrindo a boca mostrando suas presas e foi para a mesa pegar algo para comer.

Willian dirigia pelas ruas lisas pela garoa gélida que caíra aquele inicio de noite, enquanto instruía Gianni.

– Sebastian é um tanto reservado, fala pouco e não gosta de ser encarado. – Parou em um sinal vermelho e olhou pelo pára-brisa voltando a falar com o amigo. – Ele mora um pouco afastado da cidade e como lhe disse não gosta de receber ninguém em seu refúgio. – Voltou a guiar o carro conforme o sinal ficou verde. O som do limpador do pára-brisa acionado cortava o som dos demais carros na rua.

– Não tenho intenção de encará-lo, só quero saber dele mais informações ou onde posso obtê-las. – Gianni olhava pela janela sentado no banco do carona, as poucas pessoas passavam com seus guarda-chuvas abertos em passos apressados, fugindo do frio daquela noite. – Resolvo logo isso e voltamos antes que Lya resolva vir atrás de mim.

Willian concordou e depois deu uma risada divertida ao ouvir aquelas palavras sobre a sangue puro.

– Quem diria, semanas atrás você resmungava e queria bater em meio muito com essa cara amarrada por conta dela. Agora está aqui preocupado com ela e que pode vir atrás de você. – Riu fazendo a curva e entrando em outra avenida larga.

Gianni olhou-o sério, mas depois soltou um leve sorriso no canto dos lábios e balbuciou algo em italiano, ralhando com o amigo vampiro.

– Eu ainda tenho pendências com Lya, mas por enquanto prefiro deixar do jeito que está. – Ele fitou novamente a rua e continuou a falar. – Eu descobri que mesmo depois de tudo gosto muito dela e esse sentimento começou muito antes em Roma, quando ainda era padre.

Willian se limitou a ouvir, afinal para ele aqueles humanos e suas crenças não lhe diziam muita coisa, afinal os vampiros não viam o mundo como eles e o que sempre prevalecia era o desejo pelo sangue, ao contrário dos humanos, onde o que prevalecia eram dogmas, crenças e paradigmas.

Pouco depois, já um tanto afastados da cidade, seguiram por uma rua onde havia prédios baixos de no máximo três a quatro andares. Willian parou o carro diante de um e desligou o motor, ficou olhando em volta e depois para a entrada do lugar.

– Estranho. – Murmurou aquela palavra chamando atenção de Gianni.

– Algo errado? – Olhou para a entrada do prédio e depois para o outro vampiro.

Willian fez um gesto para Gianni olhar o local e observou um tempo antes de sair do carro.

– Sebastian havia me dito que um servo dele estaria nos esperando, mas não há ninguém aqui. – fechou a porta do carro e ao ver Gianni sair deu a volta pela frente do veículo e fitou a rua.

Havia um leve nevoeiro e estava completamente deserta, aquele lugar era um ótimo cenário para um filme de terror.

– Will, melhor não ficarmos parados aqui, vamos dar a volta no quarteirão e ver se o tal servo de seu amigo aparece. – Gianni voltou para o carro e quando tocou a maçaneta ouviu um som abafado de tiro vindo de um beco próximo a eles. – Ouviu isso? Tiros… – Enfiou a sua mão dentro do sobretudo e puxou sua pistola abaixando, discretamente ao seu lado para nenhum humano o visse com ela caso aparecesse. Foi se esgueirando pela calçada até o beco, fazendo um gesto com a cabeça para o outro segui-lo.

Willian engoliu seco e mesmo que não quisesse se viu obrigado a seguir Gianni, afinal não iria ficar ali parado como um alvo fácil. Gianni invocou as sombras para protegê-los e caminhou para a entrada do beco. Ambos estavam se esgueirando para ver o lugar, quando notaram um corpo caído no chão agonizando. Alarmado, Gianni apontou a arma com cautela e olhou em volta para ver se não havia ninguém por perto, entrou no beco e seguiu até o corpo no chão. A sombra que chamara agia sobre eles como escudo a fim de ludibriar quem quisesse atirar neles.

– Ah, não… Que merda! – Will esboçou de imediato aquela reação ao ver quem era.

Gianni agachou para olhar o ser no chão e notou que era humano. Tocou seu pescoço para sentir a pulsação, estava morto.

– Pela sua reação, possivelmente esse era o emissário do seu amigo. – Gianni ficou tenso. – Quem atirou está perto e vai atacar. – Apontou a arma para frente e seguiu pelo beco.

– Era ele sim, espere! – Will seguiu Gianni e logo depois ambos chegaram a entrada lateral de um prédio, a porta estava entreaberta e havia um forte odor de sangue vindo de lá. – Essa é a passagem que leva ao refúgio de Sebastian.

Chateado, Will se aproximou encostando na parede para não ser visto caso houvesse alguém de tocaia pronto para atirar em quem entrasse. Gianni fez o mesmo e ficou no lado oposto. Tentou espiar pela fresta o local e notou o odor do sangue fresco, alguém sangrava naquele lugar. Fez um gesto para o outro vampiro que dizia que entraria no lugar primeiro.

Gianni por fim chutou a porta e usou as sombras para se esconder enquanto Willian entrava logo atrás dele, estalava os dedos tentando controlar seu dom. A escuridão do lugar não dava para dizer ao certo o que acontecia, havia um pequeno hall de entrada e logo à frente dois elevadores com uma escada aos fundos. Gianni apontou a escada e seguiram por lá, foram subindo cautelosos até o próximo andar.

A cena que viram fora aterradora: haviam corpos espalhados pelo corredor largo, alguns humanos, e o ar estava coberto por uma poeira típica conhecida deles, de vampiros assassinados. Caminharam desviando dos corpos e vez ou outra Gianni tocava o pescoço de algum deles para sentir a pulsação. Nada, não sentia nada, estavam todos mortos.

– Minha nossa, quem fez isso? – Willian passava a mão na cabeça, espantado com aquele massacre. – Vamos encontrar Sebastian. – Andou até o final do corredor e abriram a porta olhando o lugar, eram salas grandes, mesas de escritório espalhadas e mais corpos caídos no canto.

– Pela forma que estão caídos um por cima do outro, eles deve ter ouvido os tiros e correram para se salvarem. – Gianni analisava a cena deduzindo o que aconteceu com aquelas pessoas. – Seu amigo, se ainda estiver vivo, será um milagre.

Saíram do lugar e voltaram pelo corredor subindo mais um lance de escada, com Gianni à frente apontando a mira. Fosse quem fosse que houvesse atirado, se fosse vampiro as balas de sua pistola estavam preparadas com magia para matar as criaturas.

No outro andar havia um largo salão e ali havia um grupo de humanos mortos, não eram tantos quanto no andar de baixo. Willian seguiu ainda atrás de Gianni apontando uma sala fechada.

– A sala onde geralmente Sebastian recebe alguém.

Cautelosos, foram para o lugar e pararam na lateral, a sala estava com a porta entreaberta e Gianni empurrou para ver o lugar enquanto se escondia do lado da parede.

A sala tinha um forte cheiro de pólvora e sangue, havia um ar pesado e denso. Gianni entrou primeiro apontando a arma e olhou todo o local. Willian entrou e foi até a mesa onde Sebastian costumava ficar, a cadeira estava virada de costas para eles. Quando o vampiro a virou, estava vazia.

– Ele não está aqui, será que foi levado por aqueles que fizeram isso? – Passou a mão no rosto, tenso com toda aquela situação.

– Melhor irmos embora, não sabemos se chamaram a polícia e, sinceramente falando, quero distância de delegacias. – Gianni mal acabara de falar e um tiro atravessou o ar atingindo o ombro de Will, que gritou caindo no chão.

Gianni abaixou e foi até o vampiro, que se contorcia de dor com o braço sangrando muito. O tiro fora de bala para matar vampiros, o ferimento estava feio e Will gemia de dor. Diversos tiros atravessaram a janela atingindo o lugar, perfurando móveis e paredes.

– Estão atirando de fora, possivelmente de outro prédio. – Gianni pegou um casaco de um corpo caído naquela sala e pressionou contra o ferimento de Will. – Segure firme, vou tentar parar o desgraçado.

Gianni arrastou Will para trás de um sofá largo e depois se arrastou até a janela, olhou pela fresta da persiana procurando de onde vinham os disparos. Outros tiros foram disparados e o vampiro escondeu-se longe da janela.

Will estava se esgueirando atrás do sofá que fora virado para protegê-lo, quando notou no canto perto de uma porta um braço caído parte para o lado de fora. Reconheceu o relógio nele e foi se arrastando até chegar perto. Ao abri-la alarmou-se, era Sebastian gravemente ferido. Ainda se mexia, porém pela quantidade de sangue que perdera não resistiria por muito tempo.

– Sebastian, amigo… – Will fez uma careta sentindo o ombro doer por conta do tiro, parou ao lado dele e tocou-o tentando ajudá-lo. – Sebastian, resista, vamos tirar você daqui. – Willian voltou a face a Gianni. – GIANNI, aqui! Encontrei Sebastian, está muito ferido.

Gianni voltou o rosto para a direção de onde estava Will estava ao ouvi seu chamado. Os tiros pararam e ex-padre se esgueirou até ele. Quando chegou perto, ficou tenso pelo estado da criatura ao lado de Will, que sangrava bastante, eram diversos tiros por todo corpo e um na cabeça.

– Ele não vai durar muito. – Gianni procurou algo em volta e pensou em uma forma deles saírem de lá. – Vou usar as sombras para nos escondermos e facilitar a fuga desse lugar…

– S-sr… Bo…tann…- a voz fraca de Sebastian chamou a atenção deles. – E-eeuu… não… vou resistir… – Tossiu sangue a cada tentativa de falar.

– Não fale muito para não gastar mais de suas forças. – Will sentia o ombro e concordou com o plano de Gianni. – Vamos, Sebastian, sei que a pergunta é idiota, mas consegue ao menos levantar? Preciso tirá-lo daqui.

Sebastian forçou levantar a cabeça quando Gianni puxou uma cortina e foi até o vampiro para enrolá-lo. Willian ajudou e assim que o vampiro ferido sentou apoiado na parede falou com ambos.

– N-não… adianta, não vou… conseguir sair… Vão… – Sebastian cuspia sangue e empurrou Willian para ir embora. – Eles estão… querendo encobrir a verdade…Vão atrás de todos que sabem, eliminar… e apagar os fatos…

Gianni voltou a face para a porta e olhou para fora ainda esgueirando para proteger-se de algo que atacasse no corredor fora do escritório. Vendo que estava vazio, fechou os olhos e se concentrou chamando as sombras. Não se esforçou muito daquela vez e tudo começou a ficar escuro como um manto negro cobrindo o lugar.

– Sebastian… – Willian sabia que não teria como ajudar o amigo. – O que querem encobrir? Quais seriam os fatos para fazerem esse estrago todo e lhe atacar? – Intrigado quis saber do que o moribundo amigo havia descoberto.

– Sal…vatores… – Tossiu sangue novamente. – Salvatores tiveram um… primo…gênito.- Voltou a tossir. – Sobrevivente ao massacre… do … clã…- Tossiu e começou agonizar.

– Um sobrevivente, minha nossa… – Willian virou o rosto para Gianni, que se aproximou deles. – Ele disse que o Clã dos Salvatores tem um sobrevivente do ataque que dizimou-os. – Voltou a face para Sebastian. – E você sabe onde ele está?

Sebastian deu um último grunhido de dor e virou o rosto direto para Gianni, logo em seguida o vampiro virou cinzas.

– Sebas…- Willian levou a mão a boca e ficou sério vendo as cinzas do amigo.

– Sinto muito… – Gianni tocou o ombro oposto ao ferimento dele e levantou. – Vamos descobrir quem é, mas agora temos que fugir desse lugar. – Voltou-se para as sombras que começaram a rodeá-lo. – Vamos.

Will levantou e com a mão sobre o ombro baleado juntou-se a Gianni nas sombras, caminharam em seguida pelo corredor e desceram os andares. O vampiro apontava a arma para garantir que não seriam pegos de surpresa. Pouco depois estavam no carro.

As sombras cobriam todo o prédio e o quarteirão, impressionando Willian.

– Minha nossa, desde quando você consegue fazer isso? – Olhava a frente e não conseguia enxergar nada.

– Andei treinando… Deixe perguntas para depois, vamos logo… – Entrou no carro assumindo o volante.

Willian entrou sentando no banco do carona e logo que o carro saiu em disparada voltaram a ouvir os tiros, que acertaram o vidro traseiro e mala do mesmo.

– Eles conseguem nos ver? – Will se encolheu no banco.

– Não, devem está atirando a esmo. – Gianni pisou fundo e notou que uma moto vinha atrás deles. – Uma moto está nos seguindo, ou acredita que está… – Notou que o motoqueiro que estava todo de negro e capacete para encobrir sua face apontou uma arma fazendo vários disparos, estava atirando a frente. – Ele está seguindo o som do motor do carro, esperto. – Gianni acelerou ainda mais alcançando alta velocidade.

– Água… – Willian virou para olhar na direção que vinham os disparos. – Posso pará-lo, mas preciso de água, bastante água… – Voltou a face para Gianni.

Gianni olhou-o e depois o caminho, onde encontrar água? Hidrantes… Foi a ideia que veio a mente.

– Prepare-se, vou arrebentar os hidrantes com as sombras, vai nos expor… – Concentrou-se novamente e as sombras saíram do carro e se dividiram em hidrantes espalhados na calçada logo à frente.

Os disparos ficaram mais intensos acertando a traseira do veículo e Willian abaixo no banco para se proteger. O primeiro hidrante arrebentou a válvula e jorrou água, logo depois na calçada oposta o segundo sofreu o mesmo e jorrou água há quase 2 metros de altura.

Willian rapidamente olhou a água e com as mãos a manipulou direcionando o ataque dos jarros ao motoqueiro. Para desviar do ataque de água o motoqueiro parou de atirar e jogou a moto para a direita do carro deles, no entanto não contou com o segundo jarro d’água que acertou-o em cheio fazendo perder o controle da moto e derrapar.

O terceiro hidrante foi arrebentado e o jarro de água virou uma enorme mão e espalmou o motoqueiro que tentava se levantar atordoado pelo tombo, arremessando-o contra uma vitrine arrebentando todo o lugar onde ele caiu sobre os manequins.

– Pronto, agora podemos fugir… – Willian sorriu satisfeito e se ajeitou no banco.

– Ótimo… – Gianni tinha uma expressão estranha. – Vamos para casa. – Acelerou o carro.

– Gianni… – Estranhou a expressão do amigo e baixou o olhar notando que ele sangrava. – Que droga, foi atingido…- Will passou a mão na cabeça nervoso.

– Eu aguento chegar…- Gianni sentia o corpo mole e sabia que por ter usado muito as sombras estava ficando fraco, o tiro só piorou o seu estado. – Estamos perto… – Acelerou pisando fundo e usou as sombras para encobrir o carro e não serem parados por uma viatura de polícia.

No apartamento, Lya havia terminado seu desjejum e fazia uma chamada para Vincenzo.

– Estou bem, papa, não se preocupe tanto… – fez uma pausa ouvindo-o do outro lado da linha. – Eu entendo, mas conversamos e sei que ele ainda tem questionamentos… – Sorriu suave com a resposta do outro lado da linha. – Eu espero que sim, papa, espero mesmo que Gianni não queira mais odiar-me, logo estarei em casa. – Sorriu novamente. – Sim, papa, tomarei cuidado, até logo mais. – Encerrou a chamada e olhou o celular um tempo até ver Greg chegar com uma lata de cerveja e estender uma a ela.

Lya sorriu e pegou a lata de cerveja agradecendo.

– Faz bastante tempo que não bebo cerveja, obrigada.

– Srta Lya, eu sei que prometeu, mas quando pretende livrar o Greg aqui daquela garotinha maldita? – Sentou no sofá e olhou-a sentada em uma poltrona ao lado, tremia um pouco a perna demonstrando seu estado de ansiedade.

Lya tomou um gole da bebida e virou o rosto para ele esboçando um leve sorriso.

– Agora mesmo, se desejar. – Ela tomou mais um gole longo da cerveja, colocou a lata na mesinha de centro, levantou e olhou para o lado esquerdo de Greg. – Que por sinal está ao seu lado nesse momento.

– AH!!! O QUE?! – Greg levantou do sofá assustado e parou ao lado de Lya, olhando o móvel com medo. – C-co-como assim? Eu não vejo.

Lya sorriu divertindo-se com o jeito de Greg e inclinou a cabeça para a garotinha que sentada a olhava com raiva.

– Ela sempre está ao seu lado, Sr Greg, só mostra-se quando quer lhe assustar. – Olhou-o por cima do ombro. – O que me faz questionar, o que fez a essa garotinha?

– O que eu fiz?! – Greg olhava o sofá e depois Lya, confuso. – Eu lá sei… Não fiz nada…

Nesse momento a almofada voou em direção a ambos, fazendo Lya segurá-la no ar.

– Veja só, ela tem tanto ódio do senhor que consegue manifestar-se no plano físico, interessante. – Lya inclinou a cabeça de lado e seus olhos se tornaram negros. – Fez algo grave a ela, devido a isso vem te perseguindo. – Ainda olhava o espírito da garotinha que flutuava a sua frente, enfrentando a vampira. – Tenho duas opções para você.

– Quais opções? – Greg já estava do outro lado da sala olhando de lado o jeito de Lya, que mudara a face e sua energia transmitia certa pressão no ar.

– Ou ela segue a “Luz” conforme dizem os humanos quando morrem. – A energia da puro ficou ainda mais densa e pesada. – Ou ela fica e arca com as consequências.

O espírito da garotinha afastou-se conforme o olhar negro da vampira a repreendia, ainda assim mesmo receosa decidiu enfrentá-la, avançou contra Lya. A vampira fez somente um gesto com a mão e o espírito ficou paralisado.

– Ótimo, ela vai ficar.

– Ela vai… FICAR?! – Greg arregalou os olhos e se encolheu no canto da sala.

– Não se preocupe, a opções eram para ela, já que escolheu ficar, vai arcar com as consequências. – Lya deu um leve sorriso perverso e pegou o seu celular fazendo uma chamada, que logo em seguida foi atendida. – Mic, pode fazer-me um favor? – Esperou a resposta. – Traga-me na residência onde encontrou Gianni aquela boneca. – Fez outra pausa para ouvi-lo e ficou satisfeita. – Obrigada. – Encerrou a chamada.

O espírito da garotinha tentava mexer-se, porém sem muito resultado. Greg, ao ouvir aquela conversa dela ao celular, ficou intrigado.

– Vai dar uma boneca a ela? – Coçou a cabeça.

– Não… – ficou pensativa uns instantes, concluindo. – De certa forma sim, daremos uma boneca a ela. – Esboçou outro sorriso enigmático.

Pouco mais que meia hora depois, Michael apareceu na porta de entrada do apartamento com uma caixa rosa e branca e uma fita de cetim amarrando-a em volta formando um laço no centro. Lya abriu a porta e ele entrou curvando-se diante dela.

– Quem será a pobre e infeliz alma dessa vez? – Mic colocou a caixa sobre a mesa, olhou o apartamento e depois Greg, que estava sentado na cadeira da mesa de jantar roendo as unhas. Ergueu uma das sobrancelhas e voltou-se para Lya. – Esse cara está bem?

– Espírito forte, acredita que consegue tocar a matéria? Achei incrível. – Olhou Greg e deu de ombros. – Acho que sim, ele está só agitado, mas como ia dizendo é algo que procuro há algum tempo e acho que dará certo. – Lya virou-se para a mesa onde a caixa estava e desfez o laço, abrindo a tampa logo em seguida. – Linda! – Segurou a boneca que tinha 1 metro de altura e pediu a Mic que deixasse a mesa vazia.

Logo que foi feito e a mesa não havia nenhum objeto, ela deitou a boneca no centro e ajeitou o vestido e cabelo da mesma. Fez um gesto com a mão e arrastou o espírito da garotinha que ficou sobre a boneca.

– Vai se divertir, lhe garanto. – Olhou-a com seus olhos negros e começou a entoar palavras antigas de uma língua possivelmente morta. O espírito da garotinha começou a desfazer e virar uma pequena névoa que descia em linha reta para dentro da boneca.

Greg estava ao lado de Michael e olhava tudo muito assustado e nervoso. Michael estava com uma expressão tranquila, observava a cena que já vira muitas vezes antes e sorriu no canto dos lábios quando Greg esfregou os braços resmungando que estava todo arrepiado.

Assim que toda a névoa sumiu para dentro do corpo da boneca, Lya parou de entoar aquelas palavras e seus olhos voltaram a cor normal esverdeados. Ela olhou a boneca e esperou um pouco, até que voltou a falar, dessa vez com a boneca.

– Levanta-te, já acabamos.

Greg ficou intrigado, estranhou a vampira falar com a boneca, olhou para Michael e apontou o dedo para ambas, mas antes que se manifestasse achando que Lya estava doida falando com aquele brinquedo sobre a mesa, se arrepiou ao ver a boneca levantar os braços e girar a cabeça.

– PUTA QUE PARIU!!! – Assustado andou de costas até se encostar na parede perto da janela. – A boneca!!! – apontou o dedo. – A boneca está se mexendo cara!!! Que merda é essa?!

Lya sorriu com o jeito assustado do vampiro tatuado.

– Ela não fará mais nada contra o Sr Greg, agora ela pertence a mim e eu a controlo, fique tranqüilo, nunca mais irá lhe importunar. – Voltou o rosto para a boneca que girou a cabeça para olhá-la. – Então te levanta, quero ver se consegue andar.

A boneca levantou lentamente, apoiou os braços de lado e pegou impulso sentando de uma vez, virou a cabeça olhando-se e depois os braços e pernas. Puxou-as e tentou ficar de pé, no entanto não conseguiu firmeza e caiu sentada.

– Ai… – Assim o som de quem estivesse sentido dor saiu da boneca.

Lya franziu a testa surpresa, a boneca emitia som, intrigada a vampira voltou a falar com ela.

– Tente novamente, segure minha mão, lhe ajudo. – A mulher estendeu a mão para a boneca.

A boneca virou o rosto para Lya e inclinou a cabeça fitando a mão dela, receosa levantou sua mão de plástico. O corpo emitia um ranger de plástico cada vez que ela se mexia, assim ela levou a mão e segurou da vampira fechando os dedos e segurando firme.

Lya ajudou-a a se levantar e descer da mesa.

– Acho que dessa vez consegui, Mic. Veja, minha boneca está andando. – Lya olhava-a com um brilho nos olhos verdes como de uma criança que ganhava o tão desejado brinquedo favorito. – Vire para mim. – Esperou a boneca virar e tocou os cabelos dela. – Eu a ouvi falar “ai” quanto tentava levantar?

A boneca deu um passo atrás e ficou olhando todos até que saiu sons dela, apesar de não mexer lábios para falar.

– Eu… eu… virei… uma boneca? – O som infantil e triste ecoou pela sala.

Lya abriu os olhos, maravilhada com a surpresa.

– Mic, viu isso? Ela fala, incrível! – Aproximou-se da boneca e se abaixou ficando de cócoras diante dela. – Escute, agora seu corpo é assim e poderá ficar comigo, mas não poderá sair por ai, afinal bonecas não falam e não se mexem. – Piscou para a boneca.

– Eram… essas as… consequencias que me falou…- A voz saia da boneca trêmula e aparentando assustada.

– Sim, afinal lhe dei uma escolha. Acredite, agora não tem como desistir, já que sei fazer o ritual de prender espírito em objetos, mas não sei desfazer. – Deu de ombros e levantou ajeitando o vestido.

Greg olhava a boneca boquiaberto, se aproximou cauteloso e estendeu a mão tentando tocá-la.

– Que porra louca, a boneca fala e anda… – ao pegar no cabelo levou outro susto.

– NÃO TOCA EM MIM, SEU ASSASSINO!!! – A boneca gritou com ele se afastando e indo para trás de Lya.

– Lya. – Michael se aproximou dela e olhou a boneca. – Melhor levá-las para casa, essa boneca pode ser vista por algum humano.

– Estou esperando Gianni, assim que ele chegar iremos. – Virou para a boneca e afagou a sua cabeça. – Diga-me, por que o chamou de assassino? Foi ele que tirou sua vida?

Greg intrigado olhava a boneca, nervoso e agitado andando de um lado para o outro. Quando ouviu as perguntas de Lya para a boneca, sua mente começou a juntar peças e ele arregalou os olhos voltando a gritar desesperado.

– QUE MERDA, É A GAROTINHA DO URSINHO DE PELÚCIA!!! – Apontava o dedo apavorado. – FUDEU, CARA, AGORA ELA NUNCA MAIS LARGA MEU PÉ!!! – Levou as mãos segurando os cabelos e puxando. Andava de um lado para o outro desesperado.

A boneca seguia-o com a cabeça e depois olhou Lya, ela estava agarrada segurando a saia da vampira e falou a ela chorosa.

– Ele matou meus pais e minha irmãzinha que tinha um ano, mordeu elas e matou. – Voltou a cabeça ao vampiro agitado. – Estávamos viajando de férias, passamos pelo Grand Canyon, ele apareceu na noite e atacou o nosso trailer. – A boneca escondeu o rosto na saia do vestido de Lya. – Eu escondi-me dentro do armário.

Greg parou de andar e ficou olhando para a boneca que relatava aqueles fatos e sua mente vagou até a cena dele atacando a família, estava sedento, havia sido espancado e largado no deserto para morrer.

– Eu lembro… Fui atacado e largado no deserto para morrer, mas apareceu essa família humana, não pude evitar e os ataquei.

Lya olhou-o e depois a boneca.

– O que aconteceu com você, garota?

– Eu ateei fogo no trailer e joguei no penhasco. – Greg respondeu pela boneca.

– EU O ODEIO, ASSASSINO! – A boneca gritou chorosa e com a voz embargada em fúria a Greg. – Não vou te deixar em paz!

– Isso explica tudo, Sr Greg foi muito mal, apesar que se fosse comigo faria o mesmo, estar com sede no meio de um lugar que é só terra e sol é desesperador. – Baixou o rosto para a boneca. – Aconteceu, lamento muito, mas agora você tem uma nova existência e pertence a mim, vai gostar de viver para sempre, mesmo sendo uma boneca. – Voltou o rosto a Mic e fez um gesto para ele pegar a caixa que trouxera.

– E-eu… – A menina boneca se olhou e começou a choramingar. – E-eu estou com medo.

– Não tenha medo, você é forte, conseguiu andar e falar em alguns minutos dentro do corpo de uma boneca, isso diz que é bastante forte. – Lya sorriu gentil a ela. – Precisa de um nome, já que tem nova vida pode escolher seu nome novo.

A boneca parou e ficou em silêncio uns minutos, pouco depois voltou a emitir o som de fala.

– Anny… Posso usar Anny?

– Perfeito, Anny, seja bem vinda a sua nova vida. – Olhou todos, satisfeita.

Greg ainda olhava a boneca, desconfiado.

– Beleza, mas deixa essa coisa longe de mim… – Estremeceu. – É assustador.

Naquele momento, os três vampiros sentiram o odor forte de sangue vindo de fora do apartamento, Lya se alarmou e correu para porta abrindo-a e parando no corredor, sabia de quem era aquele aroma sanguíneo.

Aproximavam-se Willian e Gianni ambos feridos e apoiando um ao outro.

– Gianni, o que aconteceu com você? – Chegou rápido até ele e o amparou.

Greg apareceu seguindo Michael e ambos foram ajudar a dupla de vampiros a entrar.

– Cara, você levou um tiro? – Greg ajudou Will a sentar. – O que foram fazer para se fuderem dessa forma? – Greg estava nervoso demais, além daquela boneca que lhe dava pavor, ver o irmão ferido o deixou ainda mais sem papas na língua e xingava o tempo todo.

– Fomos ver um amigo e quando chegamos lá havia um verdadeiro massacre. – Willian sentou no sofá fazendo caretas de dor por causa do ombro. – Tiros nos surpreenderam e acabei levando um, era bala para matar vampiros.

Gianni apoiado por Lya e Michael sentou no sofá, estava com a mão sobre o abdômen pressionando para não perder mais sangue.

– Fugimos, porém fomos perseguidos e me acertaram. – Gianni sentiu a dor do tiro e grunhiu baixo fechando os olhos e largando o corpo no sofá.

Lya apreensiva examinava o ferimento no abdômen.

– A bala ainda está em você… – Olhou receosa. – Temos que tirar.

– Eu sei… – sussurrou cansado. – É uma bala anti-vampiro, preciso tirar… – Apontou para o corredor. – No meu quarto, dentro do guarda roupas há uma sacola preta, traga-a. – Falava com dificuldade. – Vai logo, não posso apagar com essa bala em mim, só eu posso tirar.

Lya rapidamente foi ao quarto e voltou com a sacola, abriu-a e olhou dentro.

– O que quer para tirar a bala? – Já ia pegar os itens dentro dela quando Gianni segurou sua mão.

– Pare, eu faço isso, você e nem ninguém aqui consegue segurar os itens de caçador. – Enfiou a mão dentro da sacola e pegou um punhal virou para o local onde estava o ferimento da bala. – Vou abrir um pouco mais a ferida, ajude a estancar o sangue enquanto tiro a bala.

Lya concordou com a cabeça, estava agitada devido ao cheiro do sangue dele e fez um sinal para Mic trazer uma toalha, que logo foi atendida com ele entregando-a.

Gianni fez o talho enquanto sentia a pele arder por cauda da lâmina afiada e colocou sobre o sofá, enfiou dois dedos e procurou o projétil até que achou e puxou. Sua visão estava ficando turva e já sem forças jogou para o lado caindo sujo de sangue no tapete embaixo de seus pés.

Lya, ao ver que podia cuidar dele depois de tirar a bala, ajudou-o a levantar, Michael ofereceu apoio e ambos levaram-no ao banheiro.

– Obrigada, Mic, agora vou cuidar dele. – Falou ao seu servo enquanto colocava Gianni sentado em um banco. Logo em seguida a vampira ligou o chuveiro e ajudou-o a tirar as roupas. – Vem, mi amore, vou cuidar de você.

Gianni olhava-a com os olhos vermelhos e concordou, ofegou baixo ao levantar novamente e ambos entrarem embaixo do chuveiro, estava nu e abraçou-a.

– O vestido ficou muito bom em você… – Beijou o pescoço dela. – Sinto muito, acabei sujando-o e agora a molhando. – Virou a face para ela e passou a mãos nos cabelos molhados dela enquanto a água escorria pelo corpo de ambos.

– Melhor tirá-lo, não é? – Assim ela o fez, abriu o zíper em suas costas e deixou cair pelo corpo até tirá-lo por completo e jogá-lo para fora do box. – Bem melhor… – Sorriu um tanto tensa e olhou o ferimento no abdômen de Gianni. – Como isso aconteceu? Foram caçadores? – Tocou delicada examinando quando foi puxada para mais perto e sentiu os lábios dele em seu pescoço.

– Sede… – murmurou antes de fincar as presas na pele dela e sugar seu sangue. Ficou alguns minutos saciando sua sede.

Lya ofegou baixo e o envolveu em seus braços, deixando-o se alimentar o quanto precisasse. Sua mente questionava, não parava de associar o conteúdo daquela pasta com relatórios com o que aconteceu a dupla de vampiros.

Ficaram um tempo no banho, após Gianni se alimentar estava bem melhor e aproveitou aquele momento trocando afeto entre ambos. Sabia que Lya iria questionar, então antes que ela se manifestasse disse que iria contar o que estava acontecendo quando fossem para o quarto.

Alguns minutos depois no quarto, Gianni lhe dava uma de suas blusas e vestia algo mais confortável.

– Ao menos dá para esperar enquanto o outro vampiro que lhe serve te traz roupas.

Ela concordou com a cabeça e sentou na beira da cama ao lado dele enquanto enxugava os cabelos, havia pedido a Michael para trazer roupas depois que saíram do banheiro.

– E agora que tudo se acalmou, o que aconteceu?

Gianni inspirou baixo e segurou a mão dela, afagando com certo carinho.

– Estávamos investigando os motivos de terem forjado minha morte, esse amigo do Willian era um informante na cidade e descobriu algumas coisas sobre mim e minha família. – Continuou afagando a mão dela, dessa vez demonstrava ansiedade. – Descobriu que parte de minha família era de vampiros. – Levantou o olhar para ver a reação de Lya.

– Ah… Entendi, mas o que mais ele descobriu. – Lya já havia descoberto essa informação.

– Não está surpresa?

– Eu andei investigando algumas coisas e me deparei com essa informação, descobriu que eles foram todos exterminados?

Gianni confirmou com a cabeça.

– Hoje, havíamos combinado uma reunião com esse amigo de Willian, Sebastian era o nome dele, acho que atacaram o refúgio dele para encobrir informações sobre essa história. – Passou a mão na cabeça jogando os cabelos para trás. – Ele morreu, mas chegou a falar algo que acreditamos ser o motivo desse massacre que vi logo cedo.

– E o que ele contou antes de virar cinzas?

– Que o primogênito do clã Salvatore está vivo e foi escondido.

Dio mio… – Lya ficou surpresa com aquela informação, não pelo fato de o sangue puro estar vivo e sim pelo fato de ela e Solomon desconfiarem que Gianni possa ter sido um vampiro e agora aquela história confirmava as suspeitas dela e seu velho amigo. – Gianni, ele disse quem é esse primogênito?

Gianni negou com a cabeça.

– Virou cinzas antes de falar quem é – Gianni pegou a toalha e passou nos cabelos molhados, levantando para ir ao guarda roupas. – Eu fico cada dia mais confuso com toda essa história e a fonte que podia descobrir algo está em cinzas naquele lugar.

Lya estava pensativa, sabia algumas informações, mas o que deixava-a intrigada era o alarde todo em eliminar quem estava investigando. Gianni estava novamente sobre a mira de alguém e Lya temia não conseguir protegê-lo. Olhou-o dali da cama e estremeceu assustada com a possibilidade de perdê-lo. Levantou e andou até ele o abraçando forte pelas costas.

Gianni surpreso ficou olhando-a de lado e afagou os braços dela em volta de sua cintura, virou-se para ela e beijou a testa. Abraçados olhavam a neve cair através da janela.


Continua…

Música tema Beverly Craven - Promise me

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A Dama Negra
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Episódio Escrito Em Parceria 

Fabiana Prieto 

Perfil  Cyber Séries -> http://cyberseries.com.br/seu-perfil/fabiprieto/

Isa Miranda

Amo escrever, por isso sou aquilo que escrevo, são as palavras que me dão poder e nelas me torno única. 

  • Andrea Bertoldo

    Demais!! Até Anabelle entrou na história.kkk Adorei!! Muito bom!!

    • Isa Miranda

      A Anny vai tocar terror rs
      Encapetada <3